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No Kindle Unlimited, o autor recebe por página lida desde 2015

Em julho de 2015, a Amazon trocou o empréstimo pela página, e o capítulo onde o leitor desiste passou a valer dinheiro.

Tela de leitor digital com a barra de progresso parada no meio do livro.

A página lida virou a unidade de pagamento.

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Um polegar parado, uma barra de progresso em 34%, um livro devolvido à biblioteca digital. Os três contam a mesma cena: um assinante do Kindle Unlimited desistiu no meio do capítulo 7 e nunca mais voltou ao romance.

O Kindle Unlimited é o serviço de assinatura da Amazon para livros digitais. O leitor paga uma mensalidade fixa e lê quantos títulos quiser do catálogo, sem comprar nenhum. Para o autor independente, o programa virou uma das maiores fontes de renda do mercado digital.

Até junho de 2015, aquele leitor do capítulo 7 valia ao autor o mesmo que um leitor que chegou à última linha. A Amazon pagava por empréstimo: bastava o assinante abrir o título e avançar um trecho do começo para o autor receber a parcela cheia.

Em julho de 2015, a regra mudou. A Amazon passou a pagar por página lida, contada pelo próprio aparelho, cada página uma vez só por leitor. Um romance de 300 páginas lido até o fim rende 300 páginas. O mesmo romance largado no capítulo 7 rende só as páginas até ali.

A troca parece um detalhe de contabilidade. Para quem escreve, ela pôs preço na desistência. Cada capítulo que perde o leitor passou a ter um valor em dinheiro, que o autor deixa de receber e consegue acompanhar no painel de vendas, dia a dia.

A mudança também mexeu com o formato dos livros. Contos curtos, que antes rendiam tanto quanto um romance inteiro, perderam força da noite para o dia. Romances longos, séries e livros de capítulos curtos ganharam espaço no catálogo. O autor passou a escrever pensando no leitor que continua, página depois de página, até o fim.

A primeira seção explica como a Amazon conta uma página, e por que a página do Kindle não é a página do livro impresso que você tem na estante.

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I  A DOSE

A página contada pela Amazon

O Kindle Unlimited, serviço de assinatura de livros digitais da Amazon lançado nos Estados Unidos em julho de 2014, trocou a forma de pagar os autores um ano depois, em julho de 2015. O pagamento por empréstimo saiu, e entrou o pagamento por página lida.

O dinheiro sai de um fundo. Todo mês, a Amazon anuncia o tamanho do KDP Select Global Fund (o fundo global do programa de exclusividade para autores independentes) e divide o valor pelo total de páginas lidas no período. O resultado é o preço da página daquele mês.

Para entrar no fundo, o autor inscreve o livro no KDP Select (o programa de exclusividade da plataforma de autopublicação da Amazon). A condição: a versão digital do título fica à venda só na Amazon enquanto durar a inscrição, em ciclos de 90 dias.

Uma página sem tamanho fixo

A página paga não é a página do livro impresso. Cada aparelho mostra o texto de um jeito: letra grande no celular, letra pequena no tablet, espaço diferente entre linhas. Contar a tela virada daria valores diferentes para o mesmo livro.

A Amazon criou então uma unidade própria, a KENP (sigla em inglês para página normalizada da edição Kindle). O sistema calcula quantas KENP o livro tem com fonte, margem e espaçamento padronizados. O número aparece no painel do autor, e a contagem paga segue essa medida.

A partir de julho de 2015, o leitor que fecha o livro leva junto o pagamento das páginas que não leu.

Uma vez por leitor

Cada página conta uma vez só por assinante. Se o leitor relê o capítulo favorito, o autor não recebe de novo. Se ele pula para o fim e volta, a Amazon registra só as páginas exibidas pela primeira vez.

O desenho tinha um alvo declarado. No modelo por empréstimo, um conto de 15 páginas rendia o mesmo valor de um romance de 400. Autores de textos longos reclamavam, e a Amazon anunciou o novo sistema como uma forma de pagar de acordo com o quanto o cliente lê.

O efeito sobre o conto curto foi imediato. Quem publicava textos de poucas páginas viu o ganho por leitor cair, porque passou a receber por 15 páginas em vez de uma parcela cheia. Quem escrevia romance longo, lido até o fim, ganhou.

A mudança valeu para todos os países onde o programa funcionava na época. No Brasil, o Kindle Unlimited chegou em 2016 e já nasceu com a regra da página lida, sem passar pelo modelo antigo de empréstimo.

 
 

II  NA PÁGINA

O capítulo onde o leitor larga

No Kindle Unlimited, o capítulo em que o leitor desiste marca o ponto onde o pagamento do autor para. Tudo antes dele rende; tudo depois dele fica sem leitura e sem dinheiro.

