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Os mil exemplares que Grisham carregou no porta-malas

A tiragem de estreia foi de cinco mil, ele comprou mil por conta própria e passou meses vendendo em bibliotecas do interior do Mississippi.

Caixas de livros no porta-malas aberto de um carro numa estrada do Mississippi.

O porta-malas que virou distribuidora

 

Um despertador tocando às cinco, uma pasta de advogado com um caderno amarelo dentro, um porta-malas cheio de livros. Os três aparecem na mesma biografia, entre 1984 e 1990, no mesmo estado americano.

O homem era advogado criminalista em Southaven, Mississippi, e também deputado estadual. A agenda dele não tinha buraco. Tinha audiência, cliente, sessão legislativa e família. O que sobrava era o começo do dia, antes de a cidade acordar.

Ele passou a levantar às cinco da manhã, ir até o escritório e escrever uma página antes de o fórum abrir. Não duas horas de inspiração, não um retiro de escritor. Uma página por dia, num caderno de folhas amarelas, roubando o tempo que ninguém disputava com ele.

Três anos depois havia um romance completo. Depois vieram as recusas: dezenas de editoras e agentes olharam o original e passaram. Um livro de tribunal escrito por um advogado desconhecido do interior não parecia negócio para ninguém em Nova York.

Quando finalmente apareceu um sim, ele veio pequeno. Uma editora independente aceitou publicar cinco mil exemplares em 1989. Cinco mil é uma tiragem de teste, o tipo de número que a indústria imprime para ver se alguém repara.

A maioria dos autores nessa posição espera. Assina, agradece, avisa a família e fica olhando o telefone para saber se a livraria pediu mais. É a atitude natural de quem entende que publicar e vender são trabalhos de departamentos diferentes.

Grisham fez a conta ao contrário. Comprou mil dos cinco mil exemplares com o próprio dinheiro, colocou as caixas no carro e passou os meses seguintes rodando o Mississippi para entregar aquele livro na mão de leitor, biblioteca por biblioteca, clube de leitura por clube de leitura.

A seção a seguir reconstrói essa rota: quem ele procurou, o que fez em cada parada e por que uma tiragem de cinco mil virou o começo de uma das carreiras mais vendidas da ficção comercial.

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I  A DOSE

Mil exemplares dentro do carro

Um terço da primeira tiragem foi parar no carro do próprio autor, e foi de lá que o livro achou leitor.

A estreia de John Grisham foi um romance de tribunal chamado A Time to Kill, publicado em 1989 por uma editora independente, com tiragem de cinco mil exemplares. Nenhuma grande casa quis o original antes disso, e o autor já tinha coleção de cartas de recusa guardada.

Cinco mil exemplares distribuídos pelo país inteiro somem. Espalhados entre atacadistas, redes de livraria e devolução, viram meia dúzia de cópias por cidade média, empilhadas de lombada numa prateleira que ninguém varre com o olho.

Ele comprou mil desses exemplares. Do próprio bolso, com desconto de autor, transformando parte da tiragem em estoque pessoal. A partir daquele momento a distribuição do livro deixou de depender de terceiros e passou a depender de quilometragem.

O destino escolhido não foi a livraria de shopping. Foram as bibliotecas públicas e os clubes de leitura do Mississippi, além de mercearias, feiras de cidade pequena e qualquer encontro em que houvesse gente que lê reunida numa sala.

A escolha tem uma lógica comercial que quase ninguém enxerga. Numa livraria, o autor desconhecido disputa atenção com quinhentos títulos ao mesmo tempo. Numa reunião de clube de leitura com vinte pessoas, ele é a única opção na mesa e conversa com cada uma delas.

Bibliotecária de cidade pequena também é multiplicadora. Ela recomenda o mesmo livro para dezenas de frequentadores ao longo de um ano, sem custo de mídia, e o exemplar que fica no acervo continua trabalhando depois que o autor foi embora.

A editora imprimiu cinco mil exemplares e um deles ficou com mil: o próprio autor, que virou o maior distribuidor do próprio livro naquele ano.

O retorno não foi imediato nem espetacular. A Time to Kill vendeu devagar, o boca a boca cresceu num raio pequeno e a fama nacional só chegou com o romance seguinte, um thriller sobre um advogado recém-formado contratado por um escritório suspeito.

Quando esse segundo livro estourou, aconteceu o efeito que todo autor de catálogo conhece: o leitor novo procura o que veio antes. A estreia que tinha rodado o Mississippi num porta-malas foi reimpressa, reeditada e vendida aos milhões, com o mesmo texto que ninguém queria em 1987.

 
 

II  NA PÁGINA

A rota que substitui a vitrine

Autor iniciante costuma tratar lançamento como data e não como rota. Marca o dia, avisa a rede social, comemora à noite e no dia seguinte não tem nenhuma ação prevista para a semana seguinte, nem para o mês.

