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Os 19 anos de silêncio de José Saramago

Saramago estreou em 1947, passou 19 anos sem livro novo e só chegou a Levantado do Chão em 1980, aos 58 anos.

Mesa com manuscrito datilografado e uma chave de serralheiro sobre ele.

Saramago estreou em 1947 e esperou até 1980.

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Uma chave de serralheiro, um romance de estreia com título trocado, um maço de traduções feitas por encomenda. Os três objetos cabem na vida de um mesmo português entre 1947 e 1980.

O português é José Saramago, nascido em 1922 na aldeia de Azinhaga, no Ribatejo, filho de camponeses sem terra. A família se mudou para Lisboa quando ele tinha dois anos, e o dinheiro nunca deu para o liceu (o ensino secundário clássico, que levava à universidade).

Ele estudou numa escola industrial e saiu de lá com o ofício de serralheiro mecânico, o profissional que ajusta e conserta peças de metal. Trabalhou em oficina, depois como funcionário administrativo, e lia à noite na biblioteca pública do Palácio das Galveias, em Lisboa.

Em 1947, aos 24 anos, publicou o primeiro romance, Terra do Pecado, pela Editorial Minerva. O manuscrito se chamava A Viúva. O editor achou o título fraco para vender e trocou por outro, mais chamativo, sem que o autor estreante tivesse força para recusar.

O livro passou quase sem leitores, com tiragem pequena e poucas resenhas nos jornais de Lisboa, e o nome do autor não voltou às livrarias tão cedo. Depois dele, Saramago ficou dezenove anos sem lançar livro nenhum. O seguinte só apareceu em 1966, e era de poemas, não de prosa.

O romance que o firmou como escritor, Levantado do Chão, saiu em 1980. Entre a estreia e esse livro correram trinta e três anos. Saramago tinha 58 anos quando a crítica portuguesa passou a tratá-lo como romancista de primeira linha.

Dezoito anos depois, em 1998, ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, o primeiro dado a um autor de língua portuguesa. A carreira que hoje parece inevitável teve um meio comprido, feito de emprego fixo, jornal e silêncio editorial.

A primeira seção abre a gaveta onde ficou o segundo romance, escrito logo depois da estreia e guardado por quase quarenta anos sem que ninguém o lesse.

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I  A DOSE

O romance que voltou da gaveta

A resposta de ontem

Em que data impossível se passa o ataque de Bomber?

No dia 31 de junho de 1943, data que não existe. Deighton escolheu o dia inventado de propósito, já no subtítulo do livro, para que nenhuma tripulação real nem nenhuma cidade alemã bombardeada de fato fosse confundida com a ficção de Altgarten.

O silêncio de Saramago não foi falta de escrita: no começo da década de 1950 ele terminou um segundo romance, Claraboia. O livro acompanha os moradores de um prédio de Lisboa, seis famílias em seis apartamentos, cada uma presa a um segredo pequeno.

Em 1953, ele mandou o original datilografado a uma editora de Lisboa. A resposta não veio. Nem recusa, nem convite, nem devolução do manuscrito. O autor de 31 anos esperou e, sem notícia, parou de oferecer o romance a outras casas.

O pacote reaparecido

Em 1989, a mesma editora mudou de sede. Na arrumação, um funcionário achou o pacote de Claraboia esquecido num arquivo e escreveu a Saramago dizendo que teria prazer em publicar o livro.

Àquela altura, Saramago já era o autor de Memorial do Convento, traduzido em vários países. Ele foi buscar o manuscrito, guardou-o em casa e recusou a proposta. Disse que não o publicaria enquanto estivesse vivo.

A recusa se cumpriu. Claraboia só saiu em 2011, pela editora Caminho, um ano depois da morte do autor, por decisão da viúva, a jornalista espanhola Pilar del Río, e da fundação que leva o nome dele.

Um manuscrito sem resposta pesa mais que uma recusa: a recusa ao menos encerra a espera.

O que a espera ensinou

O próprio Saramago contou o caso mais de uma vez como a origem do longo intervalo. Sem resposta, concluiu que não tinha nada importante a dizer naquela época e preferiu calar a publicar por publicar.

A conclusão tinha um lado prático. Ele seguiu trabalhando, casou, teve uma filha, Violante, em 1947, e viveu do salário. A literatura ficou em segundo plano, sem prazo, e voltou primeiro em forma de poema, com Os Poemas Possíveis, de 1966.

Depois vieram mais um livro de poemas, Provavelmente Alegria, de 1970, e as crônicas reunidas em Deste Mundo e do Outro, de 1971, e A Bagagem do Viajante, de 1973. Eram textos curtos, escritos para jornal, que treinavam a frase longa e o comentário irônico que marcariam os romances.

Lido hoje, Claraboia mostra um autor competente e ainda convencional, com diálogo entre travessões e narrador discreto. A voz que o tornaria conhecido ainda não existia em 1953. Ela nasceu quase trinta anos depois, dentro de outro livro.

A comparação entre os dois livros mostra o que o intervalo fez. O enredo de Claraboia já tinha a atenção à gente comum, mas faltava ao narrador a liberdade de interromper, ironizar e falar direto com quem lê.

