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ED 005

O romance que os leitores revisaram de graça

Weir soltou The Martian capítulo por capítulo no site, corrigiu a órbita com o que os leitores apontaram e só então cobrou 99 centavos.

Tela de computador com um capítulo de romance publicado num site pessoal, ao lado de anotações de cálculo de trajetória orbital.

Capítulos soltos de graça antes do primeiro preço

 

O arquivo tem 84.000 palavras e uma leitora só, que é a mesma pessoa que digitou cada uma delas. Dois anos de trabalho, três passadas de revisão, e ninguém de fora abriu o documento nenhuma vez.

A regra não escrita diz que texto se mostra pronto. Mostrar rascunho parece amadorismo, então o original fica guardado até a última vírgula, e a primeira leitura de verdade acontece na caixa de entrada de um agente que responde em três meses, quando responde.

O preço dessa ordem aparece tarde. A contradição de data no capítulo 9, o cálculo que não fecha, o nome que troca de grafia na página 200: tudo sobrevive dois anos inteiros porque nenhum par de olhos passou por cima enquanto o conserto ainda era barato.

Tem um segundo custo, e ele não aparece no arquivo. Quem escreve sozinho por dois anos não sabe se a história prende ninguém. A dúvida vira adiamento, o adiamento vira reescrita do capítulo um, e a única régua que sobra é o humor do dia.

Publicar antes de terminar inverte as duas coisas de uma vez. Um capítulo por semana num site, numa lista de email, num grupo fechado, e o texto encontra leitor enquanto ainda é rascunho e ainda dá para mudar.

O leitor que acompanha capítulo a capítulo faz dois trabalhos que ninguém pagaria. Ele aponta o erro técnico dentro da especialidade dele, de graça, e devolve a data: quem espera capítulo na quinta cobra o capítulo na quinta.

Serialização também não é invenção da internet. Dickens vendeu romance em fascículo mensal, Dumas escreveu para jornal e Conan Doyle publicou Sherlock Holmes na revista Strand antes de qualquer volume encadernado. O que mudou foi o custo de distribuir um capítulo, que hoje é zero.

A régua de hoje vem de um programador que soltou o romance inteiro de graça, capítulo por capítulo, deixou a plateia corrigir a conta orbital e só pediu dinheiro depois que o texto já estava certo.

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I  A DOSE

Os leitores acharam o erro na trajetória

O romance saiu de graça, capítulo por capítulo, durante três anos. Veja o que a plateia devolveu no caminho.

Andy Weir publicou The Martian de graça no próprio site, um capítulo por vez, entre 2009 e 2011. Ele era engenheiro de software, escrevia à noite, e o romance foi ao ar na velocidade em que ficava pronto.

O site já tinha plateia antes do romance. Weir postava contos e tirinhas ali havia anos, e um punhado de leitores frequentes pediu para ser avisado quando saísse capítulo novo. Ele montou uma lista de email e passou a mandar aviso a cada episódio.

A plateia era pequena e muito específica. Gente de exatas, programador, engenheiro, químico, físico, o tipo de leitor que abre uma história sobre um astronauta abandonado em Marte já conferindo a conta.

E a conta estava exposta na página. Weir escreveu um programa próprio de mecânica orbital para calcular as trajetórias da nave do livro, e deixou no texto o número de combustível, o tempo de viagem, as calorias por dia de batata e a água produzida a partir de hidrazina.

Cada capítulo publicado voltava com correção. Um leitor apontava o erro na janela de lançamento, outro discordava da química do combustível, um terceiro mostrava que a plantação não fechava em calorias. Weir consertava e seguia para a cena seguinte.

Três anos de capítulos de graça não foram o rascunho do livro. Foram a revisão técnica que nenhum autor estreante consegue pagar.

Terminado o romance, os pedidos mudaram de assunto. Leitor queria ler no aparelho, e não no navegador, então ele montou uma versão para e-reader e deixou o arquivo para baixar de graça no mesmo site.

Aí veio o pedido que virou negócio. Um grupo pediu o livro na Kindle, porque baixar direto no aparelho era mais simples que passar por cabo. A loja da Amazon não aceitava publicação a preço zero, e o mínimo permitido era 99 centavos.

Weir subiu o arquivo pelo mínimo, em setembro de 2012, com a versão gratuita continuando no ar no site de sempre. Cobrar era a única maneira de atender ao pedido.

Em três meses o arquivo de 99 centavos vendeu perto de 35.000 cópias e chegou ao topo da lista de ficção científica da Amazon. Na faixa de preço mínimo a plataforma paga 35% ao autor, algo como 35 centavos por cópia vendida.

Repare no que ele não fez. Não mandou original para agente, não montou lançamento, não comprou anúncio e não segurou o texto esperando contrato. Publicou em série, corrigiu com quem leu e só depois pôs preço.

A ordem importa mais que a plataforma. O texto chegou à loja já corrigido por leitores que acompanharam três anos de capítulos e já com plateia formada, e a loja só precisou registrar a venda.