A alternativa é montar uma lista de pontos onde o seu leitor já se reúne, e visitar um por um até acabar a lista. É trabalho braçal, previsível, sem foto bonita, e é exatamente o que produz as primeiras centenas de leitores reais.

Ponto bom tem três características. Reúne pelo menos dez pessoas ao mesmo tempo, essas pessoas já leem por hábito e existe alguém ali com autoridade para recomendar um título para o grupo inteiro depois que você sair.

Biblioteca pública cumpre as três. Clube de leitura cumpre as três. Grupo de WhatsApp de professores cumpre as três. Feira literária de cidade pequena cumpre as três. Um anúncio pago para público frio não cumpre nenhuma.

O erro clássico é ignorar o ponto pequeno porque a conta parece ruim. Vinte pessoas numa sala, cinco compram, um lucro que não paga a gasolina. A conta que interessa é outra: cinco leitores reais que terminam o livro e falam dele com quem confia neles.

1Liste dez lugares físicos ou digitais onde existem dez ou mais leitores do seu tema reunidos, com nome e forma de contato de quem organiza cada um.
 
2Escreva uma mensagem de cinco linhas oferecendo uma conversa de vinte minutos com o grupo, sem cobrar nada e sem pedir compra.
 
3Envie para os dez no mesmo dia. Espere de dois a três sins, que é a taxa normal, e agende as datas na hora em que a resposta chegar.
 
4Em cada encontro, leve exemplar na mão e saia com dois nomes de outros grupos indicados por quem estava lá. A lista de dez vira vinte sem esforço novo.
 

“Você pode, você deve, e se tiver coragem de começar, você vai.”

> Stephen King, Sobre a Escrita, 2000

A frase costuma ser lida como incentivo para sentar e escrever, e ela serve igual para a metade seguinte do trabalho. Começar a rota exige a mesma decisão que começar o original: marcar a primeira data e aparecer.

Repare no que ele não fez. Não reescreveu o romance para agradar às editoras que recusaram, não trocou de gênero e não esperou uma segunda opinião de Nova York. Manteve o texto e mudou a logística, que era a parte quebrada.

 

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III  O MERCADO

A ficha de A Time to Kill

Na origem: primeiro romance de um advogado criminalista de Southaven, Mississippi, escrito ao longo de aproximadamente três anos, a uma página por dia, antes do expediente no fórum.

Na rotina que produziu o original: despertador às cinco da manhã, uma hora de escrita no escritório de advocacia e um caderno de folhas amarelas como suporte, sem processador de texto no meio.

Na recepção do mercado: recusa de dezenas de editoras e agentes literários antes do primeiro sim, com o argumento recorrente de que romance de tribunal de autor desconhecido não vendia.

No contrato que saiu: uma editora independente aceitou o original e imprimiu cinco mil exemplares em 1989, tiragem de teste para autor sem histórico comercial.

Na jogada do autor: compra de mil exemplares da própria tiragem, com dinheiro próprio, convertendo um terço do estoque impresso em distribuição sob controle dele.

Nas medidas do caso:

Ano da publicação de estreia1989
Exemplares da primeira tiragem5.000
Exemplares comprados pelo próprio autor1.000
Páginas escritas por dia durante a produção do original1
Horário de início da escrita5h

No canal escolhido: bibliotecas públicas, clubes de leitura, feiras e mercearias do Mississippi, com o autor presente, em vez de prateleira de livraria em cidade grande.

No que o caso prova: que um autor pode assumir a distribuição do próprio livro sem esperar estrutura de editora, e que leitor conquistado de perto continua vendendo depois que o autor sai da sala.

No que ele não prova: que comprar a própria tiragem funciona sozinho. Sem uma rota de pontos com leitor reunido, mil exemplares comprados viram mil exemplares na garagem de casa.

No custo que ele pagou: dinheiro do próprio bolso na compra dos exemplares, meses de estrada em fins de semana e a rotina de acordar às cinco por três anos seguidos, com escritório de advocacia e mandato legislativo em paralelo.

No que fica de rotina para quem escreve: tratar a página da manhã e a rota da tarde como duas obrigações separadas, porque texto pronto sem rota fica em caixa, e rota sem texto pronto não tem o que entregar.

A parte difícil do livro não termina no ponto final. Quem escreve trata o original como linha de chegada e descobre tarde que o original é só o produto que precisa de alguém andando com ele.

“Quantos lugares com dez leitores reunidos você consegue nomear agora?”

Hoje: escreva os nomes de cinco lugares onde dez ou mais leitores do seu tema se reúnem, com o contato de quem organiza cada um, e dispare a mesma mensagem de cinco linhas para os cinco antes de dormir. Cinco nomes, cinco mensagens, 24 horas.

 
 

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