 
 

II  NA PÁGINA

A família Mau-Tempo em Lavre

Levantado do Chão conta três gerações de uma família de trabalhadores rurais do Alentejo, os Mau-Tempo, do começo do século XX até a Revolução dos Cravos, em 1974. O cenário é o latifúndio (a grande propriedade rural de um só dono), onde quem trabalha a terra não é dono de nada.

Para escrever, Saramago passou temporadas em 1976 em Lavre, uma vila do concelho de Montemor-o-Novo. Ouviu os trabalhadores, anotou histórias de greves, prisões e fome, e recolheu a vida de um camponês real, João Serra, que entrou no livro com outro nome.

A voz que apareceu no meio do caminho

Saramago começou o romance no estilo de Claraboia, com diálogo marcado e pontuação comum. O texto não andava. Ele contou depois que, já com algumas dezenas de páginas escritas, recomeçou de outro jeito, sem perceber de imediato o que tinha mudado.

A mudança foi a pontuação. As falas passaram a correr dentro do parágrafo, separadas só por vírgula e por letra maiúscula, sem travessão e sem aspas. O narrador conversa com o leitor, comenta, volta atrás, como um contador de história numa roda de aldeia.

Ele atribuía o estilo à oralidade dos alentejanos que ouviu em Lavre. Quem fala em roda não abre parágrafo nem anuncia quem fala: emenda uma voz na outra, e o ouvido de quem escuta faz a separação.

O estilo de Saramago saiu de um problema de livro, não de um programa de escola.

O avô que não sabia ler

O mesmo respeito pela fala do campo abre o discurso que Saramago leu em Estocolmo ao receber o Nobel. Ele começa assim, em De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz, de 1998: "O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever."

O homem era o avô materno, Jerónimo Melrinho, criador de porcos em Azinhaga. No discurso, Saramago liga o avô e a avó, Josefa, aos camponeses de Levantado do Chão, e diz que foram eles que lhe ensinaram a contar.

O romance terminou com a família Mau-Tempo de pé no dia da revolução, o gesto que dá nome ao livro. Saiu pela editora Caminho em 1980 e ganhou o Prêmio Cidade de Lisboa no mesmo ano. A voz de Lavre se repetiu nos romances seguintes, até o último.

 

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III  O MERCADO

O salário que bancou o silêncio

Durante os trinta e três anos entre a estreia e Levantado do Chão, Saramago nunca viveu de literatura. O ofício de serralheiro deu lugar a empregos de escritório, primeiro na previdência social, depois numa empresa metalúrgica, sempre com horário fixo.

No fim da década de 1950, entrou para a editora Estúdios Cor, em Lisboa, onde passou cerca de doze anos como responsável pela produção e pela edição. Ali aprendeu o outro lado do livro: prazo de gráfica, custo de papel, contrato de tradução e conversa com autor.

Do jornal à demissão

Em paralelo, escreveu crônicas para jornais de Lisboa e do interior, como A Capital e o Jornal do Fundão. Em 1975, depois da revolução, virou diretor-adjunto do Diário de Notícias, o maior jornal do país.

O cargo durou meses. Em novembro de 1975, com a mudança de rumo político em Portugal, Saramago foi afastado do jornal junto com outros nomes da redação. Aos 53 anos, ficou sem emprego e sem perspectiva de outro.

A saída que encontrou foi a tradução. Verteu para o português livros do francês por encomenda de editoras e, com essa renda incerta, decidiu tentar, pela primeira vez, viver só de escrever. Levantado do Chão nasceu dessa aposta. Antes dele saiu Manual de Pintura e Caligrafia, de 1977, o romance de um pintor de retratos que tenta escrever, ainda sem a voz que viria em Lavre.

A demissão de 1975 fez o que o emprego fixo adiava: obrigou o escritor a escrever.

Quatro passos para atravessar o seu intervalo

A lição de Saramago serve a quem estreou cedo e parou, ou a quem ainda não estreou. Quatro passos tiram o método da biografia:

1. Escolha um formato curto, como crônica, conto ou poema, e publique em algum lugar a cada mês.

2. Trabalhe num ofício próximo do livro, como revisão, tradução ou edição, para aprender o mercado por dentro.

3. Guarde o original recusado ou sem resposta e releia anos depois, para ver o que mudou na sua frase.

4. Quando um livro travar, recomece pela voz, não pelo enredo: troque o narrador ou a pontuação antes de trocar a história.

Depois de Levantado do Chão, Saramago lançou Memorial do Convento em 1982 e O Ano da Morte de Ricardo Reis em 1984, e passou a viver dos próprios livros até o fim, em 2010, na ilha de Lanzarote.

Hoje: escreva 1 crônica de 300 palavras em 30 minutos, sobre o ofício que paga as suas contas, e guarde o arquivo com a data no nome.

 
 
Quiz da edição

Em 1953, José Saramago enviou o manuscrito de Claraboia, datilografado, a uma editora de Lisboa. O que aconteceu com esse original nos anos seguintes?

AA editora recusou o livro na hora, e Saramago guardou a carta de recusa por décadas
BA editora nunca respondeu, e o pacote só foi encontrado em 1989, numa mudança de sede
CO romance saiu ainda em 1953, com tiragem pequena, antes de Levantado do Chão
DO manuscrito se perdeu num incêndio e Saramago o reescreveu de memória nos anos 1970

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