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Koizora e o best-seller digitado com o polegar

Em 2007, 5 dos 10 romances mais vendidos no Japão nasceram no celular. A tela pequena ditou a frase curta e o capítulo de uma página.

Uma adolescente japonesa digita um romance no celular dobrável, num vagão de metrô em 2007.

Um capítulo inteiro numa tela de celular

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Um teclado numérico de doze teclas, uma tela do tamanho de um cartão de visita, um site gratuito de textos em série. Os três estavam por trás de metade da lista de romances mais vendidos do Japão em 2007.

Os livros desse ranking tinham nascido como keitai shosetsu (romance de celular). Cada capítulo foi digitado com o polegar, no aparelho dobrável que as adolescentes japonesas levavam na bolsa, e publicado de graça numa tela que mostrava poucas linhas por vez.

O aparelho típico era um celular dobrável com i-mode, a internet móvel que a operadora NTT Docomo lançou em 1999. Para muita adolescente japonesa, aquele telefone foi o primeiro computador e a única tela particular dentro de casa.

A plataforma se chamava Maho no i-Land (algo como “Ilha mágica do i”), um serviço criado em 1999 que deixava qualquer usuário montar uma página no celular e postar texto em capítulos. As leitoras abriam as histórias no trem, no intervalo da escola, debaixo do cobertor.

O jornal The New York Times registrou o fenômeno em janeiro de 2008, numa reportagem de Norimitsu Onishi: cinco dos dez romances mais vendidos no país no ano anterior tinham começado na tela do telefone. A lista usada era a da Tohan, uma das maiores distribuidoras de livros do Japão.

A tela pequena impôs regras que nenhum editor escreveu. Frase de uma linha. Parágrafo de uma frase. Capítulo que cabe numa página do celular, lido de uma tacada entre duas estações de metrô.

O resultado parecia pobre aos críticos e viciante às leitoras. Quando os textos foram impressos, as editoras mantiveram os espaços em branco, as quebras abruptas e até a leitura na horizontal, rara num romance japonês.

A seção I mostra qual livro puxou a fila desse ranking, quem o escreveu e de onde veio o formato que ele levou ao topo das livrarias.

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I  A DOSE

Um ranking escrito com o polegar

Koizora (Céu de amor), romance de uma autora que assinava apenas Mika, foi o mais vendido do Japão em 2007 no ranking anual da Tohan. A história começou como capítulos postados no Maho no i-Land a partir de 2005.

O enredo segue Mika, uma estudante do ensino médio, e o namorado Hiro: primeiro amor, gravidez, perda do bebê, separação e doença. A narradora conta tudo em primeira pessoa, como quem escreve um diário para as amigas.

O título junta koi (amor) e sora (céu). O céu volta nas últimas páginas como imagem de luto da narradora, e a editora lançou depois Kimizora, a mesma história contada pelo ponto de vista de Hiro.

A autora nunca revelou o nome completo nem o rosto. A editora apresentou o livro como baseado em fatos reais, e a identidade dela segue sem confirmação pública até hoje, porque nenhum documento ou entrevista com nome verdadeiro veio a público.

Koizora não inventou o formato. O pioneiro foi Deep Love, de um autor que assinava Yoshi, publicado em 2000 num site próprio para celular. A versão impressa veio depois, e a história ganhou mangá, série de TV e filme.

O Maho no i-Land transformou o caso isolado em linha de produção. O serviço oferecia ferramenta gratuita de escrita, contador de leituras e lista dos textos mais lidos, tudo dentro do navegador do celular.

O ranking da Tohan premiou textos que nenhum editor tinha encomendado.

As autoras eram, em geral, adolescentes e jovens de vinte e poucos anos. Escreviam no ônibus, na fila, na cama, sem computador, usando o aparelho em que liam as histórias das outras.

Em 2007, Koizora chegou ao cinema, com a atriz Yui Aragaki no papel da protagonista, e o filme empurrou as vendas do livro impresso no mesmo ano em que ele liderou a lista.

O dado que pôs o fenômeno no noticiário internacional veio da reportagem do Times:

“No ano passado, cinco dos dez romances mais vendidos no Japão eram originalmente romances de celular.”

Norimitsu Onishi, “Thumbs Race as Japan's Best Sellers Go Cellular”, The New York Times, 2008

A frase resume a mudança: o primeiro rascunho dos best-sellers do ano tinha sido escrito numa tela menor que a palma da mão.

 
 

II  NA PÁGINA

A frase que cabe na tela

O celular japonês de 2007 mostrava poucas linhas por vez, e a digitação acontecia no teclado numérico, apertando a mesma tecla várias vezes até chegar ao caractere certo. Cada palavra custava esforço do polegar.

O teclado também deixou marca no vocabulário. O texto preditivo do aparelho sugeria a palavra depois de poucas teclas, e as autoras aceitavam a sugestão mais comum. A língua da página ficou parecida com a das mensagens que as leitoras trocavam no intervalo.

