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O romance de 300 páginas sem a letra “e”

Em 1969, Georges Perec tirou do francês a letra mais usada, e a regra cega obrigou cada frase do livro a nascer de novo.

Máquina de escrever antiga sem a tecla da letra e.

A tecla que Georges Perec deixou de lado.

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Um romance policial, um detetive desaparecido, uma vogal banida. Os três cabem num livro francês de 1969, La Disparition (O Desaparecimento), e o terceiro item explica os outros dois.

A letra proibida é o “e”, a mais frequente da língua francesa. Ela aparece em artigos, em pronomes, no plural dos adjetivos e em quase todo verbo conjugado. Tirá-la equivale a escrever em português sem o “a”: some o artigo feminino, some boa parte das terminações, somem palavras de uso diário como casa, amor e nada.

O livro passa de 300 páginas na edição original da Denoël, a editora parisiense que o lançou. Nenhuma delas traz a letra. A assinatura do autor, Georges Perec, carrega três “e” e fica do lado de fora, só na capa.

A regra tem nome técnico. Lipograma (do grego, “sem letra”) é o texto escrito com uma ou mais letras excluídas de propósito. Poetas gregos já brincavam com a forma há mais de dois mil anos, mas quase sempre em peças curtas, de poucas linhas.

A ambição de 1969 era outra. Um romance inteiro, com enredo, suspense, cenas de amor e de perseguição, construído sem a peça mais comum do idioma. Cada frase precisou ser pensada duas vezes: a versão natural, que o autor descartava, e a versão sem a letra, que entrava no livro.

Daí sai a lição que interessa a quem escreve ficção hoje. A regra era arbitrária, porque nada no enredo exigia a falta da vogal. Ela também era mensurável, porque qualquer leitor podia conferir página por página se o autor tinha cumprido.

As duas qualidades juntas fizeram o trabalho que a liberdade total não faz. Sem o caminho fácil, o escritor não podia usar a frase pronta, o clichê, a primeira palavra que vinha à mão.

A seção I conta quem foi o escritor, de onde veio a ideia e o que o enredo esconde dentro da própria regra.

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I  A DOSE

Um policial que esconde a própria falta

Georges Perec, romancista francês nascido em Paris em 1936, escreveu La Disparition aos 33 anos, como parte do trabalho no Oulipo. O grupo era uma oficina de escritores e matemáticos dedicada a inventar regras para escrever.

O nome Oulipo é sigla de Ouvroir de Littérature Potentielle (Oficina de Literatura Potencial). Raymond Queneau, romancista, e François Le Lionnais, engenheiro e matemático, fundaram o grupo em Paris em 1960. Perec entrou em 1967 e virou o membro mais conhecido.

A proposta do grupo cabia numa imagem. Queneau descreveu os oulipianos como “ratos que constroem o labirinto do qual pretendem sair”, frase registrada em La Littérature potentielle (A Literatura Potencial), coletânea do Oulipo publicada em 1973.

O enredo dentro da regra

O livro conta o sumiço de Anton Voyl, um homem que some de casa depois de noites de insônia. Os amigos dele começam a procurá-lo, e cada pista os leva a outro desaparecimento.

O leitor atento percebe o jogo aos poucos. Os personagens sentem que falta algo no mundo e não sabem dizer o quê. Quem tenta nomear a ausência some da história. O mistério do romance é a própria letra banida.

A estrutura repete a piada. O livro tem 26 capítulos, um para cada letra do alfabeto, e o capítulo 5 não existe. O “e” é a quinta letra.

A falta da letra virou o motor do enredo, e o leitor descobre o crime ao entender a regra.

O peso pessoal da ausência

Leitores e biógrafos de Perec apontam uma camada mais funda. O pai do escritor caiu na guerra em 1940, e a mãe foi deportada para Auschwitz em 1943 e nunca voltou. Ele cresceu órfão, criado por tios.

Em francês, “sem e” se pronuncia como “sans eux”, que quer dizer “sem eles”. O próprio Perec escreveu sobre a perda dos pais em W ou a Memória da Infância, de 1975, e muitos críticos leem o romance sem a vogal como um livro sobre a família que faltou.

A regra cega serviu de forma para um luto que o autor não conseguia dizer de frente. A restrição deu a ele uma distância segura para tratar do assunto mais difícil da vida dele.

Depois da proibição

Três anos mais tarde, Perec inverteu o jogo. Les Revenentes (Os Que Voltam), de 1972, usa uma vogal só, justamente o “e”, e nenhuma outra. A letra banida volta como única dona do texto.

 
 

II  NA PÁGINA

Uma regra que você confere com o dedo

A força da regra de Perec estava em ser simples de verificar: ou a página tem a letra, ou não tem. Não há meio-termo nem interpretação.

Regra vaga não força nada. “Escrever com mais concisão” ou “evitar clichês” são conselhos honestos, mas o autor sempre encontra um motivo para achar que já cumpriu. A regra mensurável tira a desculpa.

