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O romance grátis de 2003

Cory Doctorow liberou o arquivo de Down and Out in the Magic Kingdom na internet e manteve o livro de papel à venda.

Livro de capa dura ao lado de um monitor antigo com o mesmo romance aberto na tela.

Arquivo livre, livro de papel à venda.

▼
 

Um arquivo de texto, uma licença de três cláusulas, um livro de capa dura com preço na sobrecapa. Os três chegaram ao público na mesma data de 2003, e só o último custava dinheiro.

O livro era Down and Out in the Magic Kingdom (algo como “na pior no Reino Mágico”), primeiro romance do canadense Cory Doctorow, lançado pela editora americana Tor Books. O arquivo era o mesmo romance, palavra por palavra, liberado para download no site do autor.

A licença dizia o que o leitor podia fazer com o arquivo: baixar, guardar, mandar para um amigo, imprimir em casa. Só não podia vender nem alterar o texto.

Para o mercado editorial da época, a jogada parecia jogar dinheiro fora. As editoras pagavam advogados para tirar cópias piratas do ar, e a indústria da música ainda brigava na Justiça contra o Napster, o programa de troca de MP3 que tinha esvaziado as lojas de disco.

Doctorow apostava no contrário. Para ele, o leitor que baixava o arquivo de graça era o mesmo que depois comprava o papel, dava o livro de presente e falava dele para os amigos.

A Tor aceitou a aposta. O editor dele na casa, Patrick Nielsen Hayden, conhecia bem o leitor de ficção científica, um público que já lia em tela e trocava textos em fóruns desde os anos 1990.

O impresso foi para as livrarias com o preço normal. Ninguém deu desconto para compensar a versão gratuita, e nenhuma loja tirou o livro da prateleira por causa dela.

O resultado contrariou o medo das editoras. O romance ganhou leitores, prêmio e novas tiragens, e virou o caso que todo autor cita quando discute dar o próprio livro de graça.

A primeira faixa abaixo abre a licença que Doctorow escolheu e mostra o que cada cláusula permitia ao leitor e o que guardava para o autor.

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I  A DOSE

A licença das três cláusulas

A resposta de ontem

Qual país pagou o autor por empréstimo antes do Reino Unido?

A Dinamarca. Em 1946, o país criou o primeiro sistema de pagamento ao autor por livro emprestado em biblioteca pública, pensado para sustentar quem escrevia em dinamarquês, língua de mercado pequeno. A Noruega copiou o modelo em 1947 e a Suécia em 1954, décadas antes da lei britânica de 1979.

Down and Out in the Magic Kingdom chegou às livrarias e à internet na primeira quinzena de 2003, sob uma licença Creative Commons (bens comuns criativos). Era a versão 1.0 das licenças, publicada pela organização poucas semanas antes, em dezembro de 2002.

A Creative Commons nasceu em 2001, nos Estados Unidos, com o professor de Direito Lawrence Lessig à frente. A proposta era dar ao autor licenças prontas, escritas por advogados, para liberar parte dos direitos sem abrir mão de todos.

O nome técnico da licença usada por Doctorow é BY-NC-ND. Cada sigla corresponde a uma cláusula:

1. BY (atribuição): quem compartilha o arquivo precisa dar o crédito ao autor.

2. NC (uso não comercial): ninguém pode vender o arquivo nem cobrar pelo acesso.

3. ND (sem derivados): ninguém pode alterar, traduzir ou adaptar o texto sem pedir.

O direito autoral continuava inteiro com Doctorow. A licença só abria a cópia gratuita, e a venda seguia exclusiva da Tor, dona do contrato do impresso.

Na prática, o leitor de 2003 baixava o romance em texto puro ou em HTML, lia no computador ou num aparelho de mão como o Palm, e decidia depois se queria o volume de papel na estante.

A estreia em números:

Lançamento2003
EditoraTor Books
LicençaCC BY-NC-ND 1.0
PrêmioLocus de estreia, 2004
Formato pagoCapa dura

O prêmio Locus de melhor romance de estreia veio em 2004, votado pelos leitores da revista Locus, a principal publicação do mercado de ficção científica nos Estados Unidos. O livro também concorreu ao Nebula, o prêmio dado pelos escritores do gênero.

O leitor ganhava a cópia, e a venda continuava com a editora.

Em 2004, Doctorow trocou a licença do arquivo por uma versão mais aberta, que liberava a obra derivada desde que sem fins comerciais. Leitores fizeram traduções, audiolivros caseiros e versões para os aparelhos de leitura da época.

Lessig resumiu a lógica da organização no livro que publicou naquele ano, também com licença aberta:

“A free culture is not a culture without property; it is not a culture in which artists don't get paid.” (Uma cultura livre não é uma cultura sem propriedade; não é uma cultura em que os artistas não recebem.)

Lawrence Lessig, Free Culture, 2004

A frase explica a escolha de Doctorow. Liberar o arquivo não tirava do autor a renda do exemplar vendido: os direitos sobre cada capa dura chegavam a ele pelo contrato normal com a Tor.

