A resposta de ontem Quem levou o protocolo de Milford para a Inglaterra? Foi James Blish, um dos três fundadores. Ele se mudou para a Inglaterra em 1969 e, em 1972, ajudou a criar a versão britânica da oficina, que manteve a roda, a vez de cada crítico e o silêncio do autor. A Milford britânica segue reunindo escritores de ficção científica todo ano, hoje no País de Gales. |
O método da Barca era simples: o texto ia pelo correio, a crítica voltava pelo correio, e ninguém poupava ninguém. Lobato mandava contos inteiros, copiados à mão, e pedia a Rangel que riscasse sem pena.
A regra valia nos dois sentidos. Rangel mandava os seus contos para São Paulo ou para a fazenda, e Lobato respondia com a mesma franqueza, página por página, sem diploma de crítico nem cargo de editor para dar peso à opinião.
A crítica vinha por escrito, e a escrita mudava o tom. Numa conversa de bar, o amigo amacia o comentário para não estragar a noite. No papel, com dias de distância, sobrava espaço para dizer que o parágrafo estava inchado e que o adjetivo era só enfeite.
O inimigo comum
Os dois tinham um alvo fixo: a frase empolada (cheia de palavras difíceis só para impressionar), moda da prosa brasileira daquele começo de século. Lobato atacava nas cartas o gosto por inversões, termos raros e períodos que davam três voltas antes de chegar ao verbo.
A saída que ele defendia era escrever perto da fala. Não a fala descuidada, e sim a ordem natural da frase dita, com sujeito, verbo e complemento, e a palavra comum no lugar da palavra de dicionário.
Lobato não pregava a regra de fora. Ele admitia nas cartas que caía no mesmo vício, mandava ao amigo o trecho que achava pomposo e pedia ajuda para desinflar. A correção começava pelo próprio texto.
Rangel, mais paciente, era o leitor do detalhe. Lobato confessava pressa, entusiasmo e preguiça de revisar; o amigo devolvia as páginas apontando repetição, rima involuntária e cena sem necessidade.
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Dois estreantes que se leem com franqueza valem mais do que um mestre que só elogia.
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Ler junto, à distância
A troca não se limitava ao que escreviam. As cartas traziam listas de leitura, comentários sobre Eça de Queirós, Machado de Assis e Camilo Castelo Branco, e brigas sobre quem merecia ser imitado.
Ler o mesmo autor em cidades diferentes funcionava como um clube de leitura de dois sócios. Um apontava a página que o tinha impressionado, o outro voltava a ela e respondia se concordava, já pensando em como usar o truque no próprio conto.
Esse vaivém criou um hábito raro entre iniciantes: ler como quem desmonta um relógio. A pergunta deixava de ser se o livro era bom e virava como o autor tinha conseguido aquele efeito.
Nenhum dos dois tinha fama quando começou. Nas cartas, porém, cada um tratava o outro como colega de ofício, com direito a discordar, mudar de ideia e voltar atrás na carta seguinte sem perder a amizade.
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