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ED 006

O sim chegou na resposta de número 61

Stockett levou três anos e meio e sessenta recusas de agentes até a de número 61 aceitar representar The Help.

Mesa de escritório com uma pilha de cartas de recusa de agentes literários ao lado de um manuscrito impresso e uma planilha de envios aberta.

Sessenta recusas empilhadas antes do sim

 

Uma recusa de agente literário cabe em quatro linhas. Agradece o envio, informa que o projeto não se encaixa na lista atual, deseja sorte em outro lugar e termina sem nome de pessoa nenhuma embaixo.

Quem recebe lê as quatro linhas como laudo. A recusa deixa de ser a resposta de uma pessoa sobre um encaixe e vira parecer sobre talento, e o original volta para a pasta de onde saiu, às vezes por meses, às vezes para sempre.

A unidade de medida está errada. Uma resposta negativa mede o encaixe entre um texto e a agenda de um profissional específico numa semana específica. O agente já tem uma lista de representados, já sabe qual livro vai oferecer a qual editor no semestre, e devolve original decente que não cabe no calendário dele.

A escala explica o resto. Uma agência recebe milhares de consultas por ano e assina com um punhado de autores novos. A taxa de aceitação fica bem abaixo de 1%.

Com taxa abaixo de 1%, um envio não é tentativa: é amostra de tamanho um. Ninguém conclui nada de amostra de tamanho um. O autor que manda para três agentes, recebe três nãos e guarda o texto encerrou o teste antes de existir dado.

O conserto é administrativo e sem charme. A submissão vira funil: uma lista de destinatários montada antes do primeiro envio, uma meta de envios por semana, uma data de saída e uma coluna de resposta. Quem manda cinco por semana chega a sessenta em doze semanas.

O funil também troca o humor por evidência. Contar recusa dá desânimo; contar envio dá tarefa. Uma linha por semana na planilha responde à pergunta que corrói o autor sozinho, se ele parou por falta de resposta ou por falta de envio.

A régua de hoje vem de uma autora que passou anos juntando recusa de agente e voltava ao arquivo depois de cada rodada.

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I  A DOSE

Ela reescreveu depois de cada recusa

Sessenta agentes devolveram o mesmo original. Veja o que ela fez entre uma recusa e a seguinte.

Kathryn Stockett levou três anos e meio para juntar sessenta respostas negativas de agentes literários. O original era The Help, romance ambientado em Jackson, no Mississippi, em 1962, escrito por quem cresceu na mesma cidade e conviveu desde criança com a empregada doméstica dentro de casa.

Ela escreveu o livro em Nova York, ao longo de cinco anos, em horário roubado: trabalhava com publicações, tinha filha pequena e escrevia de madrugada, no almoço e em qualquer intervalo.

A primeira recusa chegou em formulário, com uma linha de justificativa: a história não sustentou o interesse do leitor. Outra, mais adiante, informou que não havia mercado para aquele tipo de escrita cansativa.

Ela guardou as cartas. Todas. Depois de cada rodada de nãos, abria o arquivo e reescrevia.

O que ela reescrevia mudou com o tempo. No começo era a trama inteira. Depois virou o começo do romance, refeito vezes seguidas, porque agente literário decide nas primeiras páginas e raramente passa delas.

A vergonha entrou na conta por volta da recusa de número quarenta. Ela parou de contar aos amigos o que fazia nos fins de semana e passou a esconder o projeto, com medo da pergunta sobre o andamento do livro.

Num jantar, saiu da mesa, entrou no closet de casacos com o laptop e escreveu ali dentro enquanto a festa seguia do outro lado da porta.

A recusa de número sessenta chegou igual às anteriores. Ela mandou o original para o próximo da lista.

Sessenta recusas em três anos e meio dão uma resposta a cada três semanas. O gargalo não estava no texto, estava na velocidade com que o texto chegava a alguém.

A resposta de número sessenta e um veio de Susan Ramer, da agência Don Congdon Associates, em Nova York. Ela aceitou representar o livro.

Ramer levou o original a Amy Einhorn, editora que montava um selo próprio dentro da Putnam e procurava o primeiro título da casa. The Help virou o livro de estreia do selo.

Entre a primeira recusa e a capa impressa passaram anos. Entre o sim da agente e a oferta da editora, meses.

Repare no que não mudou no meio do caminho. O manuscrito que Susan Ramer leu era, em essência, o mesmo texto que sessenta colegas dela tinham devolvido. Mudou a quantidade de mesas em que ele foi posto.

Nenhuma das sessenta recusas apontou erro no livro. Elas apontaram agenda: lista cheia, gênero fora do foco, dúvida sobre venda. Informação sobre o negócio de quem recusou, não sobre a qualidade de quem escreveu.

 
 

II  NA PÁGINA

Cinco envios por semana, resposta anotada

A submissão do original é um funil, e funil se opera com dois números: quantos envios saem por semana e o que voltou de cada um. Sem os dois, falta de volume passa por falta de talento.

Primeira peça, a lista, montada inteira antes do primeiro envio. Quarenta a sessenta nomes de agentes ou editoras que publicam o seu gênero, cada um com a regra de submissão anotada ao lado: o que pedem, em que formato, por qual canal.

