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O celular japonês de 2007 mostrava poucas linhas por vez, e a digitação acontecia no teclado numérico, apertando a mesma tecla várias vezes até chegar ao caractere certo. Cada palavra custava esforço do polegar.
O teclado também deixou marca no vocabulário. O texto preditivo do aparelho sugeria a palavra depois de poucas teclas, e as autoras aceitavam a sugestão mais comum. A língua da página ficou parecida com a das mensagens que as leitoras trocavam no intervalo.
O custo moldou a prosa. A frase do keitai shosetsu é curta, quase sempre com uma ideia só, e termina antes da borda da tela. A oração subordinada longa desaparece.
O tempo verbal acompanha a pressa. A narradora conta no presente, em primeira pessoa, e a leitora recebe a cena como se ela estivesse acontecendo naquela hora, do jeito de uma mensagem que acabou de chegar.
A descrição também encolhe. Paisagem, roupa e rosto aparecem numa palavra ou nem aparecem. O espaço vai para o que a personagem sente e para o que alguém diz.
O diálogo ganha linha própria. Uma fala, uma linha, e depois um vazio. A quebra faz o papel da pausa, e a pausa faz o papel da emoção.
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No romance de celular, a linha em branco trabalha tanto quanto a frase.
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O capítulo segue a mesma lógica. No Maho no i-Land, cada página do celular funcionava como unidade de leitura: um momento, uma surpresa, e a página seguinte. A leitora abria, lia sem rolar demais e fechava o aparelho.
Os editores de papel respeitaram o molde. As edições impressas saíram em yokogaki (escrita horizontal, da esquerda para a direita), como na tela, e não em tategaki (escrita vertical, em colunas), o padrão do romance japonês.
O livro impresso ficou com muito branco na página. Há folhas com três ou quatro linhas e o resto vazio, reproduzindo o respiro que a tela do celular dava entre uma fala e outra.
Também ficaram os símbolos. Reticências longas, pontos de exclamação dobrados e emoticons atravessaram para o papel, porque a editora apostou que a leitora queria reconhecer no livro o texto que tinha lido na tela.
Para quem escreve em português, o molde funciona como exercício de corte. Três passos:
| 1 | Pegue uma cena sua e reescreva cada frase até caber numa linha da tela do celular. | | | | 2 | Corte toda descrição que a personagem não sente nem usa na cena. | | | | 3 | Termine o trecho numa linha que obrigue a leitora a abrir a próxima tela. | | |
O exercício não transforma ninguém em Mika. Mostra, porém, quanto peso a frase carregava sem precisar.
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