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Os editais de prefeitura de Roberto Bolaño

Em Blanes, nos anos 1990, o escritor chileno pagava as contas com prêmios de conto, e cada data de entrega virou calendário de escrita.

Envelopes pardos e folhas datilografadas sobre uma mesa perto do mar.

Um edital, uma data, um conto pronto.

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Um envelope pardo, três cópias datilografadas de um conto, um pseudônimo escrito na capa. Os três saíam quase toda semana de Blanes, cidade de pescadores na Costa Brava, rumo a alguma prefeitura espanhola.

Quem fechava os envelopes era Roberto Bolaño, chileno nascido em Santiago em 1953. Ele chegou a Blanes em 1985, depois de anos no México e em Barcelona, e montou casa com Carolina López, a companheira catalã.

O dinheiro era curto. Bolaño já tinha trabalhado como vigia noturno de camping em Castelldefels e ajudava na loja de bijuteria da mãe, aberta em Blanes. A literatura, até ali, não pagava aluguel.

A saída veio de um circuito pouco glamoroso. Na Espanha dos anos 1980 e 1990, prefeituras, caixas econômicas e associações culturais abriam concursos de conto e poesia com prêmio em dinheiro, publicação em edição local e um júri de professores e escritores da região.

Bolaño lia os editais nos jornais e anotava cada data de entrega. Um primeiro lugar podia cobrir meses de despesa da casa. Um prêmio menor pagava a conta de luz.

Os editais tinham ritmo próprio. Muitos fechavam na primavera, outros perto das festas de fim de ano, e quase todos exigiam envio pelo correio com carimbo dentro da data. Um conto postado um dia depois valia zero, por melhor que fosse.

Bolaño escrevia à noite, numa mesa da casa de Blanes, e de dia cuidava da família e da loja. O tempo de escrita era pouco, e o edital decidia onde gastá-lo.

O calendário de trabalho dele deixou de nascer da vontade. Nascia da data de postagem impressa no edital, e cada data exigia um texto pronto, revisado e dentro do limite de páginas.

Com o nascimento do filho Lautaro, em 1990, a pressão cresceu. O escritor que décadas depois seria traduzido em dezenas de línguas escrevia, naquela época, contra o carimbo dos correios.

A primeira faixa mostra os prêmios que ele ganhou nesse circuito e como cada edital moldava o texto.

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I  A DOSE

Os prêmios de província

A resposta de ontem

Que instrumento Assis Brasil tocava na orquestra de Porto Alegre?

O violoncelo. Antes de se dedicar ao ensino da escrita, Luiz Antonio de Assis Brasil foi violoncelista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a Ospa. A música entrou na obra dele: o romance Música Perdida, de 2006, acompanha um compositor gaúcho do século 19.

Roberto Bolaño começou a vencer concursos literários espanhóis em meados dos anos 1980, quase sempre longe dos holofotes de Madri. O primeiro foi o Prêmio Ámbito Literario de 1984, com o romance Conselhos de um Discípulo de Morrison a um Fanático de Joyce, escrito a quatro mãos com o amigo Antoni García Porta.

No mesmo ano, outro romance dele, La Senda de los Elefantes (A Trilha dos Elefantes), levou o Prêmio Félix Urabayen, da cidade de Toledo. O livro saiu revisto anos depois, como Monsieur Pain, em 1999.

Em 1993 veio A Pista de Gelo, premiado pela prefeitura de Alcalá de Henares, que bancou a primeira edição. Em 1994, a coletânea de poemas Os Cães Românticos ganhou o Prêmio Literário Cidade de Irún, no País Basco.

Como funcionava o circuito

Os editais seguiam um molde parecido. Pediam texto inédito, várias cópias, extensão máxima em páginas e um pseudônimo (nome falso que esconde o autor do júri), com a identidade real num envelope lacrado à parte.

O pseudônimo dava a Bolaño uma vantagem silenciosa. O júri lia a página sem saber que vinha de um imigrante chileno sem diploma universitário e sem editora. O texto disputava sozinho.

A extensão máxima pesava tanto quanto o prazo. Um concurso de conto pedia poucas laudas; um de romance curto aceitava um pouco mais. Cada edital definia de antemão a forma da história, e o autor escrevia para caber nela.

O edital marcava a data, o tamanho e o júri. O resto era trabalho.

Nem todo envio voltava com prêmio. Bolaño perdia bem mais do que ganhava, e o texto recusado num concurso seguia, às vezes com outro título, para o próximo da lista.

A rotina também tinha custo. Datilografar várias cópias, pagar selo e envelope pesava num orçamento apertado, e cada envio precisava valer a despesa.

Na prática, a mesa de Blanes funcionava como uma pequena linha de produção: um texto saía pelo correio, outro entrava em revisão e um terceiro esperava o edital certo. Nenhum ficava parado na gaveta à espera de inspiração.

Os valores variavam muito de cidade para cidade, e não existe registro completo de quanto ele somou com os prêmios. Os relatos da família e dos amigos coincidem num ponto: na primeira metade dos anos 1990, os concursos ajudaram a sustentar a casa de Blanes.

O mesmo circuito também deu a ele um hábito que nunca abandonou. Bolaño passou a terminar textos, e não apenas a começá-los, porque o edital não aceitava rascunho promissor.

 
 

II  NA PÁGINA

O conto do amigo Sensini

Em 1997, Bolaño transformou o circuito de concursos em ficção no conto Sensini, que abre o livro Chamadas Telefônicas. O narrador é um jovem escritor latino-americano que vive na Espanha e manda contos para prêmios de província.

