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Writer Beware, o arquivo contra a editora que cobra
Desde 1998, duas romancistas americanas juntam queixas de autores. A lição cabe numa linha: o dinheiro anda na direção de quem escreve.
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Quem paga quem, e quando
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Uma taxa de leitura de manuscrito, um pacote de revisão obrigatória, um contrato de coedição com boleto anexo. Os três chegam ao email de quem acabou de terminar o primeiro romance, e os três pedem que o autor pague antes de ver o livro na loja.
Nos Estados Unidos, um arquivo guarda ofertas assim desde 1998. Chama-se Writer Beware (algo como “escritor, cuidado”) e funciona sob a Science Fiction and Fantasy Writers of America, a associação americana de escritores de ficção científica e fantasia, conhecida pela sigla SFWA.
O arquivo nasceu de queixas. Autores escreviam à associação contando que tinham pago agentes que nunca venderam livro algum, editoras que entregavam uma caixa de exemplares e sumiam, concursos literários cuja taxa de inscrição era o único prêmio garantido.
Cada relato vinha com um documento: um contrato, um boleto, um email de elogio. Separados, pareciam azar de um autor só. Juntos, mostravam a mesma empresa fazendo a mesma oferta a dezenas de pessoas, com o elogio idêntico e só o título do livro trocado.
Duas romancistas organizaram as queixas: Victoria Strauss, autora de fantasia, e Ann C. Crispin, que escrevia romances de Star Trek e Star Wars. Elas anotavam nomes, guardavam contratos e cruzavam relatos de autores que nunca tinham se falado.
Com o tempo, o padrão ficou claro. Golpista bom não pede dinheiro logo na primeira mensagem. Elogia o manuscrito, promete vitrine, fala em parceria. A cobrança aparece na terceira ou quarta troca de emails, com nome de serviço: leitura crítica, diagramação, divulgação, cota de exemplares.
Para separar o editor do vendedor de serviço, o grupo adotou uma frase curta, que cabe num papel colado no monitor: o dinheiro anda na direção de quem escreve. Editora séria paga o autor. Quem cobra dele está vendendo outra mercadoria.
A frase tem dono, tem história e tem um teste prático para o seu próximo contrato. A seção I conta de onde ela veio e por que resiste há quase três décadas.
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I A DOSE
A lei de Yog
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James D. Macdonald, romancista americano e veterano da Marinha dos Estados Unidos, escreveu a frase nos fóruns do GEnie, serviço de internet discada da General Electric, onde moderava a área de escritores. Ele assinava como Yog Sysop, e os colegas batizaram a regra de Lei de Yog.
A forma original tem duas partes. A primeira é a famosa: o dinheiro anda na direção do autor. A segunda vem como corolário (consequência que decorre da regra principal): o único lugar onde o autor assina é no verso do cheque, na hora de depositar.
Macdonald pensou a lei para iniciantes, o público mais exposto. Quem termina o primeiro livro quer vê-lo impresso, e a ansiedade faz qualquer proposta parecer sorte. A frase curta funciona como freio: antes de ler o contrato inteiro, o autor checa só a direção do cheque.
Strauss e Crispin pegaram a lei e a transformaram em método. Em 1998, o Writer Beware ganhou página própria dentro da SFWA, com alertas por tipo de golpe: agentes que cobram taxa de leitura, editoras de coedição, concursos pagos, pacotes de divulgação. Em 2006, ganhou também um blog, que segue no ar.
Crispin tocou o projeto até 2013, ano em que um câncer a tirou de cena; Strauss segue à frente desde então. O arquivo cresce por acúmulo: cada queixa nova entra na pasta da empresa citada, e dezenas de relatos parecidos pesam mais que um caso isolado.
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Editora que vende serviço ao autor tem no autor o cliente, e o leitor deixa de importar.
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Por trás da frase há uma conta de negócio. Uma editora tradicional ganha quando o livro vende na loja, e por essa conta escolhe com cuidado, edita, distribui e paga adiantamento (o valor antecipado dos direitos autorais futuros).
Quem cobra do autor inverte a fonte da receita. O lucro vem da taxa paga no contrato, então qualquer manuscrito serve, e vender ao público vira detalhe. Strauss repete o efeito nos alertas do blog: a empresa que lucra com o escritor não precisa que o livro chegue a leitor algum.
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“O dinheiro deve correr na direção do escritor.”
> James D. Macdonald, Lei de Yog, GEnie, anos 1990
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A lei não proíbe o autor de gastar. Quem se publica sozinho paga revisor, capista e anúncio, e Macdonald nunca condenou essa escolha. A diferença está no papel de cada um: na autopublicação, o autor é o editor e contrata serviços; no golpe, alguém se apresenta como editor e cobra para fazer o trabalho que deveria pagar.
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II NA PÁGINA
O contrato que pede cheque
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A pergunta que separa editor de vendedor cabe numa linha: quem paga quem, e quando? Todo o resto do contrato vem depois dessa resposta.
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O golpe raramente se apresenta como cobrança. O Writer Beware cataloga os disfarces mais comuns, e quase todos trocam a palavra cobrança por um rótulo de serviço.
A taxa de leitura aparece como avaliação profissional do manuscrito. A coedição aparece como parceria, em que o autor “divide o risco” e banca parte da tiragem. A compra obrigatória de exemplares aparece como cota de lançamento.
Strauss chama de vanity press (editora de vaidade, a gráfica que imprime qualquer texto desde que o autor pague) a empresa que vive desse modelo. A gráfica existe; o que a empresa omite é que a impressão é tudo o que ela entrega.
Há sinais que aparecem antes do contrato. O elogio chega rápido demais, sem nenhum comentário específico sobre o texto. O prazo de resposta é curto, com desconto que vence. E o catálogo da casa tem centenas de títulos sem resenha alguma fora das páginas da própria editora.
Outro sinal está na distribuição. A editora promete o livro “em todas as livrarias”, mas o título só entra num catálogo de encomenda que nenhuma loja consulta sem pedido do cliente. O autor descobre quando vai à livraria e o vendedor nunca ouviu falar da obra.
Antes de assinar, leia o contrato procurando cinco pontos:
| 1 | Qualquer valor que sai do seu bolso, com qualquer rótulo: taxa, cota, coparticipação, pacote. | | | | 2 | Quem fica com os direitos e por quanto tempo; contrato sem prazo de vigência prende o livro. | | | | 3 | O percentual de direitos autorais, escrito em número, e se ele incide sobre o preço de capa ou sobre a receita líquida. | | | | 4 | Como e quando a editora presta contas das vendas, com relatório datado. | | | | 5 | O que acontece se a editora não lançar o livro: cláusula que devolve os direitos ao autor. | | |
Se o item 1 traz qualquer valor, a Lei de Yog já respondeu. Os outros quatro servem para comparar duas propostas honestas.
Na dúvida, procure a empresa no blog do Writer Beware e nos grupos de autores brasileiros. Uma busca de dez minutos pesa mais que três meses de conversa simpática por email.
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