|
Um original recusado pela forma virou, dois anos e meio depois, o romance mais vendido de uma estreante.
No fim de 1957, o agente literário Maurice Crain levou à editora Tay Hohoff, da casa J.B. Lippincott, o original de uma estreante do Alabama. O texto se chamava Go Set a Watchman e trazia uma advogada de vinte e seis anos voltando de Nova York para a cidade natal e brigando com o pai. A autora, Nelle Harper Lee, tinha trinta e um anos e vendia passagens numa companhia aérea em Manhattan.
O manuscrito só existia por causa de um presente. No Natal de 1956, os amigos Michael e Joy Brown entregaram a ela um envelope com dinheiro suficiente para cobrir um ano de salário, com um único pedido: largar o balcão de reservas e escrever. Ela pediu demissão em janeiro e passou o ano seguinte datilografando.
O parecer de Hohoff foi generoso e devastador ao mesmo tempo. No livro comemorativo dos duzentos anos da Lippincott, publicado em 1967, ela descreveu o material como mais uma série de anedotas do que um romance plenamente concebido. A editora tinha diante de si personagens vivos, diálogo afiado, cenas de tribunal convincentes, e nenhuma linha que sustentasse aquilo do começo ao fim.
O que sobrou da leitura foi um detalhe de posição. Os trechos mais fortes não estavam no presente da protagonista adulta, estavam nas lembranças de infância que ela evocava de passagem. A menina que aparecia em segundo plano tinha mais autoridade sobre a história do que a mulher que a recordava.
A proposta que voltou para a autora era pesada: refazer o livro pela voz da criança, recuar o relógio cerca de vinte anos e contar de dentro do que antes era lembrança. Não uma revisão, uma reconstrução. Lee aceitou, e as duas trabalharam juntas por cerca de dois anos e meio, noite após noite, versão após versão.
Houve um inverno em que o trabalho travou. A autora abriu a janela do apartamento e jogou as páginas na neve da rua, depois ligou para o agente, que mandou descer e recolher folha por folha. A cena virou parte do folclore literário americano, e o que ela mostra de útil é o custo real de refazer um livro inteiro sem garantia de que a nova versão funcione.
|
O texto não foi recusado nem aprovado, ele voltou para casa com uma pergunta melhor do que a que o autor tinha feito.
|
O resultado saiu em 11 de julho de 1960 com outro título, To Kill a Mockingbird, publicado no Brasil como O Sol é Para Todos. No ano seguinte, em 1961, o livro recebeu o Pulitzer de ficção. A autora tinha trinta e quatro anos e nunca publicaria outro romance novo em vida.
Vale registrar o limite da história. Hohoff não escreveu o livro, e nenhuma editora escreve. A matéria bruta, a infância no Alabama, o pai advogado, o julgamento acompanhado de perto, tudo já estava no papel antes dela. O que a editora fez foi apontar de que altura aquela matéria devia ser vista.
A prova disso ficou disponível para qualquer leitor em 2015, quando a HarperCollins publicou o original de 1957 como livro à parte. Quem lê os dois lado a lado enxerga a mesma família, a mesma cidade e a mesma discussão moral, contadas de duas posições diferentes, com resultados que não se parecem.
|