Quando a frase óbvia está proibida, o escritor é obrigado a olhar para a cena outra vez. Ele procura outro verbo, outra ordem, outra imagem. Muitas dessas segundas tentativas saem melhores do que a primeira, porque nascem de uma escolha consciente, e não do hábito que guiava a mão.

O esforço extra tem custo. Perec gastou meses no manuscrito, e a escrita lenta fazia parte do método: cada parágrafo era um problema a resolver, e a solução trazia uma imagem que o autor dificilmente teria encontrado escrevendo solto.

Restrições para testar no rascunho

O autor de hoje não precisa banir uma vogal. Basta escolher uma regra pequena, aplicável a um capítulo, e conferível no fim.

• Proibir uma palavra muleta, como “muito”, “realmente” ou “então”, num capítulo inteiro.

• Escrever uma cena só com verbos de ação, sem nenhum “estar”, “ser” ou “ficar”.

• Limitar as frases de um diálogo a doze palavras cada.

• Contar uma cena inteira sem adjetivos e só depois decidir quais voltam.

Cada regra dessas tem a mesma qualidade da de Perec: o próprio autor confere, sem depender da opinião de ninguém.

Regra que você consegue contar é regra que você consegue cumprir.

O que a restrição revela

A busca do texto pela palavra proibida funciona como diagnóstico. O escritor que tira “muito” de um capítulo descobre quantas frases dependiam dela para parecer fortes. A contagem mostra o vício melhor do que qualquer leitura atenta.

Italo Calvino, outro membro do Oulipo, defendeu a ideia em Seis Propostas para o Próximo Milênio, conferências escritas em 1985. Para ele, a exatidão da linguagem era uma das virtudes que a literatura precisava guardar.

A regra não fica no livro

A restrição é andaime, não parede. O autor pode usá-la no primeiro rascunho e soltar na revisão, mantendo só as frases que melhoraram. O leitor final nunca precisa saber da regra para sentir a diferença.

Perec fez o contrário e deixou a regra exposta. O efeito funcionou porque o enredo inteiro girava em torno dela, e o leitor recebia a restrição como parte da história.

 

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III  O MERCADO

A tradução repetiu a proibição

O teste mais duro da regra de Perec veio na tradução: verter o livro para outro idioma exigia reescrever cada frase sob a mesma proibição. Traduzir palavra por palavra traria o “e” de volta em todas as linhas.

O escritor britânico Gilbert Adair aceitou o desafio. A Void, a versão em inglês, saiu em 1994 e também omite o “e”, letra que lidera a frequência no inglês como no francês. Até o protagonista ganhou outra grafia: Anton Voyl virou Anton Vowl, que soa como “vowel”, vogal.

A tradução para o espanhol escolheu outro caminho. Em El Secuestro (O Sequestro), de 1997, a equipe de tradutores baniu o “a”, a vogal mais comum do espanhol, para manter o efeito sobre o leitor e não a letra original.

A regra como argumento de venda

Os editores entenderam cedo o valor comercial da restrição. A frase que explica o livro cabe numa linha de capa: um romance inteiro sem a letra mais usada. O leitor curioso compra para ver se é possível.

O caso americano mais conhecido obedece a uma lógica parecida. Theodor Geisel, o Dr. Seuss, escreveu Green Eggs and Ham (Ovos Verdes e Presunto), de 1960, com só 50 palavras diferentes, depois de uma aposta com Bennett Cerf, fundador da editora Random House. O livro virou um dos infantis mais vendidos em língua inglesa.

Antes de Perec, o americano Ernest Vincent Wright publicou Gadsby em 1939, outro romance sem a letra “e”. Ele pagou a edição do próprio bolso, e o livro passou décadas esquecido até virar peça de colecionador.

O que o mercado compra

A diferença entre os dois romances está na história. Gadsby cumpria a regra e pouco mais. La Disparition usou a regra como enredo, e por esse motivo segue em catálogo e em sala de aula mais de cinquenta anos depois.

O autor independente pode tirar a mesma lição. A restrição sozinha é truque de feira. A restrição que o livro explica, e que dá sentido à história, vira gancho de divulgação e motivo para o leitor recomendar.

Três passos para testar uma restrição

1. Escolha uma regra que caiba numa frase e que você confira contando, como uma palavra banida ou um limite de palavras por frase.

2. Aplique a regra a um capítulo só, no primeiro rascunho, e marque toda frase que precisou ser reescrita.

3. Na revisão, compare as frases marcadas com a versão antiga e guarde só as que ficaram melhores.

Hoje: escolha uma palavra muleta, procure quantas vezes ela aparece num capítulo e reescreva cinco dessas frases sem ela, em até 24 horas.

 
 
 

Quiz da edição

Na estrutura de 26 capítulos de La Disparition, um para cada letra do alfabeto, qual capítulo Georges Perec deixou de fora do livro?

AO capítulo 1
BO capítulo 26
CO capítulo 5
DNenhum capítulo falta, só a letra some do texto

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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