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Lobato escreveu ao mesmo amigo por 40 anos

Monteiro Lobato e Godofredo Rangel trocaram contos e cortes pelo correio, sem mestre, e as cartas saíram em livro em 1944.

Cartas manuscritas empilhadas sobre uma mesa de madeira.

Um conto ia, a crítica voltava pelo correio.

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Um bloco de papel pautado, uma caneta de pena de aço, um endereço no interior de Minas Gerais. Os três itens sustentaram, a partir de 1903, uma das conversas sobre escrita mais longas da literatura brasileira.

Quem escrevia era José Bento Monteiro Lobato, estudante de Direito em São Paulo, então com 21 anos. Quem recebia era Godofredo Rangel, colega da mesma faculdade, no Largo de São Francisco. Os dois queriam ser escritores e ainda não tinham publicado livro nenhum.

O trato nasceu entre os rapazes do Cenáculo, grupo de estudantes que se reunia num chalé alugado no bairro do Belenzinho, apelidado por eles de Minarete (a torre fina das mesquitas). Ali liam em roda, discutiam autores e prometiam uns aos outros uma carreira nas letras.

A formatura separou os dois. Rangel foi ser promotor e depois juiz em cidades pequenas de Minas. Lobato trabalhou como promotor em Areias, no Vale do Paraíba, e herdou do avô uma fazenda na região de Taubaté. A distância virou método: cada um contaria ao outro o que lia, o que escrevia e o que jogava fora.

Não havia professor nem editor na conversa. Havia dois estreantes, cada um com o texto do outro na mesa, dizendo sem rodeio onde a frase emperrava.

As cartas de Lobato atravessaram quatro décadas. Rangel guardou todas e, em 1944, elas saíram em livro com um título estranho, A Barca de Gleyre. As respostas de Rangel ficaram fora do volume, que traz só um lado da conversa.

O título vem de um quadro do pintor suíço Charles Gleyre, de 1843, em que um velho poeta, sentado na margem, vê partir um barco cheio de moços cantando. Lobato usou a imagem para falar dos sonhos literários da juventude, que a barca levava rio abaixo enquanto os dois envelheciam.

A primeira faixa mostra como uma carta virava aula de escrita, com o manuscrito indo e voltando pelo correio.

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I  A DOSE

A carta como oficina

A resposta de ontem

Quem levou o protocolo de Milford para a Inglaterra?

Foi James Blish, um dos três fundadores. Ele se mudou para a Inglaterra em 1969 e, em 1972, ajudou a criar a versão britânica da oficina, que manteve a roda, a vez de cada crítico e o silêncio do autor. A Milford britânica segue reunindo escritores de ficção científica todo ano, hoje no País de Gales.

O método da Barca era simples: o texto ia pelo correio, a crítica voltava pelo correio, e ninguém poupava ninguém. Lobato mandava contos inteiros, copiados à mão, e pedia a Rangel que riscasse sem pena.

A regra valia nos dois sentidos. Rangel mandava os seus contos para São Paulo ou para a fazenda, e Lobato respondia com a mesma franqueza, página por página, sem diploma de crítico nem cargo de editor para dar peso à opinião.

A crítica vinha por escrito, e a escrita mudava o tom. Numa conversa de bar, o amigo amacia o comentário para não estragar a noite. No papel, com dias de distância, sobrava espaço para dizer que o parágrafo estava inchado e que o adjetivo era só enfeite.

O inimigo comum

Os dois tinham um alvo fixo: a frase empolada (cheia de palavras difíceis só para impressionar), moda da prosa brasileira daquele começo de século. Lobato atacava nas cartas o gosto por inversões, termos raros e períodos que davam três voltas antes de chegar ao verbo.

A saída que ele defendia era escrever perto da fala. Não a fala descuidada, e sim a ordem natural da frase dita, com sujeito, verbo e complemento, e a palavra comum no lugar da palavra de dicionário.

Lobato não pregava a regra de fora. Ele admitia nas cartas que caía no mesmo vício, mandava ao amigo o trecho que achava pomposo e pedia ajuda para desinflar. A correção começava pelo próprio texto.

Rangel, mais paciente, era o leitor do detalhe. Lobato confessava pressa, entusiasmo e preguiça de revisar; o amigo devolvia as páginas apontando repetição, rima involuntária e cena sem necessidade.

Dois estreantes que se leem com franqueza valem mais do que um mestre que só elogia.

Ler junto, à distância

A troca não se limitava ao que escreviam. As cartas traziam listas de leitura, comentários sobre Eça de Queirós, Machado de Assis e Camilo Castelo Branco, e brigas sobre quem merecia ser imitado.

Ler o mesmo autor em cidades diferentes funcionava como um clube de leitura de dois sócios. Um apontava a página que o tinha impressionado, o outro voltava a ela e respondia se concordava, já pensando em como usar o truque no próprio conto.

Esse vaivém criou um hábito raro entre iniciantes: ler como quem desmonta um relógio. A pergunta deixava de ser se o livro era bom e virava como o autor tinha conseguido aquele efeito.

