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Os 47 finais de Adeus às Armas
Hemingway escreveu 47 finais diferentes para o mesmo romance antes de escolher a última página que foi para a gráfica em 1929.
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A última página reescrita até virar material
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Um original travado quase nunca está travado no miolo. Está travado na última página, com o autor sabendo exatamente o que acontece na história, quem sai de cena, o que se resolve, e ainda assim sem saber onde parar a câmera.
A espera tem uma premissa embutida. A de que o final certo já existe em algum lugar, pronto, e que o trabalho do autor é encontrar ele. Sob essa premissa, escrever um final errado vira desperdício de tempo, então o arquivo abre, fica aberto vinte minutos e fecha do mesmo tamanho.
A premissa está errada. Final não se encontra, se escolhe. E escolha pede mais de um papel em cima da mesa: com um fecho só na frente, ninguém decide nada, apenas se conforma com o que apareceu.
A aritmética é desconfortável de tão barata. Três finais ruins escritos hoje colocam três opções na mesa amanhã de manhã. Um final perfeito imaginado hoje coloca zero, e continua colocando zero na semana que vem.
Existe um segundo ganho, menos óbvio. Final ruim escrito revela defeito do livro inteiro. O fecho que não fecha mostra qual promessa o miolo deixou de fazer, e ler três finais frouxos em sequência é o diagnóstico mais rápido das duzentas páginas anteriores.
E existe um terceiro. Quantidade mata a reverência. Depois da quinta tentativa, a última página deixa de ser objeto sagrado e vira material, e material a gente corta, empurra e reaproveita sem cerimônia nenhuma.
O custo do exercício cabe numa tarde. Vinte minutos por final, três seguidos, cronômetro na mesa. Ao fim de uma hora, o texto que estava parado há semanas volta a andar com três saídas testadas no lugar de uma esperança.
A régua de hoje vem de um romance de 1929, cujo autor tratou a última página como matéria bruta e deixou a pilha inteira guardada.
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I A DOSE
Cada final descartado tinha um nome
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Quarenta e sete últimas páginas para o mesmo romance. Veja o que ele fazia entre uma tentativa e a seguinte.
Ernest Hemingway escreveu 47 finais diferentes para Adeus às Armas e guardou todos. O romance acompanha um motorista de ambulância americano na frente italiana da Primeira Guerra e a enfermeira inglesa por quem ele se apaixona, e o primeiro rascunho ficou pronto no verão de 1928, em Wyoming.
Com o rascunho fechado, a história estava resolvida e a última página não. Entre aquele verão e a entrega do original a Maxwell Perkins, editor da Scribner's, no começo de 1929, ele voltou ao fecho dezenas de vezes, quase sempre a lápis, no mesmo maço de papel.
Os manuscritos ficaram no arquivo dele, hoje na biblioteca presidencial John F. Kennedy, em Boston. Em 2012 a Scribner publicou uma edição do romance com os 47 finais impressos na íntegra, um atrás do outro.
Lidos em sequência, eles não parecem rascunho de uma coisa só. Parecem sete ou oito livros diferentes disputando a mesma última página.
Cada um recebeu um nome na edição: o Final Nada, o Final Fitzgerald, o Final Religioso, o Final do Bebê Vivo, o Final da Manhã Seguinte, o Final do Enterro.
O Final do Bebê Vivo muda o desfecho do parto e devolve à história uma criança que o livro impresso não tem. O Final Nada avisa o leitor, em três linhas secas, que a história acaba ali e que não existe nada além do que já foi contado.
O Final Fitzgerald veio de fora. F. Scott Fitzgerald leu o original e mandou dez páginas de anotações, sugerindo fechar o romance num trecho já escrito, sobre o mundo quebrar todo mundo e muitos ficarem mais fortes justamente nas partes quebradas.
Hemingway testou o corte sugerido pelo amigo, descartou e respondeu com um palavrão escrito no rodapé da última página das anotações.
