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Lee Child começa todo livro no dia 1 de setembro

Desde 1994, o criador de Jack Reacher abre cada romance na mesma data, com a primeira página marcada antes de existir enredo.

Bloco de papel pautado, lápis e calendário aberto em setembro.

Child abre cada livro em 1º de setembro.

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Um lápis, um bloco de papel pautado, uma data riscada no calendário da cozinha. Os três objetos abriram, em 1994, a carreira de um dos autores de suspense mais vendidos do mundo.

O autor assina Lee Child, mas o nome de batismo é James Dover Grant. Nasceu em 1954, em Coventry, na Inglaterra, cresceu em Birmingham e estudou direito em Sheffield sem nunca exercer a profissão. Passou quase duas décadas na televisão antes de escrever uma linha de ficção para vender.

O personagem que ele criou se chama Jack Reacher, ex-major da polícia do Exército americano, quase dois metros de altura, sem casa, sem carro e sem bagagem. Reacher anda de cidade em cidade com uma escova de dentes no bolso e entra em encrenca alheia por teimosia.

O sobrenome do herói nasceu numa ida ao supermercado. A mulher de Child, Jane, comentou que, com a altura dele, ele podia ganhar a vida como "reacher" (em inglês, quem alcança o que está alto) para as senhoras baixinhas da prateleira de cima.

A parte desta história que interessa a quem escreve, porém, é a data. Child começou o primeiro romance num 1º de setembro e, desde então, abre cada livro novo nesse mesmo dia, ano após ano, como quem cumpre um compromisso de cartório.

Ele chega a setembro sem enredo. Não faz roteiro prévio, não monta ficha de personagem secundário, não sabe quem é o vilão. Sabe só que, naquele dia, vai escrever a primeira frase, e que o resto do livro sai dela, página por página, até o fim.

O hábito virou assunto entre leitores e jornalistas, e Child repete a explicação com paciência: a data decide por ele. Sem a data, o livro do ano esperaria a ideia certa, e a ideia certa costuma não chegar sozinha.

A primeira seção volta ao dia em que o calendário entrou na vida dele, poucas semanas depois de perder o único emprego que tinha tido na vida adulta.

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I  A DOSE

O lápis comprado depois da demissão

Antes de ser escritor, James Grant passou dezoito anos na Granada Television, a emissora de Manchester que produzia novelas e documentários para a rede britânica ITV. Ele trabalhava na apresentação, a equipe que monta a grade, encaixa vinhetas e põe no ar o que os outros gravaram.

No começo da década de 1990, a Granada passou por uma reestruturação pesada sob nova direção. Grant, então chefe de turno e representante sindical, entrou na lista de cortes. Saiu com uma indenização, 39 anos, mulher, uma filha pequena e nenhum plano B.

O mercado escolhido de propósito

A decisão de escrever foi de negócio, segundo ele mesmo contou várias vezes. Na TV, aprendera a ver o que o público pedia e o que sobrava na prateleira. Na livraria, notou falta de um tipo de herói: o justiceiro solitário, sem amarras, que chega, resolve e vai embora.

No dia 1º de setembro de 1994, comprou papel e lápis numa papelaria e sentou para escrever. Não tinha computador. Escreveu à mão, num bloco, o romance que se chamaria Killing Floor, título em inglês para o piso de abate de um matadouro.

A data veio antes da história: o livro começou porque o dia tinha chegado.

Do bloco à editora americana

O manuscrito ficou pronto em poucos meses. Grant o mandou ao agente literário Darley Anderson, em Londres, que aceitou representá-lo e vendeu o livro à editora americana Putnam. O texto já saiu assinado Lee Child, pseudônimo escolhido para ficar perto de autores conhecidos na ordem alfabética da estante.

Killing Floor chegou às livrarias em 1997 e ganhou, no ano seguinte, o Anthony Award de melhor romance de estreia, prêmio dado na convenção Bouchercon, o maior encontro anual de leitores de policial dos Estados Unidos.

O sucesso não mudou o calendário. Quando o primeiro livro entrou em produção, Child já tinha marcado o seguinte para o próximo setembro. A família se mudou para os Estados Unidos em 1998, e o ritual atravessou o oceano junto com a mudança.

Assim, o dia da papelaria virou rotina de trabalho. Desde 1994, a primeira página de cada romance de Jack Reacher sai na mesma data, e o ano inteiro de produção se organiza a partir dela.

 
 

II  NA PÁGINA

Reacher preso no restaurante de Eno

Killing Floor abre com Jack Reacher sendo preso num restaurante da cidade fictícia de Margrave, na Geórgia, acusado de um homicídio que não cometeu. A primeira frase do livro, na tradução livre desta edição, diz: "Fui preso no restaurante do Eno. Ao meio-dia."

A frase é de Lee Child, em Killing Floor, de 1997, e mostra o método inteiro em oito palavras. O narrador entra em cena já em apuro, com lugar e hora marcados, sem explicar quem é. O leitor descobre o resto junto com o personagem, dentro da cela.

