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No ACX, o narrador grava sem cachê e leva metade por 7 anos

Desde 2011, o autor sem caixa para pagar o estúdio troca o cachê da gravação por metade da receita do audiolivro.

Microfone de estúdio diante de um manuscrito aberto numa cabine de gravação.

A gravação paga em metade da receita.

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Um microfone, uma cabine forrada de espuma, um manuscrito de 80 mil palavras. Os três entram no mesmo contrato sem o autor pagar um centavo pela gravação.

O contrato se chama royalty share (divisão de royalties, a parcela da venda paga a quem tem os direitos do livro). Ele existe dentro do ACX, a plataforma da Audible, empresa de audiolivros da Amazon, criada em 2011 para juntar autores e narradores num só lugar.

A conta de quem quer um audiolivro costuma travar no orçamento. Um romance de 80 mil palavras rende perto de nove horas de áudio pronto, pela conta do próprio ACX, que estima cerca de 9.300 palavras por hora finalizada. Narrador profissional cobra por hora finalizada, e a hora finalizada leva várias horas de gravação, edição e revisão.

Para o autor independente, a fatura chega antes da primeira venda. Muitos param ali: o livro existe em papel e em ebook, e o áudio fica para quando sobrar dinheiro.

O royalty share troca a fatura por uma sociedade. O narrador grava, edita e entrega o livro sem cobrar nada adiantado. Em troca, recebe metade dos royalties do audiolivro por sete anos, pagos todo mês pelo próprio ACX, direto na conta dele.

O autor sai do negócio sem gastar e com um produto novo à venda. O narrador sai com um risco: se o livro não vender, ele trabalhou semanas por quase nada. Se vender bem, recebe por anos sobre um trabalho feito uma vez só.

A escolha entre pagar e dividir mexe com o dinheiro dos dois por quase uma década. Ela também decide quem aceita gravar o livro, e onde ele pode ser vendido.

A primeira seção mostra como o ACX divide a receita, quanto cada parte leva de cada venda e o que o autor assina para entrar no acordo.

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I  A DOSE

A metade de cada venda

O ACX (Audiobook Creation Exchange, a bolsa de criação de audiolivros da Audible) abriu em maio de 2011 com duas formas de pagar a gravação: cachê adiantado ou divisão da receita. A segunda é o royalty share, e ela só funciona com uma condição de distribuição.

O autor que escolhe dividir precisa aceitar a distribuição exclusiva. O audiolivro fica à venda só nos canais que o ACX alimenta: a Audible, a loja da Amazon e a Apple Books. Nenhuma outra loja de áudio recebe o título enquanto o acordo vale.

Pela tabela do ACX, a distribuição exclusiva paga ao titular dos direitos 40% do preço de venda. Com o royalty share, esses 40% se partem ao meio: 20% vão para o autor e 20% para o narrador, sobre cada exemplar vendido.

O prazo de sete anos

O acordo tem prazo fixo de sete anos, contado a partir da publicação do audiolivro. Nesse período, nenhum dos dois pode levar o título para outra plataforma nem cortar a parte do outro.

O ACX faz a partilha sozinho. A plataforma calcula as vendas do mês e deposita cada metade na conta de cada parceiro, sem o autor precisar repassar nada ao narrador. Os dois acompanham os mesmos números no painel.

Ao fim dos sete anos, a exclusividade vence. O autor pode tirar o título da distribuição exclusiva ou manter o livro onde está, e o contrato do ACX define se a divisão segue enquanto o título continuar publicado pela plataforma.

Quem divide a receita ganha um sócio, e um sócio fica sete anos no negócio.

O preço que o autor não escolhe

Há uma perda de controle pouco comentada. No ACX, o autor não define o preço do audiolivro: a Audible fixa o valor pela duração da gravação. Quanto mais horas o livro tem, mais caro ele sai na loja.

Para o narrador, a regra tem lado bom. Um romance longo rende mais por exemplar vendido, e a parte dele sobe junto. Para o autor, o lucro da venda depende de uma decisão tomada por outra pessoa e de um preço fixado pela loja.

Stephen King escreveu em Sobre a Escrita (2000) que lia em áudio nas viagens de carro: “Os livros são uma magia singularmente portátil.” O ACX pôs preço nessa magia portátil e dividiu a conta entre quem escreve e quem fala.

 
 

II  NA PÁGINA

O narrador como sócio

No royalty share, o narrador escolhe o livro como um investidor escolhe uma empresa: ele aposta horas de trabalho num título que pode vender ou ficar parado. Daí vem o primeiro trabalho do autor: convencer alguém a gravar sem cachê.

Tudo começa no perfil do título. O autor publica uma página com sinopse, gênero, tamanho do texto e um trecho de dois a cinco minutos para teste. Os narradores leem o trecho, gravam a própria versão e mandam a audição.

