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ED 049
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Um romance vendido de porta em porta

Mark Twain abriu a própria editora e mandou agentes colherem pedidos de Huckleberry Finn com um livro de amostra antes da tiragem.

Maleta de couro aberta com um livro de amostra, retalhos de capa e um caderno de pedidos.

O prospecto que vendia o livro antes da gráfica

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Um livro de amostra com metade das folhas em branco, três retalhos de capa colados no verso, um caderno pautado para colher assinaturas. Os três viajavam na maleta de cada agente que bateu de porta em porta pelos Estados Unidos no fim de 1884, vendendo um romance que nenhuma livraria tinha: Adventures of Huckleberry Finn (As aventuras de Huckleberry Finn), de Mark Twain.

O livro de amostra se chamava prospecto: trechos escolhidos do romance, uma seleção das gravuras, o índice dos capítulos e a folha de preços. O agente abria o volume na mesa da cozinha do fazendeiro, lia uma passagem para a família, mostrava as ilustrações e só então falava de dinheiro.

Havia três encadernações. Pano custava US$ 2,75, couro de carneiro US$ 3,25 e meio marroquim, o couro de cabra curtido das edições de luxo, US$ 4,25. O comprador assinava o caderno e pagava apenas quando o volume chegasse à casa dele.

A editora que despachava essas maletas pertencia ao próprio autor. Twain tinha fundado a Charles L. Webster & Company em 1884 e posto no comando o marido de uma sobrinha, Charles Luther Webster, um rapaz de 33 anos vindo do ramo de agrimensura.

Nenhuma livraria entrava no circuito. Na venda por subscrição, o modelo que dominava o livro grosso e ilustrado nas cidades pequenas americanas do século XIX, o pedido vinha antes da gráfica, e a tiragem saía do caderno dos agentes, não de um palpite do editor.

Twain tinha fixado uma condição para liberar o lançamento americano: 40 mil pedidos assinados. O livro chegou aos compradores dos Estados Unidos em fevereiro de 1885, meses depois de a edição inglesa sair em Londres.

A seção I conta por que um escritor famoso virou dono de editora e qual gravura quase afundou a campanha dentro da gráfica.

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I  A DOSE

Um escritor dono da gráfica e do risco

Mark Twain montou a própria editora e vendeu Huckleberry Finn de porta em porta, com o pedido assinado antes da gráfica.

Samuel Langhorne Clemens, que assinava Mark Twain, nasceu em 1835 em Florida, no Missouri, e cresceu em Hannibal, a cidade às margens do Mississippi que virou a São Petersburgo fictícia de Tom Sawyer e Huck Finn. Em 1884 ele já era o escritor mais vendido do país.

Twain conhecia a subscrição por dentro. The Innocents Abroad (Os inocentes no estrangeiro), o relato de viagem que o tornou famoso em 1869, saiu por esse sistema pela American Publishing Company, de Hartford, comandada pelo editor Elisha Bliss.

A parceria rendeu best-sellers e desconfiança. Twain passou a achar que a casa de Hartford ficava com a maior fatia do lucro e maquiava as contas, e decidiu cortar o intermediário: se o livro vendia pela assinatura dele na capa, a editora também podia ser dele.

Webster aceitou o cargo sem experiência no ramo. Ele já tinha cuidado de negócios menores do tio por afinidade e ganhou participação na nova casa, que se instalou em Nova York para ficar perto das gráficas e dos distribuidores.

Webster cuidava da operação: contratar os gerentes regionais, que recrutavam os agentes, imprimir os prospectos, encomendar papel e encadernação. Twain aprovava capas, preços e ilustrações, e escrevia cartas frequentes com ordens ao sobrinho.

O arranjo parecia seguro porque o modelo já estava provado. Twain tinha visto de perto como um gerente regional organizava dezenas de agentes num estado, e sabia que o pagamento só na entrega convencia quem nunca tinha comprado livro.

O autor passou a ficar com o lucro do editor, e também com cada prejuízo que antes caía no colo de outra empresa.

Para as ilustrações, Twain escolheu Edward Windsor Kemble, um desenhista de 23 anos que tinha visto numa revista de humor. Kemble entregou 174 gravuras, e o volume grosso e ilustrado era parte da venda: justificava o preço diante do fazendeiro.

No fim de novembro de 1884, com milhares de prospectos na rua, alguém da editora reparou numa das gravuras do capítulo 32. A chapa de impressão tinha sido riscada, e a figura do tio Silas ganhara um detalhe obsceno na calça.

A editora ofereceu US$ 500 de recompensa pelo responsável. Ninguém foi identificado, e os registros da época não dizem se foi brincadeira de um gravador ou sabotagem: a pergunta ficou sem resposta até hoje.

O conserto custou tempo. A chapa foi refeita, a folha foi cortada e substituída nos exemplares já encadernados, e o lançamento americano escorregou para fevereiro de 1885. A edição inglesa, da Chatto & Windus, tinha saído em Londres em dezembro de 1884.