O autor não vê o rosto de cada leitor, mas vê o somatório. O painel do KDP mostra as páginas lidas por dia, por título. Quando o livro sobe no ranking e as páginas lidas não acompanham, o recado é direto: os assinantes começam e não seguem.

O meio do livro

O ponto fraco costuma aparecer depois da abertura. O primeiro capítulo recebe a atenção do autor, das revisões e dos amigos que leram o rascunho. O capítulo 6, o 9, o 14 passam por menos olhos, e é neles que a trama costuma andar devagar.

Mickey Spillane, autor norte-americano de Eu, o Júri (1947), resumia a lógica do ofício numa frase repetida em entrevistas: “O primeiro capítulo vende o livro. O último capítulo vende o próximo livro.” No modelo por página lida, o capítulo do meio entrou na conta: ele decide se o leitor chega ao último.

Cada capítulo virou uma porta: ou o leitor passa, ou o pagamento fica nela.

O gancho no fim do capítulo

Autores do programa passaram a tratar o fim de cada capítulo como a última cena de um episódio de série. O capítulo termina com uma decisão pendente, uma informação nova ou um perigo à vista, e o leitor vira a página para resolver.

O capítulo curto ganhou a mesma lógica. Um capítulo de 8 páginas termina depressa e dá ao leitor a sensação de avanço. Ele lê mais um antes de dormir, e cada um desses capítulos extras soma páginas pagas.

A série também cresceu. O leitor que termina o primeiro volume encontra o segundo no mesmo catálogo, sem custo extra na assinatura. Para o autor, um leitor fiel numa série de seis livros rende seis livros inteiros de páginas.

O sistema tem um limite. A página paga mede leitura, não satisfação. Um capítulo apressado que prende o leitor rende tanto quanto um capítulo bem escrito, e parte dos autores critica a regra por premiar o suspense fácil.

 

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III  O MERCADO

O fundo mensal e os livros inchados

O KDP Select Global Fund, o caixa mensal do Kindle Unlimited, divide o dinheiro entre todos os autores inscritos, e o valor da página muda a cada mês. O autor só sabe quanto recebeu por página depois do fechamento do período.

O preço oscila por dois motivos. Se a Amazon aumenta o fundo e o volume de leitura fica igual, a página sobe. Se mais livros entram no programa e os assinantes leem mais páginas, o mesmo fundo se divide em mais partes e a página cai.

A Amazon publica o tamanho do fundo em comunicados aos autores. Ela também paga prêmios separados, os KDP Select All-Star Bonuses (bônus para os autores e títulos mais lidos do programa), fora da conta por página.

Os livros inchados

A regra por página abriu uma brecha. Alguns autores passaram a colocar no fim do livro conteúdo extra: outros livros inteiros, traduções, capítulos repetidos. A prática ganhou o nome de book stuffing (em português, enchimento de livro).

O truque dependia de um link no começo do livro, que levava o leitor direto para a última página. Quando o leitor saltava, o sistema registrava a página mais distante alcançada, e o autor recebia como se o livro inteiro tivesse sido lido.

Quando a página virou dinheiro, houve quem enchesse o livro de página.

A Amazon reagiu em etapas. Restringiu o conteúdo bônus no fim dos livros, proibiu o link de salto para o final e passou a remover do programa as contas pegas na prática. O autor honesto ficou com a regra original: só a leitura conta.

A regra também alcança quem não está no programa. O autor fora do KDP Select vende o livro em várias lojas, mas abre mão das páginas lidas pelos assinantes. A escolha entre as duas estradas depende de onde o leitor do gênero está: romance policial e romântico concentram leitura no Kindle Unlimited, e o autor desses gêneros sente mais a falta do programa.

Três passos para achar o capítulo da desistência

O painel do KDP não diz em qual capítulo cada leitor parou. Leitores de teste dizem, com três passos:

1. Peça a cinco leitores de teste para marcar a página exata onde a vontade de parar apareceu.

2. Junte as marcas num só exemplar e veja em qual capítulo elas se concentram.

3. Reescreva o fim do capítulo anterior a esse ponto, terminando a cena numa decisão pendente.

Hoje: abra o capítulo do meio do seu manuscrito, leia a última página em 10 minutos e reescreva a frase final para terminar numa decisão pendente.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que mês e ano a Amazon trocou o pagamento por empréstimo pelo pagamento por página lida no Kindle Unlimited?

AJulho de 2014
BJulho de 2015
CJaneiro de 2016
DJulho de 2016

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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