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O fecho impresso não venceu por ter chegado primeiro. Ele venceu porque havia outros quarenta e seis em cima da mesa para vencer.
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O que foi para a gráfica tem duas linhas. O personagem sai do hospital, atravessa a rua e volta a pé para o hotel na chuva. Sem explicação, sem moral, sem consolo.
Nenhum dos descartados era desleixado. Vários estão limpos, prontos para impressão, e alguns são melhores frase a frase do que o escolhido. O que faltava neles era encaixe com as trezentas páginas anteriores, e encaixe só aparece na comparação.
Repare no tamanho da unidade de trabalho. Ele não reescrevia o romance a cada tentativa. Reescrevia uma página, às vezes um parágrafo, e o custo de errar caía para meia hora de trabalho.
Nenhuma tentativa foi jogada fora. As quarenta e sete versões chegaram a 2012 porque ele guardava papel errado com o mesmo cuidado com que guardava papel certo.
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II NA PÁGINA
Três finais ruins, vinte minutos cada
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Final não se descobre, se escolhe, e escolha exige mais de um papel na mesa. O trabalho de hoje não é achar o fecho certo, é fabricar opção ruim em quantidade, porque opção ruim é a matéria-prima da boa.
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Primeira peça, o cronômetro. Vinte minutos por final, três finais na mesma sessão, sem pausa entre eles. Uma hora fecha o exercício, e a pressa faz parte do método: vinte minutos não dão tempo de reverência.
Os três precisam sair no mesmo dia. Final escrito na terça e final escrito no sábado não se comparam, porque o autor mudou de humor no meio do caminho e passa a defender o mais recente.
Segunda peça, o eixo. Os três não podem ser três versões da mesma cena, ou você escreveu um final e dois retoques. Escolha uma variável e mexa nela: quem aparece na última página, quanto tempo depois do clímax a câmera para, quem conta a cena.
Terceira peça, o nome. Batize cada final antes de escrever, como a edição de 2012 batizou os do arquivo: o Final do Enterro, o Final da Manhã Seguinte, o Final de Quem Ficou. O nome obriga o autor a assumir uma postura e impede que os três derretam num só.
Quarta peça, a última frase primeiro. Escreva a frase de fecho antes do parágrafo e só depois construa o caminho que chega nela. Final trava quando o autor tenta descobrir o destino dirigindo.
Quinta peça, nada apagado. Cada final num arquivo próprio, numerado, com o nome no topo. O descarte de hoje costuma guardar a frase que salva o escolhido de amanhã, e a frase some junto com o arquivo deletado.
Sexta peça, a escolha, e ela acontece um dia depois. Leia os três em voz alta na manhã seguinte e fique com aquele cuja última frase você consegue repetir de cabeça depois de fechar o texto.
Descarte o que explica. Final que explica a própria história é resumo, e resumo o leitor pula.
Hemingway contou o próprio método numa entrevista à Paris Review, em 1958: reescreveu a última página de Adeus às Armas trinta e nove vezes antes de ficar satisfeito. Perguntado sobre qual problema técnico o travava ali, respondeu que era acertar as palavras.
O número que ele deu de memória é menor do que o arquivo guardou, e a diferença importa pouco. As duas contas dizem a mesma coisa: dezenas de tentativas para uma página só.
Quatro defeitos aparecem já na primeira sessão. O primeiro é esperar a sessão perfeita, com café certo e cabeça limpa, para escrever justamente a parte mais difícil do livro.
O segundo é polir o miolo para adiar o fecho. Revisar o capítulo sete pela quarta vez dá sensação de trabalho e não produz uma única opção de final.
O terceiro é pedir opinião com um final só na mesa. Com um, o leitor de confiança só pode dizer sim ou não. Com três, ele diz qual, e a resposta muda o que você faz na sessão seguinte.
O quarto é escrever os três parecidos de propósito, com medo de deixar registro de um final amador. O final ruim é para ser ruim mesmo: ele existe para marcar a fronteira de onde o bom pode ficar.
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