|
A submissão do original é um funil, e funil se opera com dois números: quantos envios saem por semana e o que voltou de cada um. Sem os dois, falta de volume passa por falta de talento.
|
Primeira peça, a lista, montada inteira antes do primeiro envio. Quarenta a sessenta nomes de agentes ou editoras que publicam o seu gênero, cada um com a regra de submissão anotada ao lado: o que pedem, em que formato, por qual canal.
A lista se monta lendo os agradecimentos dos livros parecidos com o seu. Autor agradece o agente pelo nome, quase sempre na última página. Vinte livros do mesmo gênero devolvem vinte nomes com interesse provado no assunto.
Segunda peça, a meta semanal. Cinco envios por semana, num dia fixo. Cinco por semana chega a sessenta em doze semanas, e a mesma quantidade de recusas cabe em três meses em vez de três anos e meio.
Terceira peça, o pacote, e ele é curto. Uma página: um parágrafo com a premissa do livro, um com gênero, número de palavras e dois títulos comparáveis dos últimos cinco anos, um com quem você é em duas linhas. Depois, o que a agência pedir, as dez primeiras páginas ou os três primeiros capítulos.
Quarta peça, a ordem de envio. Comece pelo terço de baixo da lista, nunca pelos nomes dos sonhos. As dez primeiras cartas são as piores que você vai escrever, e não vale gastá-las com quem você mais quer.
Quinta peça, o registro, que transforma recusa em dado. Uma planilha com seis colunas: nome, agência, data do envio, o que foi enviado, data da resposta, tipo da resposta.
Quatro tipos bastam na última coluna: silêncio, formulário, recusa com comentário e pedido do original completo. Na vigésima linha o padrão aparece sozinho.
O padrão diz onde consertar. Trinta envios e nenhum pedido de original apontam para a carta de apresentação. Vários pedidos do original completo seguidos de recusa apontam para as primeiras cinquenta páginas. Nenhuma resposta de espécie alguma aponta para a lista, provavelmente montada com nomes que não representam o gênero.
Kathryn Stockett resumiu o próprio percurso num ensaio publicado na revista More, em 2011: três anos e meio e sessenta recusas depois, uma agente chamada Susan Ramer teve pena dela.
Sexta peça, a regra de reescrita, que existe para você não reescrever à toa. Recusa em formulário não carrega informação e não muda uma vírgula do texto. Comentário específico repetido por três agentes diferentes vira instrução, e aí sim o arquivo se abre.
Quatro defeitos aparecem cedo. O primeiro é mandar tudo de uma vez, os sessenta no mesmo dia, sem intervalo para corrigir a carta com o que as primeiras respostas mostrarem.
O segundo é parar na terceira recusa e chamar a parada de decisão editorial. Três respostas negativas num universo com taxa de aceitação abaixo de 1% não formam amostra.
O terceiro é personalizar demais e enviar de menos. Uma linha específica por agente resolve, o nome de um livro dele que você leu. Meia hora de pesquisa por envio derruba a meta.
O quarto é não registrar. Sem planilha, o autor lembra das recusas e esquece dos envios, e a memória sozinha sempre devolve o número que dói.
|