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Nabokov escreveu Lolita fora de ordem
Cada cena nasceu numa ficha pautada de bolso, escrita na ordem que a cabeça pedia, e a sequência do leitor só foi decidida no fim.
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Fichas espalhadas até a ordem aparecer
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O capítulo um é a cena mais difícil do livro inteiro. Ele apresenta gente, monta o mundo, define o tom e ainda promete o que vem pela frente, tudo na mesma página. E é justamente a cena que quase todo mundo exige de si mesmo na primeira sessão de escrita.
O resultado sai sempre igual. O arquivo abre, a primeira frase é escrita e apagada quatro vezes, e a sessão termina com um parágrafo que ninguém quer reler no dia seguinte.
Enquanto o capítulo um trava, existe uma cena que você já enxerga inteira. A discussão na cozinha, a chegada da carta, o último diálogo antes da porta fechar. Você sabe quem entra, o que a pessoa quer e como termina.
Essa cena não pode ser escrita hoje por um motivo só: ela vem depois. E o depois depende de um antes que ainda não existe em lugar nenhum.
A ordem em que o leitor lê não tem obrigação nenhuma com a ordem em que o autor escreve. O leitor recebe o livro montado e nunca vai saber que a página 210 ficou pronta antes da página 12.
Escrever fora de ordem exige uma unidade menor que o capítulo. Capítulo puxa capítulo, cobra transição e ligação, e a página em branco de um capítulo é grande demais para caber numa sessão de manhã.
Cena é outra coisa. Tem começo e fim próprios, cabe num pedaço de papel pequeno e pode ser escrita sozinha, sem depender do que vem antes nem do que vem depois.
Falta a segunda metade do arranjo, que é a montagem. Cena solta não vira livro. Alguém precisa espalhar as peças na mesa, achar o vão entre duas delas e escrever o que preenche o vão.
A régua de hoje vem de um romance escrito nos Estados Unidos entre 1948 e 1953, montado peça por peça e jamais na ordem em que hoje é lido.
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I A DOSE
A caixa de fichas que virou um romance
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Cinco anos de trabalho, nenhuma linha escrita na ordem do leitor. Veja como o romance foi montado.
Vladimir Nabokov compunha cada cena numa ficha pautada de bolso, escrita a lápis. A ficha não guardava anotação nem esquema: guardava o texto do livro, num cartão de cerca de 7,5 por 12,5 centímetros, com a borracha à mão para o conserto imediato.
O cartão impunha um limite físico ao trabalho. Trecho que não cabia na ficha não era um trecho, eram dois, e a mão parava na fronteira da cena em vez de emendar direto no capítulo seguinte.
Ele não começava pelo capítulo um. Escrevia a cena que estava nítida naquele dia, guardava a ficha e ia para outra, em qualquer ponto do livro, sem pedir licença à linha do tempo da história.
Lolita ocupou cinco anos, de 1948 a dezembro de 1953. Boa parte deles passou em Ithaca, no estado de Nova York, onde ele dava aula de literatura na Universidade Cornell e escrevia nas horas que sobravam.
Nos verões, o trabalho viajava junto. Nas expedições de caça a borboletas pelo Oeste americano, ele escrevia no banco de trás do carro estacionado, com as fichas apoiadas no colo, e voltava com a pilha maior do que tinha saído.
Véra Nabokov datilografava as fichas e cuidava de todo o resto: correspondência, contas, negociação com editores. Em 1950 ela tirou páginas do incinerador do quintal quando ele decidiu que o livro não ia dar em nada.
A pilha crescia fora de ordem. As fichas ficavam numa caixa, e a sequência era assunto de outra hora, resolvida quando houvesse material suficiente para espalhar em cima da mesa.
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A ficha resolve dois problemas de uma vez: tira do autor a obrigação de começar pelo começo e entrega à sessão de hoje um alvo do tamanho exato de uma cena.
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O fim do trabalho era montagem. As fichas iam para a mesa, trocavam de lugar até a história ter começo, meio e fim, e só então viravam manuscrito datilografado em ordem contínua.
O método deixou prova material. O romance inacabado O Original de Laura foi publicado em 2009 com as 138 fichas reproduzidas em fac-símile, na letra a lápis do autor, uma ficha por página impressa.
Quem folheia aquelas páginas vê o livro em estado de peça solta: frases fechadas, cenas inteiras, correção por cima da linha e nenhuma seta indicando o que viria depois.
Terminado em dezembro de 1953, o romance ainda levou quase dois anos para chegar às livrarias, recusado por editora americana atrás de editora americana até sair em Paris, em setembro de 1955.
Cinco anos de trabalho, e nenhuma sessão precisou começar pelo capítulo um para render página.
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II NA PÁGINA
Escreva hoje a cena que você já vê
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Fora de ordem não é sem plano. A regra da sessão de hoje é uma só: escreva a cena que está nítida, inteira, e pare no instante em que ela acaba.
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Primeiro movimento, o inventário. Numa lista única, escreva as cenas que você já enxerga, uma linha para cada: quem entra, o que a pessoa quer, o que muda até o fim. Não numere nada.
Segundo movimento, a unidade certa. A ficha é a cena, nunca o capítulo. Cartão de 7,5 por 12,5, papel cortado ao meio ou nota separada no telefone, contanto que uma peça não encoste na outra.
Terceiro movimento, a escolha do dia. Pegue a cena mais nítida da lista, não a mais adiantada na linha do tempo. Nitidez é o único critério, porque cena nítida sai inteira dentro de uma sessão.
Quarto movimento, o fecho da ficha. Escreva até a cena terminar e pare ali mesmo. Nada de emendar a transição para a próxima: transição é trabalho de montagem, e montagem acontece em outro dia.
Quinto movimento, a etiqueta. Antes de guardar a ficha, anote no alto três palavras do que acontece nela. Sem etiqueta, quarenta fichas viram um monte de papel que ninguém consegue ordenar.
Sexto movimento, a mesa de montagem. Uma vez por semana, espalhe as fichas e coloque na ordem em que o leitor vai ler. O vão entre duas fichas é a próxima cena a escrever, e a lista de vãos é a fila da semana.
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“O padrão da coisa precede a coisa. Preencho as lacunas da palavra cruzada em qualquer ponto que eu escolha.”
Vladimir Nabokov, Strong Opinions, 1973
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A frase entrega a peça que costuma sumir quando alguém copia o método. O desenho geral existia antes: ele sabia o arco, a gente que entrava e o fim. O que ficava livre era a ordem de execução, nunca o destino.
Quatro defeitos aparecem já na primeira semana. O primeiro é escrever ficha de ligação, aquela cena que só existe para levar de A até B. Ela nunca está nítida porque não é cena, é costura.
O segundo é a ficha comprida. Quando o texto passa de duas páginas sem fechar, são duas cenas empilhadas numa só, e a segunda termina pela metade em toda sessão.
O terceiro é ordenar cedo demais. Com seis fichas na mesa a ordem parece óbvia, e a sequência fechada no começo vira a mesma prisão que o capítulo um era.
O quarto é confundir fora de ordem com sem rumo. O método pede uma linha escrita em algum lugar dizendo como a história termina, mesmo que a cena final só seja escrita daqui a um ano.
A prova de que o arranjo funciona chega rápido. Em duas semanas existem oito ou dez cenas prontas na caixa, e a pilha responde todo dia a pergunta que a página em branco nunca respondeu.
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