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Mark Twain montou a própria editora e vendeu Huckleberry Finn de porta em porta, com o pedido assinado antes da gráfica.
Samuel Langhorne Clemens, que assinava Mark Twain, nasceu em 1835 em Florida, no Missouri, e cresceu em Hannibal, a cidade às margens do Mississippi que virou a São Petersburgo fictícia de Tom Sawyer e Huck Finn. Em 1884 ele já era o escritor mais vendido do país.
Twain conhecia a subscrição por dentro. The Innocents Abroad (Os inocentes no estrangeiro), o relato de viagem que o tornou famoso em 1869, saiu por esse sistema pela American Publishing Company, de Hartford, comandada pelo editor Elisha Bliss.
A parceria rendeu best-sellers e desconfiança. Twain passou a achar que a casa de Hartford ficava com a maior fatia do lucro e maquiava as contas, e decidiu cortar o intermediário: se o livro vendia pela assinatura dele na capa, a editora também podia ser dele.
Webster aceitou o cargo sem experiência no ramo. Ele já tinha cuidado de negócios menores do tio por afinidade e ganhou participação na nova casa, que se instalou em Nova York para ficar perto das gráficas e dos distribuidores.
Webster cuidava da operação: contratar os gerentes regionais, que recrutavam os agentes, imprimir os prospectos, encomendar papel e encadernação. Twain aprovava capas, preços e ilustrações, e escrevia cartas frequentes com ordens ao sobrinho.
O arranjo parecia seguro porque o modelo já estava provado. Twain tinha visto de perto como um gerente regional organizava dezenas de agentes num estado, e sabia que o pagamento só na entrega convencia quem nunca tinha comprado livro.
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O autor passou a ficar com o lucro do editor, e também com cada prejuízo que antes caía no colo de outra empresa.
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Para as ilustrações, Twain escolheu Edward Windsor Kemble, um desenhista de 23 anos que tinha visto numa revista de humor. Kemble entregou 174 gravuras, e o volume grosso e ilustrado era parte da venda: justificava o preço diante do fazendeiro.
No fim de novembro de 1884, com milhares de prospectos na rua, alguém da editora reparou numa das gravuras do capítulo 32. A chapa de impressão tinha sido riscada, e a figura do tio Silas ganhara um detalhe obsceno na calça.
A editora ofereceu US$ 500 de recompensa pelo responsável. Ninguém foi identificado, e os registros da época não dizem se foi brincadeira de um gravador ou sabotagem: a pergunta ficou sem resposta até hoje.
O conserto custou tempo. A chapa foi refeita, a folha foi cortada e substituída nos exemplares já encadernados, e o lançamento americano escorregou para fevereiro de 1885. A edição inglesa, da Chatto & Windus, tinha saído em Londres em dezembro de 1884.
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