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Richard Bachman, o nome falso de Stephen King
Por 7 anos, King lançou livros com outro nome para driblar a regra de um título por ano. Um livreiro desfez o disfarce.
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O autor que nunca existiu
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Uma foto de um corretor de seguros, uma granja de galinhas em New Hampshire, uma esposa chamada Claudia Inez. Os três formavam a biografia de um escritor que nunca existiu.
O escritor se chamava Richard Bachman. Entre 1977 e 1984, ele lançou cinco romances nos Estados Unidos, quatro deles em brochura barata, do tipo vendido em banca de rodoviária e farmácia. A orelha dizia que Bachman era recluso, escrevia à noite e não dava entrevistas.
A foto da contracapa mostrava Richard Manuel, um corretor de seguros amigo de Kirby McCauley, o agente literário de Stephen King. O nome veio de dois lugares: Richard Stark, pseudônimo do romancista policial Donald Westlake, e a banda Bachman-Turner Overdrive, que tocava na vitrola quando King precisou escolher.
Por trás da granja e da foto estava o autor de terror mais vendido do país. King já tinha lançado Carrie, em 1974, A Hora do Vampiro, em 1975, e O Iluminado, em 1977. Escrevia mais rápido do que o mercado aceitava publicar.
A conta do mercado era curta: um nome, um livro por ano. As editoras temiam que dois títulos do mesmo autor num só ano brigassem pelo mesmo leitor e pelo mesmo espaço na vitrine, e que um derrubasse as vendas do outro.
Bachman resolvia a conta. Livros que King tinha escrito antes da fama, guardados desde a faculdade, saíram com outro nome, outra capa e nenhuma pista. O disfarce aguentou sete anos.
Em 1985, um funcionário de livraria em Washington chamado Steve Brown leu os livros de Bachman e reconheceu o estilo. Foi à Biblioteca do Congresso, pediu os registros de direitos autorais e achou o nome de Stephen King num deles.
Para quem escreve hoje, a história levanta uma pergunta prática: o que o nome na capa leva de um livro para o seguinte? A seção I conta como Bachman nasceu, como caiu e o que King fez com ele depois.
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I A DOSE
O fazendeiro de New Hampshire
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Stephen Edwin King nasceu em Portland, no Maine, em 21 de setembro de 1947, e vendeu o primeiro romance, Carrie, à editora Doubleday em 1973. Os direitos da edição em brochura foram para a New American Library, dona do selo Signet, e o nome dele se espalhou pelas bancas do país.
No fim dos anos 1970, King tinha mais manuscritos do que a agenda da editora comportava. Alguns eram antigos: Rage (fúria), começado quando ele ainda estava no colégio, e The Long Walk (a longa marcha), escrito na Universidade do Maine.
A New American Library topou lançar esses textos como brochura original, sem capa dura, sob o nome Richard Bachman. Rage saiu em 1977, The Long Walk em 1979, Roadwork (obra na estrada) em 1981 e The Running Man (o fugitivo) em 1982. Nenhum ganhou divulgação, e a tiragem foi a de um estreante.
King tinha dois motivos, que ele mesmo listou no ensaio Why I Was Bachman (por que eu fui Bachman), de 1985. O primeiro era a conta do mercado: um nome, um livro por ano. O segundo era uma dúvida pessoal: ele queria saber se venderia pelo texto ou pela fama do nome.
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Bachman servia de teste: o mesmo autor, sem a marca, começando a conta do zero.
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O teste ficou incompleto. Em 1984, Thinner (mais magro; no Brasil, A Maldição do Cigano) saiu em capa dura com o nome de Bachman e vendeu bem para um estreante. Leitores atentos começaram a notar o estilo, e os boatos chegaram às livrarias.
Steve Brown entrou nessa altura. Ele foi à Biblioteca do Congresso e pediu as fichas de direitos autorais dos livros de Bachman. Quase todas traziam o pseudônimo, menos uma: a ficha de Rage registrava Stephen King como autor.
Brown escreveu para a editora de King com as cópias dos registros. King telefonou para ele, confirmou a autoria e ofereceu uma entrevista para que o próprio Brown contasse a descoberta. A notícia saiu em 1985, e o disfarce acabou ali.
King anunciou, em tom de piada, que Bachman tinha partido vítima de “câncer do pseudônimo”. Thinner voltou às livrarias com o nome verdadeiro na capa e vendeu muito mais que na primeira tiragem. Os quatro livros anteriores foram reunidos num só volume, The Bachman Books (os livros de Bachman), também em 1985.
Bachman ainda voltou duas vezes. Em 1996, The Regulators (os reguladores) saiu como obra póstuma, supostamente achada pela viúva numa caixa de manuscritos. Em 2007, Blaze encerrou a série. Nas duas vezes, a capa já não escondia ninguém.
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II NA PÁGINA
O nome que gruda na capa
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Um pseudônimo resolve a conta de vendas, mas cobra em divulgação: o nome novo começa sem leitor. Bachman vendeu pouco por sete anos com o texto de um campeão.
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Foi a resposta que King procurava. Os livros eram bons, mas a capa não trazia nome conhecido, e a brochura sem divulgação ficou na prateleira da rodoviária. O texto sozinho não levou o leitor até o livro.
Para o autor independente, o raciocínio inverso também vale. Quem lançou um primeiro livro que vendeu pouco carrega esse histórico. Livrarias, editoras e o próprio algoritmo da loja olham o desempenho anterior do nome antes de apostar no próximo.
Nas grandes editoras americanas, o histórico tem ferramenta própria: o BookScan, serviço que soma as vendas de varejo de cada título e de cada autor. O comprador de uma rede de livrarias consulta o número do último livro e decide a encomenda do seguinte. Nome com venda fraca recebe encomenda pequena.
Daí que agentes literários nos Estados Unidos às vezes sugerem um nome novo para o autor que mudou de gênero ou que teve um lançamento fraco. O nome novo chega à mesa do comprador sem o número ruim junto.
O preço é o mesmo que Bachman pagou: quem vê o nome novo não sabe quem você é. Os leitores conquistados ficam presos ao nome antigo, e a lista de emails, as resenhas e a página de autor recomeçam do zero.
Quando faz sentido trocar de nome:
| 1 | Você vai lançar num gênero com leitor diferente, como romance policial depois de livro infantil. | | | | 2 | O livro anterior vendeu pouco e o próximo vai para um canal que consulta histórico, como a livraria física. | | | | 3 | Você escreve mais rápido do que o seu leitor compra e quer duas séries rodando sem uma brigar com a outra. | | | | 4 | Você quer testar um texto sem a ajuda da reputação, como King quis em 1977. | | |
E quando manter: se o próximo livro conversa com o mesmo leitor, o nome antigo é o maior ativo que você tem. Recomeçar a conta custa meses de divulgação, e o autor iniciante raramente tem verba para pagar duas vezes.
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