A audição e os 15 minutos

O autor escuta as audições e escolhe uma voz. Aí entra o primeiro marco do contrato: o narrador grava os primeiros 15 minutos do livro e envia para aprovação antes de seguir.

Nesse marco, o autor confere ritmo, pronúncia de nomes e o tom dos personagens. Se algo não funciona, pede ajuste ali, com 15 minutos gravados, sem esperar as nove horas prontas. Aprovado o trecho, o narrador grava o resto.

Narradores experientes recusam a maior parte das ofertas de royalty share. O motivo é a matemática da aposta: um livro sem leitores no ebook dificilmente vende em áudio, e o narrador trabalha semanas sem saber se recebe.

O narrador lê a página de vendas do autor antes de ler o manuscrito.

O que convence o narrador

O autor que consegue um bom narrador sem cachê costuma mostrar três sinais. O livro já vende em ebook e tem avaliações na Amazon. O título faz parte de uma série, e quem ouve o primeiro volume tende a comprar os seguintes. E o autor tem lista de leitores para anunciar o lançamento.

O narrador também olha a capa, a sinopse e as primeiras páginas do ebook na loja. Uma capa amadora ou uma sinopse confusa avisam que o livro vai ter dificuldade para vender, e a aposta perde valor antes da audição.

Existe um meio-termo, o Royalty Share Plus. Nele, o autor paga ao narrador um valor menor por hora finalizada e ainda divide a receita. O cachê reduzido cobre parte do risco e atrai vozes que recusariam a divisão pura.

Na gravação, o texto escrito para o olho mostra os defeitos ao ouvido. Frase longa demais tira o fôlego do narrador, diálogo sem marcação deixa o ouvinte perdido sobre quem fala, e nome parecido com outro vira confusão sem a página impressa para conferir.

 

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III  O MERCADO

A conta do audiolivro

O royalty share é um empréstimo pago em receita: o narrador adianta o trabalho, e o autor devolve metade das vendas por sete anos. Se o livro vende muito, o empréstimo sai caro para o autor. Se vende pouco, sai caro para o narrador.

O cachê adiantado inverte o risco. O autor paga a gravação inteira antes do lançamento e fica com os 40% da distribuição exclusiva, ou com os 25% da não exclusiva, sem dividir com ninguém. O narrador recebe na entrega e não depende das vendas.

A não exclusiva tem outra vantagem: o autor pode vender o mesmo áudio em outras lojas e bibliotecas digitais. Quem escolhe o royalty share abre mão dessa porta pelos sete anos do contrato.

O ponto de equilíbrio

A decisão sai de uma conta simples. O autor compara o cachê que pagaria pela gravação com o total que entregaria ao narrador em sete anos de vendas. Se a metade dos royalties passar do valor do cachê, dividir saiu mais caro.

A conta depende de uma previsão, e a previsão depende do histórico do livro. Um título que já vende todo mês em ebook dá base para estimar o áudio. Um livro de estreia não dá base nenhuma, e para ele a divisão costuma fazer sentido.

Pagar a gravação é apostar no livro; dividir a receita é dividir a aposta.

O mercado fora do ACX

O ACX aceita titulares de direitos com endereço e conta bancária em poucos países, entre eles Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Irlanda. O autor brasileiro que publica em português segue outros caminhos para o áudio, como distribuidoras de audiolivros e plataformas de produção com voz sintética.

Nessas plataformas, o contrato costuma seguir a regra do cachê ou de uma porcentagem fixa da distribuidora, sem a figura do narrador sócio. O autor que quer um narrador humano e não tem caixa pode propor a divisão por conta própria, num contrato escrito com prazo, porcentagem e lojas definidos.

A lógica do royalty share vale fora da plataforma. Em qualquer acordo com narrador, ilustrador ou tradutor, a pergunta é a mesma: pagar agora e ficar com tudo, ou dividir depois e não gastar hoje.

Três passos para decidir entre pagar e dividir

1. Some quantos exemplares do ebook o livro vendeu nos últimos 12 meses.

2. Multiplique esse número pela sua parte por exemplar de áudio, metade dos royalties, e depois por sete anos.

3. Compare o resultado com o cachê pedido por um narrador: se a metade somada passar do cachê, pagar adiantado sai mais barato.

Hoje: abra o painel de vendas do seu ebook, anote as vendas dos últimos 12 meses e faça a conta do passo 2 em 15 minutos.

 
 
Quiz da edição

No modelo royalty share do ACX, qual fatia do preço de venda cada parceiro (autor e narrador) recebe por exemplar de audiolivro vendido?

A25% para cada um
B10% para cada um
C20% para cada um
D40% para cada um

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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◆◆◆◆◆◆31

Dia 7 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

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