 
 

II  NA PÁGINA

A moeda chamada Whuffie

Down and Out in the Magic Kingdom se passa num futuro em que o dinheiro deixou de existir e a moeda virou reputação. O narrador, Julius, vive na Disney World, em Orlando, e mede o próprio valor em Whuffie, um placar de estima que todo mundo enxerga em tempo real.

Na sociedade do livro, ninguém passa fome nem fica doente. A tecnologia guarda uma cópia da mente de cada pessoa e restaura o corpo quando ele falha, e o que sobra para disputar é a admiração dos outros.

Julius e um grupo de fãs administram a Mansão Assombrada, a atração de fantasmas do parque. Um grupo rival quer reformar a atração com uma tecnologia que grava sensações direto no cérebro do visitante, e a briga entre os dois grupos move a trama.

O livro é curto, com pouco mais de 200 páginas na edição da Tor, e se lê em poucas sessões. O ritmo ajuda o arquivo grátis: quem começa na tela chega ao fim rápido e forma opinião sobre o autor.

O Whuffie sobe quando alguém gosta do que você fez e cai quando você incomoda. Quem perde reputação perde acesso: mesa em restaurante, ajuda dos vizinhos, lugar na equipe.

O livro dentro da tese

A moeda inventada repete, na página, a aposta do autor fora dela. Doctorow tratava a atenção do leitor como o bem escasso, e o arquivo grátis como o jeito mais barato de conquistar essa atenção.

Doctorow tinha 31 anos no lançamento. Já era conhecido como coeditor do Boing Boing, um dos blogs mais lidos da época, e usava o próprio site para avisar os leitores de cada novidade.

O leitor que baixava o romance encontrava, logo nas primeiras páginas, uma nota do autor explicando a licença e convidando a passar o arquivo adiante. A abertura do livro virava argumento.

Num mundo sem dinheiro, o livro de Doctorow cobra em reputação.

A palavra Whuffie saiu do romance e entrou no vocabulário da tecnologia. Empreendedores e blogueiros passaram a usá-la nos anos 2000 para falar de reputação online.

Para quem escreve, a lição está no encaixe. O tema do romance e o modo de distribuição contavam a mesma história, e o leitor que gostava da tese tinha motivo extra para comprar o papel e recomendar o livro.

 

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III  O MERCADO

Grátis na tela, pago na estante

Doctorow não foi o pioneiro do livro grátis na internet. Em 1999, a editora americana Baen Books abriu a Baen Free Library (biblioteca gratuita da Baen), criada pelo editor Jim Baen e pelo escritor Eric Flint, com romances inteiros para baixar sem custo.

Flint defendia que o volume grátis funcionava como amostra. O leitor provava o livro inicial de uma série e comprava os seguintes, e a Baen manteve a biblioteca no ar por anos.

Em 2002, o editor de livros técnicos Tim O'Reilly resumiu o argumento num ensaio publicado pela própria editora, Piracy is Progressive Taxation (pirataria é imposto progressivo):

“Obscurity is a far greater threat to authors and creative artists than piracy.” (A obscuridade é uma ameaça muito maior aos autores e artistas do que a pirataria.)

Tim O'Reilly, Piracy is Progressive Taxation, 2002

Doctorow repetiu a aposta. Little Brother, romance juvenil de 2008, também pela Tor, saiu com arquivo grátis e entrou na lista de mais vendidos do New York Times.

No Brasil, o caso mais conhecido é o de Paulo Coelho. Na Feira do Livro de Frankfurt de 2008, ele contou que divulgava no próprio blog links de cópias piratas dos seus livros e defendeu que a cópia gratuita ajudou a vender os livros na Rússia.

A Lei 9.610, de 1998, a lei brasileira de direito autoral, permite ao autor liberar a cópia por licença. A versão brasileira das licenças Creative Commons existe desde 2004, adaptada pela FGV Direito Rio.

O arquivo grátis vende quando o leitor ainda não conhece o autor.

A aposta tem limite. Ela rende mais para o autor estreante ou de nicho, que precisa ser descoberto, e menos para quem já vende bem só com o nome na capa.

Ela também depende do contrato. O contrato padrão costuma ceder à editora os direitos do formato digital, e liberar o arquivo sem acordo escrito pode violar o que foi assinado.

Para testar a aposta sem risco, o autor pode começar pelo texto curto: um conto, um capítulo de amostra ou um ensaio livre de contrato. O retorno aparece em leitores novos, inscritos e pedidos pelo livro inteiro.

Hoje: escolha 1 conto ou capítulo seu, até as 22h, e publique o texto inteiro num link aberto com a sigla CC BY-NC-ND escrita no rodapé.

 
 
Quiz da edição

Na licença Creative Commons que Doctorow escolheu para o arquivo de Down and Out in the Magic Kingdom, o que a cláusula NC proibia?

ATraduzir o texto para outro idioma sem autorização
BImprimir o arquivo em casa
CVender o arquivo ou cobrar pelo acesso a ele
DCitar o nome do autor ao compartilhar

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