A lista se monta lendo os agradecimentos dos livros parecidos com o seu. Autor agradece o agente pelo nome, quase sempre na última página. Vinte livros do mesmo gênero devolvem vinte nomes com interesse provado no assunto.

Segunda peça, a meta semanal. Cinco envios por semana, num dia fixo. Cinco por semana chega a sessenta em doze semanas, e a mesma quantidade de recusas cabe em três meses em vez de três anos e meio.

Terceira peça, o pacote, e ele é curto. Uma página: um parágrafo com a premissa do livro, um com gênero, número de palavras e dois títulos comparáveis dos últimos cinco anos, um com quem você é em duas linhas. Depois, o que a agência pedir, as dez primeiras páginas ou os três primeiros capítulos.

Quarta peça, a ordem de envio. Comece pelo terço de baixo da lista, nunca pelos nomes dos sonhos. As dez primeiras cartas são as piores que você vai escrever, e não vale gastá-las com quem você mais quer.

Quinta peça, o registro, que transforma recusa em dado. Uma planilha com seis colunas: nome, agência, data do envio, o que foi enviado, data da resposta, tipo da resposta.

Quatro tipos bastam na última coluna: silêncio, formulário, recusa com comentário e pedido do original completo. Na vigésima linha o padrão aparece sozinho.

O padrão diz onde consertar. Trinta envios e nenhum pedido de original apontam para a carta de apresentação. Vários pedidos do original completo seguidos de recusa apontam para as primeiras cinquenta páginas. Nenhuma resposta de espécie alguma aponta para a lista, provavelmente montada com nomes que não representam o gênero.

Kathryn Stockett resumiu o próprio percurso num ensaio publicado na revista More, em 2011: três anos e meio e sessenta recusas depois, uma agente chamada Susan Ramer teve pena dela.

Sexta peça, a regra de reescrita, que existe para você não reescrever à toa. Recusa em formulário não carrega informação e não muda uma vírgula do texto. Comentário específico repetido por três agentes diferentes vira instrução, e aí sim o arquivo se abre.

Quatro defeitos aparecem cedo. O primeiro é mandar tudo de uma vez, os sessenta no mesmo dia, sem intervalo para corrigir a carta com o que as primeiras respostas mostrarem.

O segundo é parar na terceira recusa e chamar a parada de decisão editorial. Três respostas negativas num universo com taxa de aceitação abaixo de 1% não formam amostra.

O terceiro é personalizar demais e enviar de menos. Uma linha específica por agente resolve, o nome de um livro dele que você leu. Meia hora de pesquisa por envio derruba a meta.

O quarto é não registrar. Sem planilha, o autor lembra das recusas e esquece dos envios, e a memória sozinha sempre devolve o número que dói.

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III  O MERCADO

Do envio 61 à lista do New York Times

Na livraria: The Help chegou às lojas em 10 de fevereiro de 2009, de uma autora estreante, num selo que também estreava. A venda começou devagar e cresceu por indicação, com clube de leitura empurrando o livro de mão em mão.

O romance passou mais de cem semanas na lista de mais vendidos do New York Times, ultrapassou dez milhões de exemplares e foi traduzido para mais de quarenta idiomas.

Na tela: antes de a editora comprar o livro, Stockett entregou o original a Tate Taylor, amigo de infância da mesma Jackson, diretor sem filme grande no currículo. Ele pediu os direitos de cinema do manuscrito recusado e ela cedeu.

O filme estreou em agosto de 2011, dirigido pelo próprio Tate Taylor, passou de US$ 216 milhões de bilheteria no mundo e recebeu quatro indicações ao Oscar. Octavia Spencer levou a estatueta de atriz coadjuvante em 2012.

Na conta do agente: o profissional que recusou o original vive de comissão sobre o que vende, algo em torno de 15% do contrato do autor no mercado americano. Ele só ganha se o livro chegar a um editor, e só assina o que consegue posicionar.

A recusa, vista dali, é decisão de agenda. Um agente com a lista fechada para o semestre devolve manuscrito bom porque não tem semestre para ele, e a resposta sai idêntica à que ele manda para o texto ruim.

O formulário é o mesmo nos dois casos, e é por aí que o autor se perde. A carta padrão não distingue "não gostei" de "não consigo vender agora", porque escrever a distinção custa um tempo que a agência não tem.

Some os números do caso e o desenho aparece. Sessenta recusas em três anos e meio, uma resposta positiva, mais de dez milhões de exemplares e uma estatueta. A distância entre a recusa de número sessenta e o sim de número sessenta e um foi de um envio.

O que mudou entre uma coisa e outra não foi o texto. Foi a quantidade de leituras profissionais que o texto acumulou, e leitura profissional é a única unidade que o funil produz.

Quem manda três cartas e para nunca chega à recusa que traz comentário útil. As três primeiras respostas quase sempre são formulário, porque o formulário é o que a agência devolve quando a carta não passou do primeiro filtro.

Quem manda sessenta chega a outro lugar. Chega ao agente que responde com duas linhas de comentário, ao que pede cinquenta páginas, ao que pede o livro inteiro. A escada existe, e cada degrau custa envio.

Sessenta recusas não pararam um único best-seller. Elas atrasaram um, e o atraso foi medido em envios que não saíram.

"Quantos envios do seu original saíram na semana passada, e quantos estão marcados para a próxima?"

 
 
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