 
 

II  NA PÁGINA

O prospecto, uma página de vendas em papel

O prospecto de Huckleberry Finn fazia o trabalho de uma página de vendas: amostra do texto, prova visual, sumário e preço, tudo num objeto que cabia na mão do agente. O comprador decidia pelo que via, não pela promessa.

A amostra não era aleatória. Os trechos escolhidos tinham humor e ação, porque o agente precisava arrancar uma risada na sala antes de abrir a folha de preços, e o índice completo mostrava ao cliente a extensão da aventura que ele levaria para casa.

As encadernações em três faixas davam ao comprador uma escolha que não era entre comprar e recusar, e sim entre pano e couro. O retalho colado no verso deixava a pessoa tocar o material, e a faixa mais cara servia de âncora (referência de preço que faz a do meio parecer razoável).

O caderno de assinaturas fazia o resto. Cada nome anotado virava prova social (a confiança que nasce de ver vizinhos comprando) para a casa seguinte da mesma rua, e a soma dos cadernos dizia à editora quantos exemplares imprimir sem sobrar encalhe no depósito.

1Escolha três trechos do seu livro que funcionem sozinhos, sem contexto.
 
2Monte uma página com esses trechos, o sumário e uma imagem da capa.
 
3Ofereça duas ou três versões com preço em reais, do ebook ao exemplar autografado.
 
4Colete os pedidos com nome e email antes de pagar a gráfica.
 

“Eles expulsaram Huck da biblioteca como lixo, adequado só para as favelas. Esse veto vai nos vender 25 mil exemplares, com certeza.”

> Mark Twain, carta a Charles L. Webster, 1885

O veto veio da Biblioteca Pública de Concord, em Massachusetts, que em março de 1885 retirou o romance das estantes por causa da linguagem rude e do narrador malandro. Twain tratou a proibição como anúncio gratuito para os agentes.

A logística fechava o ciclo. Quando a tiragem saía da gráfica, os volumes seguiam em caixas para os gerentes regionais, e o próprio agente fazia a segunda visita para entregar o exemplar e receber o dinheiro, ficando com uma comissão sobre cada venda.

O modelo também tinha limite. O agente de subscrição carregava fama de insistente, e muito comprador urbano torcia o nariz para livro vendido na porta. Twain aceitou o preconceito em troca de chegar a famílias que moravam a dias de uma livraria.

 

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III  O MERCADO

A ficha da venda por subscrição

No objeto: um romance de 366 páginas, com 174 gravuras de Edward Windsor Kemble, vendido em três encadernações.

No procedimento: agentes de porta em porta com prospecto e caderno de pedidos, pagamento na entrega e tiragem definida pela soma das assinaturas.

No motivo: Twain queria o lucro que via ficar com a editora de Hartford e montou a própria casa para vender os livros dele.

No período: campanha nas ruas no fim de 1884 e entrega aos compradores americanos em fevereiro de 1885.

No lugar: a Charles L. Webster & Company, em Nova York, com gerentes regionais recrutando agentes pelo interior.

Nas medidas do caso:

Encadernação em panoUS$ 2,75
Couro de carneiroUS$ 3,25
Meio marroquimUS$ 4,25
Gravuras de Kemble174
Pedidos exigidos por Twain para lançar40 mil
Recompensa pela gravura adulteradaUS$ 500
Primeiro cheque dos royalties de Grant, 1886US$ 200 mil

No que veio depois: a mesma editora lançou em 1885 as memórias do ex-presidente Ulysses S. Grant, também por subscrição, e em fevereiro de 1886 entregou à viúva, Julia Grant, um cheque de US$ 200 mil.

No mecanismo por trás do lucro: a venda antecipada financiava a impressão. A editora imprimia com os pedidos na mão, recebia na entrega e não precisava empatar capital num estoque que talvez encalhasse.

No que o caso prova: que pedido colhido antes da tiragem tira do autor o chute sobre quantos exemplares imprimir.

No que ele não prova: que ser dono da editora protege o escritor. A Webster & Company quebrou em abril de 1894, drenada por maus investimentos de Twain e pela crise financeira de 1893.

No desfecho da dívida: Twain fez uma volta ao mundo dando palestras pagas e quitou os credores integralmente em 1898, embora a lei da falência não o obrigasse.

No que fica de rotina: mostrar a amostra e colher o pedido antes de gastar com gráfica, estoque e frete.

Autor que imprime primeiro e procura comprador depois paga pela tiragem inteira sem saber quantos vão ler. Autor que colhe o pedido primeiro imprime só o que já foi vendido.

“Quantas pessoas assinariam hoje um pedido do seu livro, se você mostrasse três páginas dele?”

Hoje: escolha três trechos do seu manuscrito, uma página cada, e mande para dez leitores com a pergunta se comprariam o livro inteiro, até amanhã à noite.

 
 
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Que condição Mark Twain fixou para liberar o lançamento americano de Huckleberry Finn?

AAprovação prévia da Biblioteca Pública de Concord
BPublicação no mesmo dia da edição inglesa em Londres
C40 mil pedidos assinados pelos agentes
D10 mil exemplares já impressos antes da campanha

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