A resposta de ontem Em que data impossível se passa o ataque de Bomber? No dia 31 de junho de 1943, data que não existe. Deighton escolheu o dia inventado de propósito, já no subtítulo do livro, para que nenhuma tripulação real nem nenhuma cidade alemã bombardeada de fato fosse confundida com a ficção de Altgarten. |
O silêncio de Saramago não foi falta de escrita: no começo da década de 1950 ele terminou um segundo romance, Claraboia. O livro acompanha os moradores de um prédio de Lisboa, seis famílias em seis apartamentos, cada uma presa a um segredo pequeno.
Em 1953, ele mandou o original datilografado a uma editora de Lisboa. A resposta não veio. Nem recusa, nem convite, nem devolução do manuscrito. O autor de 31 anos esperou e, sem notícia, parou de oferecer o romance a outras casas.
O pacote reaparecido
Em 1989, a mesma editora mudou de sede. Na arrumação, um funcionário achou o pacote de Claraboia esquecido num arquivo e escreveu a Saramago dizendo que teria prazer em publicar o livro.
Àquela altura, Saramago já era o autor de Memorial do Convento, traduzido em vários países. Ele foi buscar o manuscrito, guardou-o em casa e recusou a proposta. Disse que não o publicaria enquanto estivesse vivo.
A recusa se cumpriu. Claraboia só saiu em 2011, pela editora Caminho, um ano depois da morte do autor, por decisão da viúva, a jornalista espanhola Pilar del Río, e da fundação que leva o nome dele.
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Um manuscrito sem resposta pesa mais que uma recusa: a recusa ao menos encerra a espera.
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O que a espera ensinou
O próprio Saramago contou o caso mais de uma vez como a origem do longo intervalo. Sem resposta, concluiu que não tinha nada importante a dizer naquela época e preferiu calar a publicar por publicar.
A conclusão tinha um lado prático. Ele seguiu trabalhando, casou, teve uma filha, Violante, em 1947, e viveu do salário. A literatura ficou em segundo plano, sem prazo, e voltou primeiro em forma de poema, com Os Poemas Possíveis, de 1966.
Depois vieram mais um livro de poemas, Provavelmente Alegria, de 1970, e as crônicas reunidas em Deste Mundo e do Outro, de 1971, e A Bagagem do Viajante, de 1973. Eram textos curtos, escritos para jornal, que treinavam a frase longa e o comentário irônico que marcariam os romances.
Lido hoje, Claraboia mostra um autor competente e ainda convencional, com diálogo entre travessões e narrador discreto. A voz que o tornaria conhecido ainda não existia em 1953. Ela nasceu quase trinta anos depois, dentro de outro livro.
A comparação entre os dois livros mostra o que o intervalo fez. O enredo de Claraboia já tinha a atenção à gente comum, mas faltava ao narrador a liberdade de interromper, ironizar e falar direto com quem lê.
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