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Os 52% do Brasil leitor

A quinta edição da Retratos da Leitura, de 2020, chamou de leitor quem leu um livro, mesmo em parte, em três meses.

Questionário de pesquisa sobre um livro aberto pela metade.

Metade do país, pelo critério dos três meses.

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Um questionário impresso, um entrevistador batendo de porta em porta, uma pergunta sobre os últimos três meses. Os três juntos decidem quem, no Brasil, entra na lista de leitores.

A pergunta faz parte da Retratos da Leitura no Brasil, o levantamento do Instituto Pró-Livro, entidade mantida por editoras e livreiros. A edição publicada em 2020 trouxe um número redondo para o país: 52% dos brasileiros com 5 anos ou mais eram leitores.

A Retratos sai em rodadas espaçadas de quatro ou cinco anos e virou referência em reportagem, palestra de feira literária e plano de editora. Quando alguém afirma em público quantos brasileiros leem, quase sempre está citando esse levantamento.

Quem escreve costuma ouvir o número e fazer uma multiplicação rápida. Se metade do país lê, o romance novo teria cem milhões de leitores possíveis. A multiplicação anima e está errada.

O motivo mora no critério. Para a pesquisa, leitor é quem leu um livro, inteiro ou em parte, nos três meses anteriores à entrevista. Um capítulo da Bíblia lido na igreja conta. Um livro didático aberto na escola conta. Metade de um romance largado na mesinha também conta.

Com uma definição larga assim, os 52% descrevem gente com algum contato recente com livro. Gente disposta a pagar por um título de ficção de estreia forma um grupo bem menor.

Nada de errado com a pesquisa. Ela mede hábito, e mede com método desde a primeira edição, de 2001. O erro aparece quando o autor usa o hábito medido como se fosse mercado comprador.

Para quem está escrevendo o primeiro livro, a diferença decide expectativa de tiragem, preço e plano de divulgação. Um público imaginado de cem milhões pede uma estratégia; um público real de poucos milhares pede outra, bem mais barata e mais certeira.

A faixa abaixo abre a ficha da pesquisa: quem perguntou, a quantas pessoas, em qual período e com qual critério.

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I  A DOSE

A ficha da pesquisa

O Instituto Pró-Livro conduz a Retratos da Leitura no Brasil desde 2007, e a rodada publicada em 2020 teve parceria do Itaú Cultural. O trabalho de campo ficou com o Ibope Inteligência, empresa de pesquisa de opinião.

Os entrevistadores ouviram 8.076 pessoas em 208 municípios, segundo o relatório divulgado pelo instituto em setembro de 2020. O campo correu entre o fim de 2019 e o começo de 2020, semanas antes de a pandemia fechar escolas e livrarias.

A amostra representa a população brasileira com 5 anos ou mais. Crianças em alfabetização entram nela, e o peso do livro didático sobe junto.

O questionário também mede onde as pessoas leem, quem as incentivou e se frequentam bibliotecas. São dezenas de perguntas, e a definição de leitor organiza todas: os resultados saem separados entre leitores e não leitores.

A pesquisa em números:

EdiçãoQuinta, de 2020
CampoFim de 2019, início de 2020
Entrevistas8.076
Municípios208
Leitores52%

Leitor, no questionário, é quem declarou ter lido um livro inteiro ou em parte nos três meses anteriores. Não leitor é quem não leu nenhum nesse prazo, mesmo tendo devorado dez romances no semestre anterior.

Pelo critério, a Retratos de 2020 contou 52% de leitores, perto de 100 milhões de pessoas. Na edição de 2016, com campo feito em 2015, o índice tinha sido 56%. O próprio instituto estimou a perda em 4,6 milhões de leitores entre as duas rodadas.

Os relatórios mostram a leitura mais alta entre crianças e adolescentes em idade escolar, justamente o grupo obrigado a ler pela escola.

Ler um capítulo nos últimos três meses já basta para entrar na estatística.

A queda continuou. A sexta edição, publicada pelo Instituto Pró-Livro em 2024 com campo do Ipec, registrou 47% de leitores, a primeira vez abaixo da metade da população na série histórica.

O prazo de três meses tem razão prática: a memória. Pedir a alguém a lista de livros de um ano inteiro produz respostas inventadas, e três meses formam um período lembrável.

O efeito colateral é uma fotografia generosa. Quem leu doze páginas de um manual em agosto e nada mais no ano aparece, na planilha, igual a quem terminou dez romances.

 
 

II  NA PÁGINA

O livro lido pela metade

A Retratos da Leitura de 2020 separa o livro lido inteiro do livro lido em parte, e a distância entre os dois é grande. Pela média da pesquisa, o brasileiro leu perto de cinco livros por ano, e só cerca de metade deles até a última página.