Sem roteiro na gaveta

Child escreve sem plano. Ele compara o trabalho ao de quem lê: só sabe o que acontece na página seguinte depois de escrever a anterior. Se ele não sabe o fim, argumenta, o leitor também não vai adivinhar.

O professor britânico Andy Martin, da Universidade de Cambridge, acompanhou esse processo de perto. Sentou ao lado de Child a partir de 1º de setembro de 2014, em Nova York, e assistiu à escrita de Make Me, o vigésimo livro da série, do primeiro parágrafo ao último.

O relato saiu em 2015 com o título Reacher Said Nothing (em português, Reacher não disse nada). Martin registra um autor que escreve de manhã, revisa pouco, fuma enquanto pensa e deixa a trama crescer a partir de um detalhe da primeira cena.

A primeira frase faz o papel do roteiro: cada página seguinte responde a ela.

O detalhe que puxa a trama

Em Make Me, o ponto de partida foi um nome de cidade, Mother's Rest (Descanso da Mãe), que Reacher vê da janela do trem e decide conhecer. Child não sabia por que a cidade tinha esse nome quando escreveu a cena. A explicação veio semanas depois, no meio do livro.

O mesmo vale para os coadjuvantes. O autor cria um personagem quando a cena pede e decide o papel dele no caminho. Martin conta que viu Child mudar o destino de uma figura secundária porque, relida, ela parecia boa demais para morrer cedo.

O método tem custo. Sem plano, há capítulos que precisam voltar e ser ajustados quando a trama encontra a saída. Child aceita a revisão como preço da surpresa: prefere consertar o começo a escrever um livro previsível do início ao fim.

O leitor sente o efeito sem conhecer a técnica. Como o autor não sabe a resposta, as pistas aparecem na ordem em que ele as encontra, e o suspense acompanha a descoberta de quem escreve.

 

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III  O MERCADO

Um livro por ano, um herói só

O calendário fixo de Lee Child produziu um romance de Jack Reacher por ano durante mais de duas décadas, cada um lançado no ano seguinte ao setembro em que começou. O leitor aprendeu a esperar o próximo título em data parecida, como quem espera um feriado.

Essa regularidade é um ativo comercial raro no ramo. A editora planeja lançamento, divulgação e pré-venda sabendo, com um ano de antecedência, que o livro vai existir. A livraria reserva espaço. O leitor fiel compra no lançamento, sem precisar de propaganda pesada.

Do papel para a tela

A série chegou ao cinema em 2012, com Jack Reacher, filme baseado no nono livro, One Shot, com Tom Cruise no papel principal. Os leitores reclamaram da escolha: o ator tem pouco mais de um metro e setenta, e Reacher, nos livros, passa de um e noventa.

Em 2022, o serviço de vídeo Amazon Prime Video lançou a série Reacher, com o ator Alan Ritchson, de porte próximo ao do personagem. A primeira temporada adaptou justamente Killing Floor, o livro começado à mão em 1994.

Um prazo fixo transforma o autor em fornecedor confiável, e o mercado paga por confiança.

A sucessão dentro de casa

Em 2020, aos 65 anos, Child anunciou que passaria a série ao irmão mais novo, Andrew Grant, também romancista, que adotou o nome Andrew Child. O primeiro livro dos dois juntos, The Sentinel, saiu naquele mesmo ano. Os seguintes ficaram a cargo de Andrew.

A troca seguiu o calendário de sempre. O herói continuou com um título por ano, e o setembro de abertura ficou como marca da série, agora nas mãos de outro Grant.

O prazo também tira a decisão das mãos do humor. Child repete em entrevistas que, com o dia marcado, não sobra espaço para discutir se a ideia está madura: chegou setembro, ele escreve a frase.

Quatro passos para criar o seu setembro

O ritual de Child serve a quem espera a ideia perfeita para começar. Quatro passos tiram o método da biografia:

1. Escolha uma data fixa no calendário e trate-a como prazo de entrega, sem adiar por falta de enredo.

2. Na data, escreva a primeira frase com um personagem em apuro, um lugar e uma hora.

3. Siga sem roteiro por algumas semanas, uma página por dia, e deixe a próxima cena responder à anterior.

4. Ao terminar, marque no calendário a data do livro seguinte antes de revisar o atual.

Hoje: escolha 1 data dos próximos 30 dias, escreva-a no alto de uma página em branco e, abaixo dela, 1 frase de abertura em 10 minutos.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, de onde surgiu o sobrenome do personagem Jack Reacher?

ADe um comentário do agente literário Darley Anderson sobre a altura do autor
BDe um comentário da mulher de Lee Child numa ida ao supermercado
CDe uma placa vista na papelaria onde Child comprou o primeiro bloco de papel
DDe uma sugestão da editora Putnam durante a revisão do primeiro romance

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