|
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
O romance de Clarice que nasceu em guardanapos
Em 1977, Olga Borelli juntou as notas soltas de Clarice Lispector e montou a ordem de A Hora da Estrela.
|
Notas soltas à espera de uma ordem
|
| ▼ |
| |
|
Um talão de cheques, um guardanapo de papel, as costas de um envelope. Os três guardavam pedaços do mesmo romance, escritos a caneta pela mesma mão, no Rio de Janeiro, em meados dos anos 1970.
A mão era de Clarice Lispector. Ela anotava frases onde estivesse: na mesa do café, no banco do táxi, na cama, de madrugada. Quando a ideia chegava, servia o papel mais perto.
As notas iam parar em gavetas, bolsas e sacolas. Algumas tinham uma frase só. Outras ocupavam o papel inteiro, com rasuras e setas que apontavam para trechos que ainda não existiam.
Clarice não numerava as notas nem datava os papéis. Escrevia a frase, guardava o papel onde coubesse e seguia o dia, confiando que o livro se juntaria mais tarde.
Desses papéis saiu a história de Macabéa, uma moça alagoana de 19 anos que trabalha como datilógrafa no Rio, come cachorro-quente, ouve a Rádio Relógio de madrugada e não sabe que é infeliz.
O livro tem um narrador inventado, Rodrigo S.M., que interrompe a própria história para discutir com o leitor se vale a pena contá-la. Na página de rosto, Clarice listou 13 títulos possíveis, um embaixo do outro, com a assinatura dela no meio da lista.
Quem transformou o monte de papel em livro foi Olga Borelli, amiga e assistente de Clarice desde 1970. Ela reuniu os fragmentos, leu um por um, propôs uma sequência e datilografou a versão que a autora revisou.
O romance saiu pela editora José Olympio em 1977. Foi o último livro que Clarice viu impresso.
Para quem escreve o primeiro livro, a cena guarda um alívio. Um romance pode nascer espalhado em dezenas de papéis, e a ordem pode chegar depois, com a ajuda de um leitor de confiança.
A seção I conta quem era Olga, como ela trabalhava com Clarice e o que restou daqueles papéis.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A DOSE
A amiga que ordenou os papéis
|
|
Clarice Lispector nasceu em 1920 na Ucrânia, numa família judia que fugia da guerra civil, e cresceu no Recife antes de se mudar para o Rio de Janeiro. Estreou com Perto do Coração Selvagem, em 1943, e passou três décadas escrevendo romances, contos e crônicas de jornal.
Olga Borelli entrou na vida dela em 1970, ao procurar a escritora para pedir ajuda numa obra beneficente. Ficou. Ex-freira, Olga passou a cuidar da agenda, dos contratos, das visitas e, aos poucos, dos manuscritos.
O método das duas já tinha sido testado antes. Em Água Viva, de 1973, Clarice entregou um texto longo e solto, e Olga ajudou a cortar e a costurar os trechos até o livro ganhar forma.
|
Clarice escrevia o livro em pedaços; Olga enxergava o desenho que os pedaços formavam.
|
Com A Hora da Estrela, o trabalho seguiu o mesmo caminho. Olga recolhia as notas pela casa, copiava cada uma à máquina, agrupava as que falavam da mesma cena e montava uma sequência provisória.
Datilografar, nessa etapa, tinha função dupla. A cópia limpa permitia ler as notas sem decifrar a letra apressada, e as folhas do mesmo tamanho deixavam os trechos prontos para mudar de lugar na mesa.
Clarice lia a montagem, cortava, trocava trechos de lugar e escrevia passagens novas para cobrir os buracos. A decisão final era sempre dela; o trabalho de juntar e propor a ordem era de Olga.
A lista de 13 títulos saiu do mesmo processo. Entre eles estão A Culpa É Minha, O Direito ao Grito e Saída Discreta pela Porta dos Fundos. Clarice manteve A Hora da Estrela como título principal e deixou os outros impressos na página, como alternativas que o leitor também lê.
Em fevereiro de 1977, numa entrevista ao jornalista Júlio Lerner, na TV Cultura, Clarice contou que tinha acabado um livro sobre uma moça nordestina tão pobre que só comia cachorro-quente. Foi a única entrevista dela para a televisão.
Olga voltou a fazer a montagem depois. Organizou os fragmentos de Um Sopro de Vida, publicado em 1978, e deu entrevistas a biógrafos contando como os papéis chegavam às mãos dela.
Quanto às notas originais, parte sobreviveu. Em 2017, nos 40 anos do livro, a editora Rocco lançou uma edição com fac-símiles (reproduções fotográficas) dos manuscritos, guardados no acervo do Instituto Moreira Salles. Quantos papéis se perderam no caminho, ninguém registrou.
|
|
|
|
|
II NA PÁGINA
Escrever solto, montar depois
|
|
Escrever e ordenar são dois trabalhos diferentes, e quem tenta fazer os dois na mesma sentada costuma travar nos dois. Clarice deixou a ordem para outra etapa e para outra pessoa.
|
No ofício, a segunda etapa tem nome: montagem (o trabalho de dar sequência a trechos escritos separados). O termo vem do cinema, onde o diretor filma as cenas fora de ordem e decide a sequência na mesa de edição.
Vladimir Nabokov escrevia os romances em fichas pautadas, aquelas de 3 por 5 polegadas, e embaralhava as fichas até achar a ordem. O último romance dele, inacabado, saiu em 2009 como The Original of Laura, impresso com as fichas destacáveis.
O método tem uma vantagem clara para quem trabalha de dia e escreve à noite. Uma cena de 20 minutos, escrita no intervalo do almoço, já é um pedaço do livro. Ninguém precisa da madrugada inteira e do roteiro completo para começar.
O fragmento também desarma a página em branco. Quem senta para escrever o capítulo 1 sente o peso do livro inteiro; quem senta para escrever uma cena curta, a personagem esperando o ônibus na chuva, sente só o peso da cena.
O risco também é claro. Fragmento demais, sem montagem, vira gaveta. Clarice tinha Olga; o autor iniciante precisa de um dia fixo na semana para juntar o que escreveu e de um leitor que aponte onde a sequência falha.
A montagem pode ser feita assim:
| 1 | Anote cada cena ou ideia num papel ou num arquivo separado, com uma frase de título no alto. | | | | 2 | Uma vez por semana, junte tudo numa pasta só, física ou digital, sem jogar nada fora. | | | | 3 | Leia os pedaços em sequência e agrupe os que falam do mesmo personagem ou do mesmo lugar. | | | | 4 | Monte uma ordem provisória e escreva só as passagens que faltam para ligar um grupo ao outro. | | | | 5 | Entregue a montagem a um leitor de confiança e peça que marque onde ele se perdeu. | | |
A ordem de Olga não engessou o livro. Rodrigo S.M. comenta, hesita e volta atrás, e a montagem preservou essas idas e vindas como parte da história. Um livro montado de fragmentos pode manter a marca de como foi escrito, desde que alguém decida o que vem primeiro.
|
| |
|