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O prêmio que lê seu romance sem saber quem você é
O Prêmio Sesc de Literatura recebe manuscrito inédito sob pseudônimo, sem taxa de inscrição, e publica o vencedor em romance e contos.
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O envelope lacrado com o nome real
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Todo autor inédito no Brasil descobre cedo que a porta da publicação cobra pedágio antes de avaliar qualquer coisa.
O pedágio raramente aparece como preço na tabela. Ele aparece como pergunta na primeira linha do formulário: quem indicou você, onde já publicou, quantos seguidores tem, qual foi a venda do livro anterior. Nenhuma dessas perguntas trata do texto, e todas antecedem o texto.
Quando o pedágio é dinheiro, a conta pelo menos é visível. Existe uma fatia enorme de concurso literário que cobra taxa de inscrição por manuscrito, existe leitura crítica paga, existe editora que aceita qualquer original desde que o autor banque a tiragem. O escritor com salário apertado sabe exatamente o que está sendo comprado ali, e o que está sendo comprado não é leitura atenta.
Quando o pedágio é reputação, a conta fica invisível e pior. O parecer chega em duas linhas educadas, sem nenhuma frase sobre a página, e o autor nunca descobre se o original foi recusado pelo enredo, pela prosa ou pela ausência de currículo anexado.
Daí nasce o vício central da carreira de quem começa: escrever para agradar ao portão em vez de escrever para o leitor. O manuscrito vira instrumento de negociação, a sinopse vira peça de venda, a biografia vira o item mais trabalhado do envio, e o capítulo três continua fraco porque ninguém está olhando para ele.
Existe uma exceção institucional dentro do Brasil que desmonta as duas cobranças de uma vez. É uma rota de estreia em que o autor não paga nada para entrar, e o júri não recebe uma única informação sobre quem escreveu antes de dar o parecer.
O manuscrito chega identificado por um nome falso escolhido pelo próprio autor. O nome verdadeiro fica guardado, lacrado, fora do alcance de quem lê. A comissão julgadora avalia romance ou contos como se cada original tivesse acabado de existir naquele instante, sem passado, sem indicação e sem plataforma acoplada.
O que essa regra faz com o texto interessa muito mais do que a lista de vencedores. Ela transforma a página inicial no único argumento disponível, e devolve ao autor a informação que o mercado normalmente esconde: quanto o trabalho vale sozinho.
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I A DOSE
O envelope lacrado com o nome verdadeiro dentro
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Um prêmio nacional lê o original sem saber quem o escreveu e não cobra nada por isso.
O Prêmio Sesc de Literatura foi criado em 2003 pelo Departamento Nacional do Sesc para receber manuscrito inédito de autor brasileiro, em duas categorias, romance e contos, sem cobrar taxa de inscrição. O edital sai por ano e o envio é aberto a qualquer maior de dezoito anos.
A regra que sustenta a arquitetura inteira do prêmio é simples e implacável. O original entra assinado por um pseudônimo escolhido pelo próprio autor. Os dados reais viajam separados, lacrados, e só são abertos depois que a decisão está tomada.
Quem lê não sabe se o manuscrito veio de uma professora aposentada do interior de Goiás, de um estudante de vinte anos ou de alguém com três livros publicados por editora grande. A ficha some, a orelha some, a foto some. Sobra a primeira frase.
A avaliação passa por etapas de leitura antes de chegar à comissão final, formada por escritores, críticos e professores convidados. Em nenhuma dessas etapas o leitor recebe currículo anexado, porque o currículo não existe dentro do pacote.
O prêmio não devolve o esforço em cheque simbólico. Ele devolve em publicação: o vencedor de cada categoria tem o livro editado e distribuído, com exemplares chegando à rede de bibliotecas e de unidades da instituição, num circuito de leitura que o estreante médio não alcança sozinho.