 
 

II  NA PÁGINA

Um capítulo por semana, com data marcada

A lista de leitores de Weir não era grande. Ela era pontual e específica, e as duas coisas juntas entregam o trabalho que revisor pago entrega caro e tarde.

Primeira peça, a lista. Quarenta pessoas bastam para o mecanismo funcionar. Um grupo fechado, uma lista de email gratuita, um canal no Telegram: o que conta é existir um lugar fixo onde o capítulo aparece e onde o leitor sabe responder.

Segunda peça, a data. Escolha um dia e um horário e não mude mais: quinta, 19h. A data é o que transforma leitor em cobrador. Sem ela o capítulo sai quando der, e quando der costuma ser nunca.

Terceira peça, o tamanho do episódio. Entre 1.500 e 3.000 palavras, uma cena inteira, com começo e corte. Capítulo curto demais não dá o que comentar, e longo demais atrasa e quebra a data.

Quarta peça, o pedido de retorno, que é onde quase todo mundo erra. Perguntar o que a pessoa achou devolve elogio educado. Pergunta fechada devolve informação: em que parágrafo você parou de ler, qual detalhe da sua área está errado aqui, o que você achou que ia acontecer no fim da cena.

Stephen King resumiu a lógica em Sobre a Escrita, de 2000: escreva com a porta fechada, reescreva com a porta aberta.

A série faz as duas coisas na mesma semana. A cena nasce fechada, sai na quinta e volta revisada por quem leu antes de a próxima ser escrita.

Quinta peça, o registro. Uma planilha com quatro colunas: capítulo, data de publicação, número de respostas e correções aplicadas. Em dois meses a coluna de respostas mostra onde a história prende e onde ela solta a mão do leitor.

Quatro defeitos aparecem cedo. O primeiro é publicar sem data, o que devolve o problema original com cara de projeto sério.

O segundo é reescrever o capítulo um a cada resposta recebida. Correção de fato entra na hora; opinião sobre estrutura vira anotação e espera o fim da série.

O terceiro é escolher plateia amiga. Quem gosta de você lê torcendo e devolve elogio. A revisão técnica só chega de quem entende do assunto do livro e não deve nada a ninguém.

O quarto é sumir na terceira semana. A série cobra constância, e um capítulo atrasado sem aviso apaga metade da lista.

Vale começar com estoque na frente. Publique o primeiro episódio com três já prontos na gaveta, e a semana ruim deixa de derrubar a data.

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III  O MERCADO

Do arquivo de 99 centavos ao estúdio

Na loja: o arquivo entrou na Kindle em setembro de 2012 pelo preço mínimo da plataforma, sem editora, sem capa profissional e sem uma linha de imprensa. Em três meses eram cerca de 35.000 cópias vendidas e o primeiro lugar na lista de ficção científica da loja.

A lista de vendas da Amazon é pública, e é ali que o mercado editorial procura material. Nenhum dos contratos que vieram depois começou com original enviado por email.

No áudio: no começo de 2013 a Podium Publishing comprou os direitos de audiolivro. A gravação saiu em março daquele ano, com narração de R. C. Bray, e virou um dos títulos mais vendidos do catálogo da casa.

No papel: ainda em março de 2013 a Crown, do grupo Random House, comprou os direitos de impressão por um valor de seis dígitos. A edição impressa saiu em 11 de fevereiro de 2014 e entrou direto na lista do New York Times.

Na tela: poucos dias depois do acordo com a editora, a 20th Century Fox comprou os direitos de cinema. O filme dirigido por Ridley Scott estreou em outubro de 2015 e passou de US$ 630 milhões de bilheteria no mundo.

Some as datas e o desenho aparece inteiro. Três anos de capítulo de graça, três meses de venda a 99 centavos e, em poucas semanas, áudio, editora e estúdio na mesma mesa.

O que mudou entre a segunda e a terceira fase não foi a qualidade do texto. O texto era o mesmo arquivo. O que mudou foi passar a existir um número do lado dele.

Editor e produtor compram risco reduzido, e não promessa. Uma sinopse pede que alguém acredite; uma lista de 35.000 vendas dispensa a crença e vira planilha.

Quem escreve sozinho até o fim chega à mesa com uma coisa só, o texto, e texto sozinho é a peça mais difícil de avaliar. Quem serializa chega com texto, plateia, taxa de resposta e histórico de entrega no prazo.

A série resolve também o problema anterior à venda. Um autor que publicou 40 capítulos em 40 semanas provou, para si mesmo e para qualquer contraparte, que entrega. Editora compra o próximo livro tanto quanto compra o atual.

Vale reparar na parte estranha do caso. A versão gratuita nunca saiu do ar. O mesmo texto continuou disponível de graça enquanto a edição paga vendia, e o arquivo livre não derrubou a venda: ele construiu a plateia que comprou.

Nenhuma das três portas pediu um manuscrito inédito. As três pediram prova de que já existia gente lendo, e prova de leitura só se fabrica publicando.

"Qual capítulo você mandaria na quinta se 40 pessoas estivessem esperando por ele?"

 
 
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