Num desses concursos, ele divide a lista de premiados com um argentino mais velho, Luis Antonio Sensini, e os dois começam a trocar cartas. A primeira frase do conto já avisa o tom:

“O modo como se desenvolveu minha amizade com Sensini foge, sem dúvida, do comum.”

Roberto Bolaño, Sensini, em Chamadas Telefônicas, 1997

Sensini é veterano do circuito e ensina o método ao narrador. Inscreve o mesmo conto em vários concursos ao mesmo tempo, trocando apenas o título, e mantém fichas com as datas, as regras e os endereços de cada prefeitura.

No conto, o narrador hesita diante do conselho, acha a prática pouco honesta e, mesmo assim, admira a teimosia do colega mais velho, que trata cada edital como trabalho de ofício.

O personagem carrega uma dor que o texto revela aos poucos: o filho dele, Gregorio, desapareceu na Argentina durante a ditadura militar. A amizade por carta entre os dois escritores se constrói sobre esse silêncio.

O que o prazo faz com a frase

Escrever para edital muda a página em três pontos. O texto precisa caber num limite fixo, então a cena começa perto do conflito. Precisa estar pronto num dia certo, então a revisão tem fim. E precisa convencer leitores desconhecidos, então nada depende de explicação do autor.

A prosa de Bolaño desse período mostra as marcas. Os contos de Chamadas Telefônicas são curtos, abrem com uma situação concreta e avançam por frases diretas, quase de relatório policial.

A Pista de Gelo, escrito para o concurso de Alcalá de Henares, é um romance curto. Três narradores contam, em capítulos breves, um crime numa cidade litorânea da Costa Brava inspirada em Blanes, com uma pista de patinação no centro da trama.

O prazo cortou a revisão sem fim; o limite de páginas cortou a gordura.

O método de Sensini tinha um risco, e o personagem o conhecia. Mandar o mesmo texto para vários lugares podia render dois prêmios para uma história só, algo que muitos editais proibiam. A troca de títulos servia justamente para driblar a regra.

Para o escritor iniciante, a lição útil passa longe do drible. O edital oferece de graça o que a disciplina solitária raramente dá: data, tamanho e leitor.

A data obriga a terminar. O tamanho obriga a escolher. O leitor desconhecido obriga a deixar na página tudo o que a cena precisa, sem bilhete do autor explicando a intenção.

 

Quem banca a edição de hoje

Your fall escape awaits

Mountain air, city lights or somewhere new? There's still time to make your fall plans take flight with Alaska Airlines. See the fall foliage in Boston, sip cider in Seattle, or swap your flannel for a swimsuit and head to Hawai'i.

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III  O MERCADO

Da prefeitura à Anagrama

O circuito de prefeituras levou Bolaño até uma editora grande, a Anagrama, de Barcelona. Em 1996, o editor Jorge Herralde publicou La Literatura Nazi en América (A Literatura Nazista na América) e, no mesmo ano, Estrela Distante.

Em 1998, Os Detetives Selvagens ganhou o Prêmio Herralde de Romance, o concurso da própria Anagrama. Em 1999, o mesmo romance levou o Prêmio Rómulo Gallegos, na Venezuela, um dos mais prestigiados da língua espanhola.

A trajetória mostra uma escada. Os prêmios pequenos pagaram as contas e deram prática de entrega; os livros curtos chamaram a atenção de um editor; o romance longo encontrou leitores em vários países.

A Anagrama ainda mantém o Prêmio Herralde, aberto a originais inéditos em espanhol. O caminho que começou numa prefeitura termina, para poucos, num concurso de editora com circulação internacional.

Os concursos de hoje

No Brasil, o circuito também existe. Prefeituras, secretarias estaduais de cultura e o Sesc abrem editais de conto, poesia e romance todos os anos. O Prêmio Sesc de Literatura, criado em 2003, publica os livros vencedores pela editora Record.

O edital funciona como prazo de fora para quem escreve sozinho. Ele entrega data, extensão e um júri que lê sem conhecer o autor, três peças que a gaveta não oferece.

Um edital aberto é um prazo que alguém já marcou para você.

Antes de enviar, leia o regulamento inteiro. Alguns exigem texto inédito, inclusive na internet; outros proíbem inscrever a mesma obra em dois concursos ao mesmo tempo. Quebrar a regra desclassifica, e o drible de Sensini só funciona na ficção.

Para montar o seu calendário de editais, siga quatro passos:

1. Liste 3 concursos abertos de conto ou romance com inscrição gratuita.

2. Anote numa planilha a data limite, a extensão máxima e a regra de ineditismo de cada um.

3. Escolha o prazo mais próximo e divida as páginas pedidas pelos dias que faltam.

4. Envie no prazo, guarde o comprovante e comece o texto do edital seguinte.

A perda faz parte da conta. Bolaño perdeu muitos concursos antes da Anagrama, e cada texto recusado voltou para a mesa como rascunho do próximo envelope.

Hoje: abra o site de 1 prefeitura ou secretaria de cultura, encontre 1 edital aberto e anote a data limite na agenda até as 22h. Bolaño aprendeu o circuito com um argentino de carne e osso, que emprestou a história ao personagem.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual escritor argentino real serviu de modelo para o Sensini do conto de Bolaño?

★ RARO

🔒

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Em 1994, a coletânea de poemas 'Os Cães Românticos' de Bolaño venceu qual prêmio?

APrêmio Félix Urabayen, de Toledo
BPrêmio Ámbito Literario
CPrêmio Literário Cidade de Irún, no País Basco
DPrêmio da prefeitura de Alcalá de Henares

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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