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O parágrafo de que você mais se orgulha é o primeiro a sair

Numa aula em Cambridge, Arthur Quiller-Couch entregou uma regra prática de corte que mira o trecho preferido do autor, não o trecho fraco.

Púlpito de madeira numa sala de aula antiga em Cambridge, com um caderno de anotações aberto sobre a bancada.

O púlpito onde a regra de corte foi dita

 

Um púlpito de madeira, um caderno de anotações de aluno, um volume de capa azul impresso em 1916. Os três guardam a mesma frase de quatro palavras, dita numa sala de Cambridge para uma turma de rapazes que queriam escrever bem e ouviram uma instrução que soou como crueldade.

Quem revisa um texto pela primeira vez faz sempre o mesmo percurso. Procura o parágrafo emperrado, a frase que trava na leitura em voz alta, a transição que não fecha. Corta ali, respira, e considera a revisão concluída. O texto fica um pouco mais limpo e continua com o mesmo problema.

O problema mora noutro lugar. Todo autor tem, em qualquer texto de tamanho razoável, dois ou três trechos que ele relê com prazer secreto. A imagem que saiu redonda, a cadência que ele levou uma tarde inteira para acertar, a metáfora que ele guarda desde antes de começar o capítulo. Nenhum desses trechos entra na lista de suspeitos, porque o autor os classificou como o que há de melhor no material.

A regra dita naquela sala inverte a lista. Ela manda o autor olhar primeiro para o trecho que mais o agrada, e desconfiar exatamente dele. O critério é simples e desconfortável: prazer de autor e utilidade de leitor apontam para direções distintas com uma frequência alta demais para ser acaso.

Existe uma explicação técnica para essa inversão. O trecho preferido costuma ser aquele em que o escritor mais aparece: mais adjetivo, mais ritmo elaborado, mais consciência de estar escrevendo bem. Escrita que se exibe rouba a atenção da cena que deveria carregar. O leitor para de ver a história e passa a ver o autor trabalhando.

Quem escreve sozinho não tem editor para apontar esses pontos, mas tem acesso ao mesmo diagnóstico, desde que aceite usar o próprio orgulho como sinal de alerta. O trecho que você mostraria primeiro para alguém, se pudesse mostrar só um, tem grande chance de ser o que mais atrapalha.

A seção seguinte reconstrói a sala onde a instrução foi dita, com data, cargo do professor e o livro em que a aula acabou impressa.

Continue lendo ↓

 
 

I  A DOSE

Quatro palavras ditas numa sala de Cambridge

Uma aula de 1914 mandou o escritor cortar justamente o parágrafo de que ele mais gosta.

Em 28 de janeiro de 1914, o professor Arthur Quiller-Couch subiu ao púlpito de uma sala de Cambridge para dar a última de uma série de aulas sobre a arte de escrever. O tema do dia era estilo. A cadeira que ele ocupava, a King Edward VII Professorship of English Literature, tinha sido criada em 1910, e ele fora nomeado em 1912 para inaugurar o ensino de literatura inglesa moderna na universidade.

A plateia era de estudantes de graduação. A maioria escrevia ensaios acadêmicos e alguns escreviam ficção. Todos chegaram esperando um método positivo, uma lista de qualidades a perseguir, e receberam a lista pelo avesso.

Quiller-Couch já era romancista publicado quando assumiu a cadeira, com uma obra de ficção assinada apenas pela inicial Q, e conhecia por dentro o problema que descrevia. Ele havia passado anos escrevendo prosa comercial de jornal e sabia o que acontece quando um escritor se apaixona pela própria página.

A instrução prática que ele entregou aos alunos ocupou poucas linhas. Sempre que sentir o impulso de cometer um trecho de escrita excepcionalmente bela, obedeça ao impulso, escreva o trecho inteiro, com todo o empenho que ele merece, e apague antes de mandar o original para a gráfica.

Repare na estrutura da ordem. Ela não pede contenção na hora de escrever. Pede o oposto: escreva a passagem bonita, gaste a tarde nela, tire o impulso do corpo. O corte vem depois, na revisão, quando o trecho já cumpriu a única função útil que tinha, que era destravar quem escrevia.

A frase que fecha a instrução, “murder your darlings”, virou a regra de corte mais citada da língua inglesa, e quase sempre é citada sem a metade que manda escrever o trecho primeiro.

As doze aulas da série foram reunidas em livro e publicadas em 1916 pela Cambridge University Press, com o título On the Art of Writing. A aula sobre estilo é a última do volume, e é lá que a frase aparece, dentro de um parágrafo sobre o peso distinto de uma prosa que serve ao leitor e de uma prosa que serve ao autor.

A atribuição errada da frase circula há décadas. Ela costuma ser creditada a William Faulkner, a Stephen King, a Oscar Wilde e a mais meia dúzia de nomes. King de fato reformulou a ideia em On Writing, publicado em 2000, e citou a origem inglesa dela. A formulação de 1914 é de Quiller-Couch, está impressa no volume de 1916 e pode ser conferida por qualquer leitor no domínio público.

O que sobrevive de útil na aula não é a violência da imagem. É o critério de seleção que ela propõe: numa revisão, a ordem de suspeita começa pelo que o autor mais admira no próprio texto, e desce dali para o resto.

