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A máquina parava sozinha a cada trinta minutos e só voltava com outra moeda. Veja o que o relógio cobrando resolveu.
Ray Bradbury escreveu o primeiro rascunho de Fahrenheit 451 numa máquina de escrever alugada por dez centavos a cada meia hora. Era 1950, ele tinha filha pequena em casa, nenhum escritório e nenhum dinheiro para alugar sala.
A saída estava no porão da biblioteca Powell, na UCLA. Uma sala de datilografia com fileiras de máquinas públicas, cada uma ligada a um cofrinho: você depositava uma moeda de dez centavos e ganhava trinta minutos de teclado.
O detalhe que muda tudo é o que acontecia no fim dos trinta minutos. A máquina simplesmente parava. Ou entrava outra moeda, ou o parágrafo ficava pela metade, e o relógio correu à vista o tempo inteiro.
Bradbury chegava com um saco de moedas e trabalhava em rajadas. Entre uma rajada e outra, subia para as estantes, puxava livros das prateleiras, lia trechos em pé e voltava para o porão com a próxima cena na cabeça.
O lugar entrou no livro. Ele escrevia um romance sobre queimar livros cercado por milhares deles, com o cheiro de papel velho descendo das estantes, e contou depois que a biblioteca virou combustível da história.
Para acertar o título, ligou para o corpo de bombeiros de Los Angeles e fez uma pergunta só: a que temperatura o papel de livro pega fogo. A resposta que anotou, 451 graus Fahrenheit, virou a capa.
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Nove dias, US$ 9,80 e nenhuma condição ideal. O cronômetro entregou o que a mesa perfeita nunca entregou.
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A conta final do rascunho é curta. Nove dias, US$ 9,80 em moedas, 98 moedas de dez centavos, 49 blocos de meia hora. Menos de 25 horas de digitação somadas, espalhadas por pouco mais de uma semana.
O que saiu de lá foram cerca de 25.000 palavras, a novela The Fireman. Divida uma coisa pela outra e o ritmo aparece: perto de 500 palavras por bloco de trinta minutos, algo como mil palavras por hora de máquina.
O preço por página é a parte desconfortável. Aquele rascunho saiu por menos de 40 centavos a cada mil palavras, num porão movimentado, sem cadeira boa e sem nenhuma das condições que costumam aparecer na lista do que falta.
Vale reparar no que ele não teve. Nenhuma bolsa, nenhum retiro de escrita, nenhum escritório. Teve uma sala pública, um saco de moedas e a decisão de não sair de lá sem página escrita.
Ele contou a história inteira no ensaio Investing Dimes: Fahrenheit 451, reunido em Zen in the Art of Writing, de 1990, e repetiu a mesma conta na entrevista à The Paris Review, de 2010.
Nada nessa cena tem a ver com inspiração. O dinheiro comprou uma coisa só, e era a mais escassa na mesa de qualquer escritor: um prazo que recomeçava a cada trinta minutos.
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