Na contagem entram a Bíblia, o livro didático, o livro religioso e o romance escolhido por gosto. A pesquisa pergunta também qual foi o último título lido, e a Bíblia lidera essa lista há várias edições.

Para o autor de ficção, o detalhe muda o retrato. Uma parte grande dos 52% lê por obrigação escolar ou por fé, dois motivos sem relação com a vitrine de lançamentos de uma livraria.

O peso da escola aparece também na idade. A leitura sobe entre estudantes e cai depois da formatura, quando o livro deixa de ser tarefa e vira escolha.

Quem larga o livro

A Retratos também pergunta por que as pessoas não leram mais. A falta de tempo aparece no topo das respostas, seguida pelo desinteresse e pela preferência por outras atividades, como internet e televisão.

Falta de tempo, na prática, quer dizer outra prioridade. O leitor que abandona um romance na página 40 raramente volta a ele, e a pesquisa registra a leitura parcial com o mesmo peso da completa.

Aqui o trabalho de quem escreve encontra o número. Um livro só gera indicação quando chega ao fim, porque ninguém recomenda com entusiasmo um romance largado pela metade.

Para o romance de estreia, o leitor relevante é quem escolhe ler sem tarefa nem prova marcada. Esse leitor existe, compra e indica, mas ocupa uma fatia dos 52% bem menor do que a manchete sugere.

Antonio Candido, crítico literário e professor da USP, defendeu num ensaio famoso a literatura como direito básico, igual à moradia e à comida:

“a literatura corresponde a uma necessidade universal, que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade”

Antonio Candido, O direito à literatura, 1988

O ensaio ajuda a entender o propósito da Retratos: medir acesso ao livro. Ela não foi desenhada para dizer quantos brasileiros comprariam o romance de um estreante.

Para quem escreve, a pergunta útil passa a ser outra: quantos leitores terminam livros do meu gênero? Nenhum relatório público responde com precisão, e o autor precisa montar a estimativa com dados próprios, como avaliações de livros parecidos e respostas da própria lista de email.

 

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III  O MERCADO

Cem milhões no papel

Pela Retratos da Leitura de 2020, o Brasil tinha perto de 100 milhões de leitores, e o número aparece com frequência em apresentação de editora e de curso de escrita. Usado sem o critério, ele promete ao estreante um público grande demais.

O caminho honesto parte do critério e encolhe o funil (o trajeto do leitor da descoberta até a compra) em etapas. Cada etapa corta gente por um motivo concreto.

Primeiro corte: o motivo da leitura. Tire quem leu só por escola ou religião, e sobra o leitor por gosto, o único disposto a escolher ficção de um desconhecido.

Segundo corte: o gênero. Leitor de romance policial raramente compra fantasia épica, e cada gênero tem o próprio público dentro do grupo.

Terceiro corte: a compra. Ler não é comprar, e livro emprestado, de biblioteca ou ganho de presente não deixa dinheiro no caixa do autor.

Mercado de autor estreante se mede em leitores do gênero dispostos a pagar.

Depois dos três cortes, o público inicial de um primeiro romance costuma caber em milhares de pessoas, longe dos milhões da manchete.

Um exemplo hipotético mostra o tamanho. Se três romances policiais brasileiros parecidos com o seu somam 300, 450 e 600 avaliações na Amazon, a média fica em 450. Como só uma parcela de quem lê deixa avaliação, o público real passa disso, mas a ordem de grandeza continua em centenas ou poucos milhares.

A cifra menor ajuda. Com poucos milhares de leitores possíveis, o autor sabe onde procurar: grupos do gênero, clubes de leitura, perfis de resenha. Divulgação para o país inteiro gasta dinheiro com quem nunca abriria o livro.

O exercício também protege o bolso. Uma tiragem de 3 mil exemplares para um público de mil leitores deixa dois mil livros encaixotados na garagem.

Para montar a própria estimativa, siga três passos:

1. Liste os 3 livros mais parecidos com o seu publicados no Brasil nos últimos cinco anos.

2. Anote quantas avaliações cada título tem na Amazon e no Skoob, a rede brasileira de leitores.

3. Use a média como piso do público inicial, nunca como meta de venda.

O resultado sai pequeno e verdadeiro. Ele serve de chão para decidir tiragem, preço e verba de anúncio, e para medir o primeiro ano sem frustração.

Hoje: escolha 3 livros do seu gênero, até as 22h, e anote numa folha quantas avaliações cada um tem na Amazon.

★ RARO

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