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O baú com 27 mil papéis de Fernando Pessoa
Em vida, Pessoa publicou um só livro de poemas em português. O resto da obra ficou num baú em Lisboa.
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Papéis à espera de um editor
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Um baú de madeira, um molho de envelopes, folhas de papel timbrado de escritório. Os três guardavam a obra de um poeta que Lisboa conhecia como tradutor de cartas comerciais.
O baú ficava no quarto de Fernando Pessoa, num apartamento da Rua Coelho da Rocha, em Lisboa. Quando ele foi enterrado, em dezembro de 1935, a família abriu a tampa e encontrou papel até a borda.
Havia poemas escritos a lápis no verso de faturas. Havia listas de livros que ele planejava publicar, com títulos, sumários e datas que nunca se cumpriram. Havia textos assinados por nomes que não eram o dele.
Havia também cadernos escolares, folhas arrancadas de agenda e guardanapos de café com versos riscados e reescritos por cima. Pessoa escrevia onde estivesse e jogava tudo no mesmo baú, sem pasta, sem índice e sem etiqueta.
A Biblioteca Nacional de Portugal comprou o conjunto em 1979, e o inventário da própria biblioteca soma mais de 27 mil documentos. Muitos sem data, muitos sem título, alguns com uma frase só.
Em vida, Pessoa publicou poemas em revistas, folhetos em inglês e um único livro de poemas em português: Mensagem, lançado em 1934, um ano antes de ele partir. Tinha 44 poemas sobre a história de Portugal.
O resto da obra que hoje enche estantes, com Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e o Livro do Desassossego, saiu daquele baú depois. Editores passaram décadas abrindo envelopes, decifrando a letra miúda e discutindo em que ordem os papéis deviam ir para a página.
Para quem escreve à noite e guarda os textos numa pasta que ninguém lê, a cena tem duas faces. Uma obra pode existir inteira sem ter saído da gaveta. E uma obra que fica na gaveta depende de estranhos para chegar ao leitor.
A seção I conta quem era o homem do baú, por que ele publicou tão pouco e quem colocou os papéis em ordem.
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I A DOSE
O tradutor que assinava por quatro
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Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888 e passou a infância em Durban, na África do Sul, onde estudou em escola inglesa. Voltou sozinho para Lisboa aos 17 anos e não saiu mais de Portugal.
Ganhava a vida redigindo e traduzindo cartas comerciais em inglês e francês para firmas da Baixa lisboeta. Trabalhava por conta própria, sem horário fixo, e escrevia nos intervalos, muitas vezes no papel da firma que estava atendendo.
O traço mais conhecido da obra dele são os heterônimos (autores fictícios, cada um com biografia, estilo e visão de mundo próprios). Pessoa não usava pseudônimos para esconder o nome; inventava poetas inteiros e escrevia como eles.
Alberto Caeiro era o mestre, um poeta do campo que desconfiava de qualquer filosofia. Ricardo Reis era médico e escrevia odes no molde dos poetas latinos. Álvaro de Campos era engenheiro naval e escrevia versos longos e barulhentos, como Tabacaria, de 1928.
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Pessoa escrevia por quatro, e quase nada saía da mesa do quarto.
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O baú explica parte da timidez editorial. Pessoa planejava livros o tempo todo, mas raramente os terminava. Nas listas que deixou, um mesmo projeto aparece com três ou quatro títulos diferentes ao longo dos anos.
Mensagem só saiu porque havia um prazo. Em 1934, o Secretariado de Propaganda Nacional abriu um prêmio literário, e Pessoa juntou os poemas patrióticos que vinha escrevendo havia duas décadas para concorrer. O livro levou o prêmio da segunda categoria.
No ano seguinte, em 29 de novembro de 1935, ele foi internado no Hospital de São Luís dos Franceses com uma crise no fígado. Escreveu a lápis a última frase conhecida, em inglês: "I know not what tomorrow will bring" (não sei o que o amanhã trará). Partiu no dia 30, aos 47 anos.
Os primeiros a mexer no baú foram dois amigos da revista Presença, João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor. Em 1942, pela editora Ática, eles lançaram o primeiro volume das obras de Pessoa, com os poemas assinados por ele mesmo.
O Livro do Desassossego, o diário em prosa atribuído ao ajudante de guarda-livros Bernardo Soares, demorou mais. Os fragmentos estavam espalhados em envelopes marcados "L. do D." e em folhas soltas. A primeira edição só saiu em 1982, organizada por Jacinto do Prado Coelho com Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha.
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II NA PÁGINA
A obra que espera na gaveta
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Escrever muito e publicar pouco tem um custo que o autor não paga em vida: alguém vai decidir a ordem por ele. Pessoa deixou a obra inteira e quase nenhuma instrução sobre ela.
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O Livro do Desassossego prova o problema. Cada editor que o organizou montou um livro diferente: a edição de 1982 seguiu uma ordem por temas, Richard Zenith publicou outra sequência em 1998 pela Assírio & Alvim, e Jerónimo Pizarro propôs uma ordem por datas em 2010.
Nenhuma delas é falsa. Pessoa simplesmente não deixou a sequência escrita, e o leitor de hoje escolhe, na livraria, qual montagem do mesmo livro vai ler. O mesmo fragmento pode abrir uma edição e aparecer na página 300 de outra.
Para o autor iniciante, o baú de Pessoa tem um lado bom. Ele escrevia todo dia, em qualquer papel, sem esperar o livro perfeito. A quantidade de texto pronto mostra que o hábito de escrever pouco e sempre rende obra.
O lado ruim é o arquivo. Papel sem data, sem título e sem destino exige de quem vem depois um trabalho de detetive. Pizarro e a equipe dele levaram anos só para separar os fragmentos que pertenciam ao Livro do Desassossego daqueles que eram de outros projetos. O autor vivo pode poupar o leitor futuro com quinze minutos de organização por semana.
Pessoa chegou a fazer esse trabalho em parte. Deixou listas de projetos, planos de volumes e notas sobre qual heterônimo assinava cada texto. Foram essas listas, guardadas no próprio baú, que guiaram os editores quando a letra não bastava.
Uma rotina de arquivo para quem escreve na gaveta:
| 1 | Escreva a data no alto de cada texto novo, inclusive no rascunho de duas linhas. | | | | 2 | Dê a cada texto um título provisório, mesmo que seja só uma palavra. | | | | 3 | Guarde tudo numa pasta única, física ou digital, separada por projeto. | | | | 4 | Mantenha um índice de uma página com o nome de cada projeto e os textos que pertencem a ele. | | | | 5 | Uma vez por mês, escolha um texto da pasta e mande para um leitor, uma revista ou um concurso. | | |
O quinto passo é o que Pessoa quase nunca fazia. Mensagem existiu como livro porque um concurso deu data de entrega. Um prazo de fora, mesmo pequeno, tira o texto da gaveta e obriga o autor a decidir a ordem enquanto ainda pode decidir.
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