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Os 14 pence do empréstimo

Desde 1979, o Reino Unido paga o autor a cada livro retirado na biblioteca, com teto de 6.600 libras no ano.

Balcão de biblioteca pública britânica com livro e cartão de leitor sobre o leitor de código de barras.

Cada retirada rende centavos ao autor.

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Um cartão de leitor, um código de barras na contracapa, uma moeda de 14 pence. Os três se encontram toda vez que alguém retira um romance numa biblioteca pública de Leeds, de Cardiff ou de uma vila escocesa.

O cartão é do leitor. Ele entra, escolhe o livro, passa no balcão e sai sem pagar nada. A biblioteca britânica é gratuita desde o século 19, e continua assim.

O código de barras identifica a edição. Cada leitura do aparelho registra que aquele título, daquele autor, saiu da estante e foi para a casa de alguém por algumas semanas.

A moeda vai para o autor. Ninguém a tira do bolso do leitor: quem paga é um fundo do governo britânico, calculado sobre o número de retiradas de cada livro ao longo do ano.

Parece pouco. Uma retirada rende ao escritor menos do que custa um café na estação. Só que a biblioteca empresta o mesmo exemplar dezenas de vezes, e o autor com livro querido pelo público soma milhares de retiradas por ano em todo o país.

Para quem vive de escrever, o empréstimo sempre foi uma venda que não volta. A biblioteca compra um exemplar, paga o direito autoral sobre ele uma única vez, e depois o livro passa por vinte, trinta, cinquenta mãos sem render mais nada a quem o escreveu.

Os escritores britânicos passaram décadas apontando esse buraco. Diziam que o leitor de biblioteca era um leitor de verdade, que gostava do livro e o recomendava, e que o autor dele recebia o mesmo que receberia se o exemplar tivesse ficado parado na estante.

O Parlamento acabou concordando. Criou um direito com nome próprio, um fundo público e um teto anual para o que cada escritor pode receber.

O bloco abaixo conta quem pediu essa lei primeiro, quanto tempo ela levou para sair do papel e o que diz a frase central do texto aprovado.

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I  A DOSE

O penny que levou 28 anos

A resposta de ontem

Qual editor de Beckett pediu a lei antes de Jack Lang?

Jérôme Lindon, diretor das Éditions de Minuit, a casa que publicava Samuel Beckett. No fim dos anos 1970 ele liderou a campanha dos editores pelo preço único do livro contra os descontos da Fnac e levou a proposta ao governo Mitterrand, que a transformou na Lei Lang em agosto de 1981.

A lei britânica do Public Lending Right (direito de empréstimo público) recebeu a sanção real em 22 de março de 1979. O nome oficial é Public Lending Right Act 1979, e ele garante ao autor uma quantia por livro retirado nas bibliotecas públicas do Reino Unido.

A ideia nasceu bem antes. Em 1951, o romancista John Brophy propôs cobrar um penny por empréstimo e repassar o valor ao escritor. A proposta ganhou o apelido de Brophy penny (o penny de Brophy) e não andou no governo daquela década.

A filha dele retomou a briga. A escritora Brigid Brophy e a romancista Maureen Duffy fundaram em 1972 o Writers' Action Group (grupo de ação dos escritores), que pressionou deputados durante sete anos até o projeto passar.

O texto aprovado define o direito na primeira seção, em linguagem de lei:

“There shall be conferred on authors a right, known as ‘public lending right’, to receive from time to time out of a central fund payments in respect of such of their books as are lent out to the public by local library authorities in the United Kingdom.” (Fica conferido aos autores um direito, chamado direito de empréstimo público, de receber periodicamente de um fundo central pagamentos pelos livros seus emprestados ao público pelas bibliotecas locais do Reino Unido.)

Public Lending Right Act, seção 1, 1979

A lei criou o direito, mas o dinheiro demorou. O governo precisou montar um esquema de cálculo, contar as retiradas e abrir o cadastro de autores. O primeiro pagamento só chegou aos escritores em 1984, cinco anos depois da sanção.

Do penny de 1951 ao primeiro cheque se passaram 33 anos.

O Public Lending Right em números:

Sanção da lei22/03/1979
Primeiro pagamento1984
Valor por retiradaPerto de 14 pence
Teto por autor no ano6.600 libras
Gestão desde 2013British Library

O leitor retira de graça, e o autor recebe mesmo assim.

O valor por retirada muda todo ano. O governo define o tamanho do fundo, a gestão desconta o custo de operação e divide o restante pelo total de empréstimos estimado no país.

O teto anual existe para espalhar o dinheiro. Sem ele, um punhado de autores muito lidos levaria a maior fatia do fundo, e o escritor de público menor receberia migalhas.

Desde 2013, a gestão está com a British Library, a biblioteca nacional do Reino Unido. Antes, um escritório próprio em Stockton-on-Tees, no nordeste da Inglaterra, cuidava das contas.