Nenhum dos dois tinha fama quando começou. Nas cartas, porém, cada um tratava o outro como colega de ofício, com direito a discordar, mudar de ideia e voltar atrás na carta seguinte sem perder a amizade.

 
 

II  NA PÁGINA

O amigo que corta

A lição mais repetida na Barca é cortar: Lobato cobrava de si e de Rangel textos mais curtos, mais secos e mais claros. O conselho atravessa cartas de décadas diferentes, sempre contra o mesmo inimigo, o excesso.

Ele chamava de gramatiquice (apego às regras de gramática acima do sentido) a mania de corrigir a frase até ela ficar correta e sem vida. Para Lobato, a norma servia ao leitor; quando atrapalhava a leitura, perdia a razão de existir.

Revisar no envelope seguinte

O correio impunha um ritmo. A carta levava dias para ir e dias para voltar, e nesse intervalo o texto esfriava na gaveta. Quando a crítica chegava, o autor já lia o próprio conto com olho de estranho.

O intervalo virou conselho de manual: deixar o manuscrito descansar antes de revisar. Na Barca, ele vinha de graça, embutido no caminho do trem entre São Paulo e Minas.

A crítica do amigo também chegava concreta. Em vez de dizer que o conto estava fraco, a carta apontava a linha, a palavra e a cena. O autor recebia um mapa, não um desabafo.

Os dois também aprenderam a aceitar parte da crítica e recusar outra. Uma carta discordava da anterior, defendia uma palavra e cedia em outra. A amizade aguentava a briga porque a briga era sempre sobre a página, nunca sobre a pessoa.

A crítica útil aponta a linha; a inútil só descreve o humor de quem leu.

O que cada um fez com os cortes

Rangel seguiu escrevendo devagar, nas horas livres da magistratura (a carreira de juiz). O romance Vida Ociosa, retrato da vida mansa do interior mineiro, saiu pela editora de Lobato e ficou como a obra pela qual ele é lembrado.

O próprio Lobato mudou de rumo. O contista de 1903 lançou em 1918 Urupês, livro de contos sobre o interior paulista que esgotou a primeira tiragem em poucas semanas e tornou famoso o Jeca Tatu, o caipira doente e desanimado.

Ler as cartas em sequência mostra a mudança acontecendo. A frase de Lobato encurta, o vocabulário fica mais simples e o humor ganha espaço, enquanto ele repete ao amigo os cortes que antes recebia dele.

 

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III  O MERCADO

Do envelope à editora

Lobato não parou na escrita: virou editor e tratou o livro como produto que precisa chegar ao leitor. Em 1918, comprou a Revista do Brasil, mensário de cultura de São Paulo, e começou a publicar livros pelo selo dela.

O país daquela época tinha poucas livrarias, quase todas nas capitais. Lobato escreveu a comerciantes de cidades pequenas, como donos de farmácia, papelaria e armazém, oferecendo livros em consignação (o lojista paga só o que vende e devolve o resto).

A ideia tirava o livro da prateleira de luxo e o punha ao lado do sabão e do remédio. Para um estreante, era a diferença entre um punhado de vitrines e centenas de balcões espalhados pelo interior.

Da gráfica à falência

O crescimento cobrou caro. A empresa, rebatizada de Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato, investiu numa gráfica grande em São Paulo. Em 1924, a seca cortou a energia elétrica da cidade e a revolta tenentista daquele ano parou as máquinas.

Sem produzir e com dívidas, a editora faliu em 1925. Lobato não largou o ofício: no mesmo ano, recomeçou com um sócio, agora no Rio de Janeiro, e a nova casa se tornou uma das maiores do país.

Rangel acompanhou tudo pelas cartas, como leitor e como autor da casa. A amizade que começou com dois estudantes trocando contos chegou à fase em que um publicava o outro e o outro traduzia livros para as edições do amigo.

Para o estreante de hoje, a Barca deixa um roteiro de mercado: um leitor de confiança antes do editor, um texto cortado antes da venda e um canal que leve o livro aonde o leitor já está.

Os três itens custam pouco. O leitor de confiança pode ser um colega de grupo; o corte depende só de tempo; e o canal, hoje, inclui loja digital, newsletter e feira local, os balcões de farmácia do século 21.

Para montar a sua troca de cartas, siga quatro passos:

1. Escolha um único colega de escrita, no mesmo estágio que você, e combine a frequência das cartas.

2. Mande uma página por vez, com uma pergunta concreta sobre ela.

3. Responda apontando a linha exata do tropeço, nunca só a impressão geral.

4. Guarde as cartas recebidas e releia as antigas a cada três meses.

Hoje: escreva 1 carta de 300 palavras a um colega de escrita, anexe uma página sua e envie até as 22h.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que editora Lobato fundou em 1925, depois da falência da primeira?

 
 
Quiz da edição

No livro A Barca de Gleyre, de onde vem o título, segundo o texto?

ADe um poema de Camilo Castelo Branco sobre viagens marítimas
BDe um quadro de 1843 do pintor suíço Charles Gleyre, com um velho poeta vendo partir um barco de moços cantando
CDo nome do chalé onde o grupo Cenáculo se reunia no Belenzinho
DDe uma expressão que Rangel usava para descrever a vida no interior de Minas

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