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O corte de 90 mil palavras que virou estreia
Em 1929, Maxwell Perkins devolveu a Thomas Wolfe um original com 90 mil palavras a menos, e a Scribner publicou Look Homeward, Angel em outubro.
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O original de Thomas Wolfe na mesa da Scribner
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O arquivo fecha em 128 mil palavras e o romance está inteiro. Começo, meio, fim, nenhuma cena faltando. O problema aparece na segunda leitura, com o texto impresso na mesa e o lápis na mão.
O capítulo 3 tem quatorze páginas. Nelas o protagonista acorda, atravessa a cidade, almoça sozinho, lembra do pai e chega ao escritório. Você marca a margem com um traço e vira a página.
Na terceira passada, o traço continua lá e as quatorze páginas também. Marcar é barato. Apagar dói, porque cada página custou uma manhã que não volta.
O segundo rascunho não é o do acerto de vírgula. É o da subtração, e subtrair o próprio texto é a tarefa que quase todo estreante empurra para depois, até o livro ir para a gráfica com o capítulo 3 intacto.
Existe uma razão prática para a dificuldade. Quem escreveu a cena lembra do trabalho que ela deu, e o trabalho não aparece na página. O leitor só vê quatorze páginas em que nada muda de lugar.
A conta do leitor é outra. Ele não paga pela manhã que a cena custou, paga com atenção, e cada página parada cobra um pedaço da atenção que o capítulo seguinte ia precisar.
Corte não é castigo, é a escolha de qual versão do livro chega à estante. Toda página que fica carrega o peso das que saíram, e o leitor sente a diferença sem saber nomear.
O que falta na mesa quase sempre não é gosto, é régua. Sem critério escrito, o corte vira humor do dia: numa segunda-feira você tira três capítulos, na quinta devolve dois.
Régua serve para decidir antes de doer. Uma lista curta do que sai primeiro, uma lista mais curta ainda do que nunca sai, e um número de palavras por capítulo definido antes de você abrir o arquivo.
A régua mais famosa do ofício foi aplicada num escritório da Quinta Avenida, em 1929, por um editor que recebeu um original grande demais e devolveu um romance.
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I A DOSE
O lápis de Perkins no original de Wolfe
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Um original recusado por outras casas parou na mesa da Scribner. Veja o que saiu dele.
Maxwell Perkins recebeu um original de mais de 300 mil palavras e devolveu um livro com 90 mil palavras a menos. O autor tinha 28 anos, dava aula na Universidade de Nova York e nunca havia publicado nada.
O original se chamava O Lost e foi escrito quase todo na Europa, entre 1926 e 1928. Thomas Wolfe despejou ali a própria infância em Asheville, na Carolina do Norte, com a família disfarçada num sobrenome novo e a cidade rebatizada de Altamont.
Antes de chegar à Scribner, o calhamaço passou por outras casas e voltou recusado. Grande demais, disperso demais, caro demais de imprimir. A agente Madeleine Boyd insistiu e deixou o pacote na mesa de Perkins.
Perkins era o editor que já havia publicado Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway pela mesma casa. Leu o original inteiro e chamou o autor para uma conversa em janeiro de 1929, no escritório da Scribner, na Quinta Avenida.
O adiantamento foi de US$ 500. O número era pequeno mesmo para 1929: pagava alguns meses de aluguel, não pagava os dois anos de escrita que estavam empilhados naquelas páginas.
O trabalho começou ali e durou meses, tarde após tarde na mesma sala. Perkins não mexia em vírgula. Ele cortava cena inteira, episódio fechado, bloco que podia sair sem o resto desabar, porque era em blocos que Wolfe escrevia.
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Noventa mil palavras não são aparas de texto. É um romance inteiro saindo de dentro do outro para que o outro pudesse existir.
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O título também caiu. O Lost virou Look Homeward, Angel, verso tirado de Lycidas, poema que John Milton publicou em 1637. A editora trocou o nome do livro e o autor aceitou.