 
 

II  NA PÁGINA

Como reconhecer um queridinho no seu texto

Queridinho tem sintomas físicos, e todos aparecem antes de o autor conseguir explicar por que gosta daquele trecho.

O primeiro sintoma é a defesa antecipada. Você já imagina alguém pedindo o corte e já tem a resposta pronta na cabeça. Nenhum parágrafo funcional gera advogado de defesa antes de ser acusado.

O segundo sintoma é o tempo gasto. O trecho custou uma tarde inteira enquanto as duas páginas em volta saíram em quarenta minutos. O custo de produção grudou nele um valor que o leitor jamais vai perceber, porque o leitor não sabe quanto tempo cada linha levou.

O terceiro sintoma é o desvio de foco. Leia o parágrafo e pergunte o que a cena avançou. Se a resposta for uma qualidade de escrita, ritmo bonito, imagem inesperada, som agradável, sem nenhum avanço de informação, tensão ou personagem, o parágrafo está lá pela metade certa e pela razão errada.

O quarto sintoma é a origem anterior ao texto. Muita frase preferida nasceu num caderno, meses antes, e foi encaixada à força num capítulo que não pedia por ela. O encaixe forçado se percebe na costura: o parágrafo anterior e o seguinte funcionam juntos sem ele.

Dá para rodar o diagnóstico num capítulo hoje, sem reescrever nada:

1Releia o capítulo e marque com asterisco os três trechos de que você mais gosta. Marque pelo prazer de reler, não por importância na trama.
 
2Apague os três de uma cópia do arquivo e leia o capítulo inteiro em voz alta, do começo ao fim, sem restaurar nenhum deles.
 
3Anote se alguma informação, tensão ou virada sumiu com o corte. Nomeie a perda em uma frase por trecho, ou escreva que não houve perda.
 
4Restaure só os trechos cuja ausência produziu perda nomeável. Os outros ficam no arquivo de sobras, que serve de matéria-prima para o próximo projeto.
 

“Sempre que sentir o impulso de cometer um trecho de escrita excepcionalmente bela, obedeça a ele de coração inteiro, e apague antes de enviar o original para a gráfica.”

> Arthur Quiller-Couch, On the Art of Writing, 1916

A objeção previsível chega rápido: cortar tudo que é bonito produz prosa cinza e sem personalidade. Correto, e a regra não pede corte cego. Ela pede que o trecho bonito prove utilidade antes de ficar, com o mesmo rigor cobrado de qualquer outro parágrafo. Muitos passam no teste, e ficam mais fortes por terem passado.

O risco oposto também existe, e ele é raro em estreante e comum em autor experiente: o corte vira vaidade ao contrário, uma prosa seca de propósito que evita qualquer imagem por medo de parecer enfeitada. Texto que foge de beleza também chama atenção para o autor, pelo outro lado.

O arquivo de sobras merece uma linha à parte. Trecho cortado não desaparece: ele vai para um documento único, datado, que o autor consulta quando começa o projeto seguinte. Boa parte do material descartado por não caber num capítulo cabe perfeitamente noutro livro, e saber que a sobra tem destino torna o corte muito mais fácil de executar.

 

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III  O MERCADO

A ficha da regra que Cambridge imprimiu

Na origem: um professor recém-nomeado para uma cadeira criada quatro anos antes, com carreira anterior de romancista e jornalista, falando para estudantes de graduação.

Na sala: Cambridge, 28 de janeiro de 1914, a última aula de uma série de doze sobre a arte de escrever.

Na instrução dada: escrever a passagem bonita por inteiro, obedecendo ao impulso, e apagar antes de mandar o original para a gráfica.

No registro impresso: On the Art of Writing, Cambridge University Press, 1916, com a série de aulas reunida em volume.

Nas medidas da aula:

Criação da cadeira em Cambridge1910
Nomeação de Quiller-Couch1912
Aula sobre estilo28 de janeiro de 1914
Publicação do volume1916
Aulas reunidas no livro12
Reformulação por Stephen King em On Writing2000

No erro de atribuição: a frase aparece creditada a vários autores célebres em citações de internet, e a versão impressa mais antiga está no volume de 1916.

No que a regra não prova: que texto enxuto vende mais. Livro nenhum entrou em lista de vendas por causa da quantidade de parágrafos cortados.

No que ela prova: que o julgamento do autor sobre a própria página é sistematicamente pior nos trechos em que ele investiu mais prazer, e que existe um método barato de corrigir esse julgamento sem depender de editor contratado.

No que ficou de rotina para quem escreve: revisar começando pelos trechos preferidos, guardar as sobras num arquivo datado e exigir de cada parágrafo bonito uma função que o leitor consiga nomear.

O trecho que você mostraria primeiro é o que precisa se defender primeiro. Quem aplica essa ordem de suspeita na revisão faz sozinho o trabalho que uma editora cobraria caro para fazer, e faz mais cedo, quando ainda dá tempo de reescrever o capítulo inteiro.

“Qual parágrafo seu você defenderia com mais energia, e o que exatamente ele entrega ao leitor?”

Hoje: abra o capítulo em que está trabalhando, marque os três trechos preferidos, apague os três numa cópia e leia em voz alta, nas próximas 24 horas. Três marcas, uma leitura, uma cópia.

 
 

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A1914
B1916
C1920
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