 
 

II  NA PÁGINA

O cadastro do livro

O dinheiro do empréstimo não cai sozinho no bolso do autor: ele precisa inscrever cada título. O cadastro é gratuito, feito pelo site da British Library, e pede o número de ISBN (o código internacional que identifica cada edição) de cada livro.

Sem inscrição, o empréstimo acontece do mesmo jeito, mas a quantia não sai do fundo. Muito autor estreante passa anos sem receber por simples desconhecimento do sistema.

A contagem é feita por amostra. Um grupo de bibliotecas públicas, escolhido para representar o país e trocado periodicamente, envia os registros de retirada. A gestão projeta esses números para o Reino Unido inteiro.

O ano do cálculo vai de julho a junho. O pagamento sai uma vez por ano, em fevereiro, e o autor recebe um extrato com o número estimado de retiradas de cada título inscrito.

Quem divide a quantia

O livro raramente tem um dono só, e a lei prevê a divisão. Quatro situações aparecem com frequência:

1Livro escrito a quatro mãos: os coautores combinam a porcentagem de cada parte no cadastro.
 
2Livro ilustrado: o ilustrador entra como coautor e recebe a fatia acertada com o escritor.
 
3Livro traduzido: o tradutor tem direito a uma parte fixa definida pelas regras do esquema.
 
4Audiolivro: o narrador também pode inscrever a sua parte desde a ampliação de 2018.
 

Inscrever o livro é o único trabalho que o autor faz para receber.

A ampliação de 2018 veio do Digital Economy Act 2017, a lei britânica da economia digital. Ela incluiu no esquema o ebook e o audiolivro emprestados à distância, pelo aplicativo da biblioteca, sem o leitor sair de casa.

Para o autor de livro digital, a mudança pesou. O empréstimo de ebook cresceu nas bibliotecas britânicas, e o título que nunca teve versão em papel passou a render pelo empréstimo do arquivo.

Há um piso também. Quando a soma do ano fica abaixo de 1 libra, o pagamento não sai, para não gastar mais em transferência do que o valor transferido.

O sistema premia o livro que permanece na estante. O lançamento rende no ano em que sai, mas o romance que a biblioteca mantém e o público continua pedindo rende ano após ano, sem nova edição.

 

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III  O MERCADO

A biblioteca sem pagamento

O Reino Unido não inventou o pagamento por empréstimo e nem é o caso mais antigo. A Alemanha passou a pagar em 1972, pela sociedade de autores VG Wort, e a Austrália criou o esquema dela em 1974.

O Canadá seguiu em 1986, com a Public Lending Right Commission (comissão do direito de empréstimo público). Cada país desenhou a própria regra: uns pagam por retirada, outros pelo número de exemplares que as bibliotecas guardam no acervo.

A União Europeia transformou a prática em obrigação. A Diretiva 92/100, de 1992, mandou os países do bloco remunerar o autor pelo empréstimo público, com margem para isentar alguns tipos de biblioteca.

Nem todos obedeceram. Em 2006, o Tribunal de Justiça da União Europeia condenou a Espanha por isentar quase todas as bibliotecas do país e deixar os autores espanhóis sem receber pelo empréstimo.

O empréstimo de biblioteca em quatro países:

Reino UnidoPaga por retirada
AlemanhaPaga desde 1972
CanadáPaga pelo acervo
BrasilNão paga

No Brasil, a Lei 9.610, de 1998, regula os direitos autorais e não prevê nenhum pagamento ao autor pelo livro emprestado em biblioteca pública. Não há fundo, cadastro nem órgão que conte as retiradas.

A biblioteca brasileira empresta o livro, e o autor só recebe pela venda.

Para o escritor daqui, sobra a venda do exemplar. A biblioteca municipal ou escolar compra o livro uma vez, e o direito autoral daquele exemplar se encerra na compra.

Daí vem o peso das compras públicas. Quando um programa do governo seleciona um título para as escolas, a editora vende milhares de exemplares num pedido só, e o autor recebe sobre essa venda grande, nunca sobre as leituras que vêm depois.

Saber em quantas bibliotecas o seu livro está mostra quantos leitores ele alcança sem passar pelo caixa. O número não paga nada, mas orienta a próxima conversa com a editora e com quem compra para as escolas.

Hoje: abra o catálogo online de 1 biblioteca pública da sua cidade, até as 22h, e conte quantos exemplares de 1 livro seu, ou do autor que você mais lê, estão no acervo.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual país começou a pagar o autor por empréstimo de biblioteca mais de 30 anos antes do Reino Unido?

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, qual é o teto que a lei britânica do Public Lending Right permite um autor receber por ano?

A1 libra
B600 libras
C14 pence
D6.600 libras

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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