O romance saiu pela Scribner em 18 de outubro de 1929, seis dias antes de a bolsa de Nova York começar a desabar. Estreia elogiada pela crítica, vendas modestas no primeiro ano, e um livro que nunca saiu de catálogo desde então.
Wolfe descreveu a experiência em The Story of a Novel, de 1936, e a descrição não é grata o tempo inteiro. Ele reconhecia o serviço e sentia o preço de ter a estrutura decidida por outra pessoa.
A cobrança veio de fora também. Em 1936 o crítico Bernard DeVoto escreveu na Saturday Review que os romances de Wolfe saíam da linha de montagem da Scribner, e a frase colou. Um ano depois, o autor trocou de editora para provar que escrevia sozinho.
O detalhe que interessa a quem escreve hoje é outro. O corte não foi feito pelo autor, foi feito por alguém sem nenhuma manhã investida naquelas páginas, e pago pela editora justamente para ler assim.
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II NA PÁGINA
O que sai primeiro do segundo rascunho
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Perkins tirou perto de um quarto do original antes de o livro existir. A régua não estava no talento dele, estava na ordem: primeiro o que sai, depois o que fica, capítulo por capítulo, com o número de palavras à vista.
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Antes de cortar, meça. Anote numa coluna o número de palavras de cada capítulo e, ao lado, o que muda entre a primeira e a última linha dele. Capítulo sem mudança nenhuma já entra na fila.
Primeiro da fila, o aquecimento. As duas páginas em que o personagem acorda, se desloca e pensa antes de a cena começar. Corte até a primeira linha em que alguém quer alguma coisa, e abra o capítulo ali.
Segundo, a cena que repete função. Se duas cenas provam que o pai bebe, uma delas é enfeite. Fica a mais dura, sai a outra, e o livro ganha ritmo sem perder informação.
Terceiro, a explicação depois da cena. O parágrafo que traduz para o leitor o que a cena acabou de mostrar nasce do medo de não ter sido claro, e sempre custa mais do que entrega.
Quarto, o personagem de uma aparição só. Ou funde com outro que já existe, ou some. Cada nome novo cobra memória do leitor e precisa devolver alguma coisa em troca.
Quinto, a pesquisa. Tudo que você aprendeu sobre o ofício do avô, a rua em 1953 e o preço do pão. Fica no texto o que o personagem usa; o resto volta para o caderno.
A lista do que nunca sai é mais curta e vale decorar. Cena em que alguém escolhe e não pode voltar atrás. Cena em que a relação entre dois personagens muda de estado. Informação que só existe ali. Cena que o leitor conta para outra pessoa quando resume o livro.
Para a terceira, existe um teste rápido: tire o capítulo do arquivo e leia os dois seguintes. Se eles continuam de pé, o capítulo era enfeite caro. Se alguma coisa emperra, você achou a informação única, e ela fica.
O alvo numérico impede a negociação de última hora. Mire entre 20% e 25% do segundo rascunho e distribua a meta por capítulo antes de começar.
Corte para um arquivo, nunca para a lixeira. Um documento chamado sobras, com data e capítulo de origem, muda a natureza da decisão: você não apaga, muda de lugar. Em três meses ninguém volta lá.
Maxwell Perkins definiu o próprio ofício numa frase citada por A. Scott Berg em Max Perkins: Editor of Genius, de 1978: um editor não acrescenta nada a um livro, no máximo libera energia, e não cria nada.
Três erros aparecem sempre. O primeiro é cortar palavra no lugar de cena. Enxugar advérbio deixa o texto mais limpo e o livro do mesmo tamanho, com os mesmos capítulos parados.
O segundo é cortar durante o primeiro rascunho. Material que ainda não existe não pode ser julgado, e quem corta enquanto escreve costuma terminar sem livro para cortar.
O terceiro é poupar a cena difícil. Aquela que deu três semanas de trabalho entra na fila como qualquer outra, e o tempo que ela custou não é argumento que o leitor aceite.
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