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Oito frases, um enredo inteiro em dez minutos
Kenn Adams criou a espinha da história em 1991 no improviso, e as oito frases mostram onde um enredo embolado perde a causalidade.
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As oito linhas antes da primeira cena
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Era uma vez, Todo dia, Até que um dia. As três frases abrem o mesmo molde de oito sentenças, montado em 1991 pelo dramaturgo e improvisador norte-americano Kenn Adams para erguer enredo no palco sem roteiro na mão.
O molde ficou conhecido como Story Spine, que em português quer dizer espinha da história. Ele não entrega texto pronto: entrega a ordem das articulações, e quem improvisa preenche cada uma com a sugestão que a plateia acabou de gritar.
As oito frases seguem sempre na mesma sequência. Era uma vez, Todo dia, Até que um dia, Por causa disso, Por causa disso, Por causa disso, Até que finalmente, E desde então. Duas montam o mundo estável, uma quebra esse mundo, três encadeiam consequência, uma resolve, uma mostra a vida nova.
A peça central está nas três repetições de Por causa disso. Elas obrigam quem escreve a ligar acontecimento a acontecimento por causa, nunca por simples sucessão de tempo, e é nessa ligação que um resumo vira enredo.
A repetição também protege contra o defeito mais comum do rascunho de estreante: a cena bonita que não empurra nada. Se o acontecimento não cabe depois de um Por causa disso, ele é enfeite, e sai do manuscrito sem deixar buraco.
O molde vale para qualquer tamanho. Serve para um conto de duas páginas, para o argumento de um romance de quatrocentas e para o resumo que um editor pede por email, porque a matéria dele é a causalidade, não a extensão.
A sessão cabe em dez minutos. Oito frases escritas à mão, uma por linha, e o esqueleto do enredo aparece antes de você ter escrito um único parágrafo de prosa.
A seção a seguir traz o autor do molde, a companhia de teatro em que ele trabalhou, as oito frases uma a uma e o ponto em que a documentação sobre a origem do exercício fica incerta.
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I A DOSE
As oito frases que sustentam um enredo
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Kenn Adams enfileirou oito começos de frase, de Era uma vez a E desde então, e deu ao improvisador um enredo com causa em vez de uma lista de acontecimentos.
Kenn Adams é dramaturgo, ator e professor de improviso norte-americano, fundador da Synergy Theater, companhia da região da Baía de São Francisco dedicada a improvisar peças inteiras diante da plateia. Foi nesse trabalho de palco, em 1991, que ele fixou a sequência de oito frases hoje chamada de Story Spine.
O problema dele era prático. Improvisadores treinados em jogos curtos sabiam fazer a plateia rir em dois minutos, e travavam quando a tarefa era sustentar uma peça de uma hora com começo, meio e fim.
A saída foi dar ao grupo uma memória compartilhada de forma. Se todos no palco conhecem as oito articulações, ninguém precisa combinar nada nos bastidores: a próxima fala já sabe qual função cumprir na curva.
Vale percorrer as oito devagar. Era uma vez estabelece quem é o personagem e onde ele vive. Todo dia descreve a rotina, o equilíbrio que a história existe para quebrar.
Até que um dia é o incidente incitante, o empurrão que tira o personagem do trilho. Por causa disso, repetido três vezes, encadeia as consequências, cada uma nascendo da anterior.
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Até que finalmente marca o clímax, a hora em que o personagem enfrenta o problema de frente. E desde então descreve o mundo novo, que precisa ser diferente do Todo dia com que a história abriu.
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A troca do Todo dia pelo E desde então é o teste mais rápido do molde. Se as duas linhas descrevem a mesma rotina, nada aconteceu: o personagem passeou por acontecimentos e voltou ao ponto de partida.
O exercício também expõe história feita de episódios soltos. Rascunho que aceita E então no lugar de Por causa disso costuma ser uma lista cronológica, e lista cronológica cansa quem lê por volta da página trinta.
Adams publicou o método em How to Improvise a Full-Length Play: The Art of Spontaneous Theater, pela editora Allworth Press, em 2007, acompanhado dos exercícios de aquecimento e das regras de cena que ele usava nos treinos.
O molde saiu do teatro e caiu no cinema por uma porta bem documentada. Em 2011, Emma Coats, então artista de storyboard da Pixar, publicou uma lista de vinte e duas regras de história, e a regra de número quatro reproduz as frases de Adams quase palavra por palavra.
Um ponto da origem fica incerto e convém dizer com franqueza: a data de 1991 vem do relato do próprio Adams sobre as oficinas dele, e não existe registro publicado na época que confirme o ano. O que se pode conferir é o livro de 2007 e a circulação do molde nas escolas de improviso desde os anos 1990.
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II NA PÁGINA
Dez minutos e oito linhas num papel
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O exercício cobra três providências de quem está com um enredo embolado: escrever as oito frases sem apagar nada, trocar todo E então por Por causa disso, e comparar a linha do Todo dia com a linha do E desde então. As três cabem em dez minutos cronometrados.
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Comece pelo Todo dia, e não pelo Era uma vez. A rotina é o que sustenta a quebra aos olhos de quem lê, e rascunho travado quase sempre tem personagem sem rotina visível: ele só existe depois do problema.
Escreva as três consequências sem julgar a qualidade delas. A primeira versão costuma sair frouxa, e a frouxidão é o próprio diagnóstico: consequência que caberia em qualquer outra história indica que o personagem ainda não tem desejo próprio.
Deixe a frase final por último e sem enfeite. E desde então cobra mudança concreta, de preferência com um objeto ou um lugar diferente do que abriu a história, nada de personagem que aprendeu uma lição bonita.
| 1 | Escreva as oito frases do molde numa folha, uma por linha, sem apagar nenhuma, em dez minutos cronometrados. | | | | 2 | Sublinhe cada Por causa disso e confira se a frase nasce mesmo da anterior; se aceitar E então no lugar, reescreva. | | | | 3 | Leia a linha do Todo dia ao lado da linha do E desde então e escreva numa frase qual mudança separa uma da outra. | | | | 4 | Marque a cena que hoje ocupa o Até que finalmente e anote se ela já está escrita no manuscrito ou se ainda é promessa. | | |
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“A espinha da história não é uma história. É o esqueleto que sustenta uma.”
> Kenn Adams, How to Improvise a Full-Length Play: The Art of Spontaneous Theater, Allworth Press, 2007
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A ressalva do autor pesa tanto quanto o molde. Esqueleto sem carne não emociona ninguém: as oito frases garantem que a história ande, e não substituem cena, fala, detalhe físico nem ponto de vista.
Existe um uso segundo, menos óbvio, na hora de vender o livro. A descrição da orelha e da página da loja cabe nas quatro primeiras articulações, porque revelar o clímax na vitrine tira do comprador a razão de abrir a primeira página.
O molde ainda diagnostica o meio do livro. Autor que trava no capítulo doze costuma ter só duas consequências encadeadas e uma terceira inventada às pressas, e as oito linhas mostram o buraco em dois minutos de leitura.
Uma advertência evita o uso mecânico. O molde é ferramenta de rascunho e de revisão, nunca fôrma de publicação: romance que segue as oito frases de maneira visível fica previsível, e a graça está em esconder o esqueleto sob a superfície da prosa.
O improviso emprestou outro hábito útil ao escritor solitário: aceitar a própria oferta. No palco, negar a ideia do colega trava a cena; na mesa de escrita, apagar a frase antes de terminá-la trava o rascunho pelo mesmo motivo.
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