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O corte de 10% de Stephen King no segundo rascunho

Um bilhete de rejeição deu a Stephen King uma conta simples de revisão: o segundo rascunho pesa 10% menos que o primeiro.

Bilhetes de rejeição espetados num prego sobre a escrivaninha.

Segundo rascunho: o primeiro menos 10%.

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Um prego na parede, uma pilha de bilhetes de rejeição, uma frase escrita à mão. Os três ficavam no quarto de um adolescente no Maine, nos anos 1960, e a frase acabou guiando a revisão de dezenas de romances.

O adolescente era Stephen King. Ele mandava contos para revistas desde os 13 anos e recebia de volta, quase sempre, o formulário impresso de recusa. Espetava cada um num prego acima da escrivaninha. Quando o prego não aguentou mais o peso, trocou por um espeto maior.

Um dos bilhetes fugiu do formulário. Em vez da recusa padrão, o editor de uma revista escreveu umas poucas linhas a caneta, comentando o conto. Disse que o texto não era ruim, mas estava inchado, e deixou uma fórmula de duas parcelas.

A fórmula dizia: segundo rascunho igual ao primeiro rascunho menos 10%. Nada de conselho sobre estilo, personagem ou enredo. Só uma subtração.

King conta a história em On Writing (Sobre a escrita), as memórias de ofício que publicou em 2000. Ele escreve que a frase mudou a forma como passou a reescrever, e que um texto de 4.000 palavras precisava voltar da revisão com 3.600, no máximo.

A conta parece pequena demais para mexer num livro. Dez por cento de um parágrafo de cinco linhas é meia linha. Ninguém nota a falta de meia linha.

Num romance de 100 mil palavras, a mesma conta tira 10 mil. Equivale a três ou quatro capítulos inteiros que o leitor nunca vai precisar atravessar.

O corte também não acontece no calor da escrita. King deixa o original de lado por semanas antes de mexer numa vírgula, para reler o texto como se fosse de outra pessoa.

A primeira faixa mostra o que acontece nessas semanas de gaveta e por que elas vêm antes da tesoura.

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I  A DOSE

Seis semanas de gaveta

Em On Writing, King recomenda guardar o primeiro rascunho terminado por no mínimo seis semanas antes de relê-lo. O manuscrito vai para uma gaveta, e o autor vai escrever outra obra, cuidar da casa ou ler.

O motivo é o olhar. Logo depois de terminar, o autor ainda lembra o que quis dizer em cada frase, e a memória preenche os buracos da página. Ele lê a intenção, não o texto.

Seis semanas apagam parte dessa memória. Quando King tira o original da gaveta, encontra frases que não reconhece de imediato, cenas que se arrastam e explicações repetidas três vezes. O texto parece de um estranho, e um estranho se corta com menos pena.

Porta fechada, porta aberta

King separa as duas etapas por uma imagem de escritório. O primeiro rascunho se escreve com a porta fechada: só o autor e a história, sem plateia, sem opinião de ninguém.

O segundo rascunho se escreve com a porta aberta. O autor passa a pensar no leitor, e o manuscrito sai da gaveta pronto para ser julgado. É nessa fase que entra a subtração.

A releitura, segundo o livro, deve acontecer de uma sentada só, se possível, como um leitor faria. King lê com um lápis na mão e anota apenas o essencial: erros, furos de lógica, personagens sem motivo.

A gaveta transforma o autor em leitor; só o leitor sabe o que sobra.

O leitor ideal

Depois da releitura solitária, King entrega o texto a uma pessoa só, que ele chama de leitor ideal (o leitor imaginado para quem o livro foi escrito). No caso dele, a primeira a ler é a esposa, a romancista Tabitha King.

O leitor ideal responde perguntas práticas. Onde ficou chato? Onde não entendeu? Qual personagem parece falso? A resposta indica onde cortar primeiro, porque o tédio de quem lê aponta o trecho que não carrega a história.

A ordem importa. Primeiro a gaveta, depois a releitura, depois o leitor ideal, e só então a tesoura. Cortar antes da distância é cortar com o olho de quem escreveu, que ainda acha tudo necessário.

A espera também protege o texto do humor do autor. Na semana em que termina, ele oscila entre achar o livro genial e achar o livro um desastre. Seis semanas depois, os dois exageros esfriam e sobra a página como ela está.

 
 

II  NA PÁGINA

A subtração na frase

O alvo do corte de 10% são as palavras que não mexem com a história. King é explícito em On Writing: o que sai primeiro é o enchimento, aquilo que o autor pôs para soar escritor.