O custo moldou a prosa. A frase do keitai shosetsu é curta, quase sempre com uma ideia só, e termina antes da borda da tela. A oração subordinada longa desaparece.

O tempo verbal acompanha a pressa. A narradora conta no presente, em primeira pessoa, e a leitora recebe a cena como se ela estivesse acontecendo naquela hora, do jeito de uma mensagem que acabou de chegar.

A descrição também encolhe. Paisagem, roupa e rosto aparecem numa palavra ou nem aparecem. O espaço vai para o que a personagem sente e para o que alguém diz.

O diálogo ganha linha própria. Uma fala, uma linha, e depois um vazio. A quebra faz o papel da pausa, e a pausa faz o papel da emoção.

No romance de celular, a linha em branco trabalha tanto quanto a frase.

O capítulo segue a mesma lógica. No Maho no i-Land, cada página do celular funcionava como unidade de leitura: um momento, uma surpresa, e a página seguinte. A leitora abria, lia sem rolar demais e fechava o aparelho.

Os editores de papel respeitaram o molde. As edições impressas saíram em yokogaki (escrita horizontal, da esquerda para a direita), como na tela, e não em tategaki (escrita vertical, em colunas), o padrão do romance japonês.

O livro impresso ficou com muito branco na página. Há folhas com três ou quatro linhas e o resto vazio, reproduzindo o respiro que a tela do celular dava entre uma fala e outra.

Também ficaram os símbolos. Reticências longas, pontos de exclamação dobrados e emoticons atravessaram para o papel, porque a editora apostou que a leitora queria reconhecer no livro o texto que tinha lido na tela.

Para quem escreve em português, o molde funciona como exercício de corte. Três passos:

1Pegue uma cena sua e reescreva cada frase até caber numa linha da tela do celular.
 
2Corte toda descrição que a personagem não sente nem usa na cena.
 
3Termine o trecho numa linha que obrigue a leitora a abrir a próxima tela.
 

O exercício não transforma ninguém em Mika. Mostra, porém, quanto peso a frase carregava sem precisar.

 

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III  O MERCADO

Da tela do metrô às livrarias

A Starts Publishing, editora de Tóquio, levou Koizora ao papel em 2006 e fez da leitura atenta do Maho no i-Land um método. Os editores acompanhavam a lista dos mais acessados e ofereciam contrato às autoras que já tinham leitoras fiéis.

Outras editoras correram atrás. Livrarias japonesas abriram estantes próprias para o romance de celular, com capa em tom pastel, título curto e texto impresso na horizontal.

Os filmes mantiveram a roda girando. Depois de Koizora, outros romances nascidos no celular ganharam adaptação para cinema e TV, e cada estreia levava uma nova leva de compradoras às estantes de capa pastel.

A crítica literária reagiu com desconfiança. Resenhistas acusavam os livros de vocabulário pobre, enredo repetido e drama em série: gravidez na adolescência, abuso, doença terminal, namorado perdido.

As leitoras responderam no caixa. Em 2007, o romance de celular deixou de ser nicho de adolescente e virou categoria que as distribuidoras acompanhavam no ranking anual.

A tela que formou as autoras também formou o gosto de quem comprava.

O auge durou pouco. Em julho de 2008, o iPhone chegou ao Japão pela operadora SoftBank, e a tela maior, com teclado virtual, desfez o aperto que moldava a frase curta.

Com a tela maior veio a rolagem contínua. O capítulo deixou de caber numa página fixa, e a frase perdeu a borda que a obrigava a parar.

A escrita on-line japonesa mudou de endereço. O Shōsetsuka ni Narō (“Vamos virar romancista”), criado em 2004, tomou o lugar de celeiro principal, com capítulos mais longos, lidos também no computador.

O formato encolheu sem desaparecer. Plataformas de leitura em capítulos curtos no celular seguem ativas no Japão, mas o ranking de romances nunca mais registrou um ano com metade da lista vinda do aparelho, como em 2007.

As datas do boom:

Maho no i-Land no ar1999
Deep Love on-line2000
Koizora no papel2006
Metade do ranking2007
Reportagem do Times2008
iPhone chega ao Japão2008

O legado ficou na forma. Frase curta, parágrafo de uma linha e capítulo que termina numa surpresa viraram ferramenta comum de quem escreve para leitura em tela, no Japão e fora dele.

“Quantas frases do seu capítulo cabem numa linha de celular?”

Hoje: abra 1 capítulo seu no celular, leia a primeira tela e corte, em 15 minutos, toda frase que passa de uma linha.

 
 

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Segundo o ranking anual da Tohan, qual foi o romance mais vendido no Japão em 2007?

ADeep Love, de Yoshi
BKoizora, de Mika
CKimizora, contado por Hiro
DIlha mágica do i, de autoria coletiva

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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