O desenho do processo importa mais que a premiação porque muda a natureza da aposta. Numa submissão comum, a editora está comprando um autor e um histórico de venda. Aqui, alguém está comprando um manuscrito, e só.
Existe também o efeito colateral positivo do custo zero. Taxa de inscrição funciona como filtro econômico disfarçado de filtro de seriedade: ela remove do funil o autor sem dinheiro sobrando, não o autor sem talento. Sem taxa, a peneira volta a ser textual.
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Num prêmio sem taxa e sem nome, a primeira página deixa de ser convite e passa a ser a defesa inteira.
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Vale enxergar a contrapartida com honestidade. Concurso é loteria de gosto: um júri diferente escolheria outro livro, e a maioria absoluta dos inscritos perde. O que nenhum inscrito perde é o diagnóstico.
Um manuscrito recusado num processo às cegas devolve uma informação que vale a inscrição inteira. O texto não foi barrado por falta de contatos, de audiência ou de sobrenome conhecido. Ele foi lido cru, por leitores profissionais, e não passou pela página que não passou.
Essa é a única forma de erro útil que existe na vida de um autor inédito, porque aponta para trabalho concreto na mesa em vez de apontar para injustiça difusa do mercado.
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II NA PÁGINA
O que a página escreve quando não pode se apoiar em ninguém
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Escrever para julgamento cego muda a hierarquia do manuscrito, e a mudança começa no primeiro parágrafo.
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Num envio comum, a carta de apresentação carrega parte do peso. Ela explica o projeto, situa o autor, cita a formação, menciona a oficina que ele frequentou, empresta contexto ao original e amortece a leitura das primeiras páginas.
No envio sob pseudônimo, essa muleta não entra na sala. A comissão abre o arquivo e encontra texto. Toda a explicação que o autor daria em voz alta precisa estar dentro da narrativa, porque não existe segunda chance de contextualizar nada.
O primeiro efeito prático aparece na abertura. Cena que demora dez páginas para engatar sobrevive quando o leitor tem motivo externo para insistir. Sem motivo externo, a décima página não é alcançada, e o manuscrito morre de tédio com o júri educadamente em silêncio.
O segundo efeito aparece na voz. Prosa que imita o autor consagrado do momento se destaca menos quando ninguém sabe quem escreveu, porque a comparação some junto com a identidade e sobra a comparação com todos os outros originais da pilha, todos anônimos, todos disputando o mesmo minuto de atenção.
O terceiro efeito aparece na estrutura. Sem biografia para justificar escolha estética, escolha estranha precisa se justificar sozinha dentro da história. O capítulo experimental sobrevive se funcionar; ele não sobrevive porque o autor tem passado que autorize experimento.
Dá para simular esse regime antes de qualquer inscrição, em uma tarde de trabalho:
| 1 | Apague nome, epígrafe, agradecimento e qualquer nota do arquivo. Deixe só o título e o texto, exatamente como o júri receberia. | | | | 2 | Leia as três primeiras páginas em voz alta e marque a linha exata em que a atenção afrouxa. Corte tudo que vem antes dessa linha. | | | | 3 | Entregue o mesmo arquivo a cinco leitores que não conhecem você e peça uma resposta única: continuaria lendo ou fecharia. | | | | 4 | Compare o resultado com o retorno do seu círculo. A distância entre os dois é o tamanho do apoio que você vinha recebendo por afeto. | | |
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“A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote, e adeus.”
> Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881
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A frase tem quase um século e meio e descreve o regime de leitura às cegas com precisão desconfortável. A obra responde por ela mesma, e o autor não está na sala para negociar o veredito com o leitor.
Existe a objeção previsível: prêmio é sorte, e trabalhar um manuscrito para concurso seria otimizar para banca em vez de otimizar para público. A objeção falha no ponto principal. Tudo que a leitura cega premia, abertura que engata, voz própria, estrutura que se sustenta sozinha, é exatamente o que a livraria também premia, com a diferença de que a livraria não devolve parecer nenhum.
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