O primeiro alvo são os advérbios. King dedica páginas ao assunto e resume a posição numa frase que ficou famosa:

“The road to hell is paved with adverbs” (a estrada para o inferno é pavimentada de advérbios).

Stephen King, On Writing, 2000

O exemplo clássico do livro está nos verbos de fala. Escrever que alguém “disse furiosamente” mostra que o diálogo, sozinho, não deixou clara a fúria. King prefere o “disse” seco e uma fala que já carregue a raiva.

O segundo alvo é a voz passiva (a frase em que o sujeito sofre a ação, como “a porta foi aberta por ela”). King chama a passiva de tímida. “Ela abriu a porta” diz o mesmo com menos palavras e mostra quem agiu.

Os queridinhos do autor

O terceiro alvo dói mais. King repete no livro um conselho antigo do ofício, matar os queridinhos (cortar o trecho de que o autor mais gosta quando ele não serve à história). A frase bonita que para a ação sai, por mais trabalho que tenha dado.

A tesoura de King não poupa descrição. Ele defende descrever pouco, o suficiente para o leitor montar a cena com a própria imaginação. Três detalhes certos valem mais que um parágrafo de inventário do quarto.

A ideia tem raízes antigas. William Strunk Jr., professor da Universidade Cornell, já escrevia em The Elements of Style (Os elementos do estilo), de 1918, a ordem “omita palavras desnecessárias”. King cita o manual em On Writing como leitura obrigatória.

Cada palavra cortada devolve ao leitor um segundo de atenção para a próxima.

Como contar os 10%

A fórmula só funciona porque tem número. Um conselho vago, como “enxugue o texto”, não diz quando parar. A subtração diz: se o capítulo tem 5.000 palavras, a revisão termina com 4.500.

O contador de palavras do editor de texto basta. Anote o total do capítulo antes de começar, calcule o alvo e corte até chegar nele. Se o alvo vier fácil, o texto estava mais inchado do que parecia, e vale procurar mais.

O número também impede o corte de virar reescrita sem fim. Quem revisa sem alvo troca palavra por palavra e termina com o mesmo tamanho. Quem revisa com alvo precisa tirar frases inteiras, e frase inteira só sai quando não faz falta à cena.

 

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III  O MERCADO

O que o corte vale na livraria

O corte de 10% chega ao bolso de quem publica, porque cada página impressa custa papel, tinta e frete. Um manuscrito mais curto sai mais barato para a editora e chega à prateleira com preço menor.

King sentiu o peso do tamanho na própria carreira. Em 1978, a editora Doubleday publicou A Dança da Morte (The Stand) com um corte de cerca de 400 páginas, exigido para manter o preço de capa acessível. A decisão foi da editora, não da revisão do autor.

Em 1990, a Doubleday lançou a versão integral, com as páginas restauradas. No prefácio dessa edição, King explica a diferença: o corte de 1978 foi feito por custo de produção, e o de um segundo rascunho se faz pela história.

A editora corta pelo preço; o autor corta antes, pela história, e escolhe o que fica.

A lição para o estreante é de calendário. Quem revisa antes de mandar o original escolhe o que perde. Quem manda inchado deixa a escolha para um editor, um agente ou um avaliador que lê dezenas de manuscritos por semana e para na primeira página arrastada.

A primeira página na pilha

Avaliadores de editora leem o começo para decidir se seguem. Um primeiro capítulo enxuto chega mais rápido ao conflito, e o conflito é o que segura essa leitura de triagem.

O mesmo vale para quem publica sozinho nas lojas digitais. A amostra grátis mostra as primeiras páginas, e a decisão de compra acontece ali. Um começo com 10% a menos de enchimento entrega a história mais cedo.

O corte não tem relação com escrever livro curto. King publica romances de mil páginas e aplica a mesma conta a eles. A subtração mede o enchimento de cada rascunho, não o tamanho ideal de uma história.

Para aplicar a conta de King ao seu manuscrito, siga cinco passos:

1. Termine o primeiro rascunho inteiro e anote o total de palavras.

2. Guarde o arquivo por seis semanas e escreva ou leia outra obra nesse tempo.

3. Releia de uma sentada, com lápis, marcando onde ficou chato.

4. Calcule 90% do total por capítulo e corte até bater o alvo, começando por advérbios, passiva e descrição.

5. Entregue a versão cortada a 1 leitor ideal e pergunte onde ele se perdeu.

O bilhete espetado no prego não trazia regra de estilo, só uma conta. Qual trecho do seu manuscrito você protege hoje só porque deu trabalho escrever?

Hoje: escolha 1 capítulo do seu texto, anote o total de palavras e corte 10% até as 22h.

★ RARO

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