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Keith Blount aprendeu a programar para destravar o próprio romance

Sem programa capaz de mostrar o livro inteiro na tela, um professor de inglês escreveu o dele e lançou o Scrivener em 2007.

Quadro de cortiça com fichas de cenas presas ao lado de um laptop.

O Scrivener pôs o quadro de fichas na tela.

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Um quadro de cortiça, uma pilha de fichas pautadas, um manual de programação para iniciantes. Os três dividiam a mesma mesa na Inglaterra do começo dos anos 2000 e serviam a um projeto só: terminar um romance que não saía do lugar.

O dono da mesa se chamava Keith Blount, professor de inglês, leitor voraz e autor de um manuscrito longo, cheio de cenas soltas. Ele sabia o que queria contar. O problema estava na ferramenta onde o texto morava.

O processador de texto da época tratava o livro como um rolo contínuo. Capítulo 1 em cima, capítulo 30 lá embaixo, centenas de páginas no meio. Para mudar uma cena de lugar, o autor recortava, rolava a tela por minutos e colava, torcendo para não perder nada no caminho.

Blount fazia o trabalho de estrutura fora do computador. Escrevia o resumo de cada cena numa ficha, prendia as fichas no quadro de cortiça e as trocava de posição com as mãos. Depois voltava ao arquivo e tentava reproduzir, no texto, a ordem que tinha montado na parede.

Ele procurou um programa que juntasse as duas metades do serviço: o quadro com as fichas e o texto corrido, lado a lado, ligados entre si. Testou o que havia à venda. Nenhum mostrava o livro inteiro como um conjunto de peças móveis.

Então tomou uma decisão estranha para um professor no meio de um romance. Parou a ficção e foi aprender a programar, sozinho, com livros e fóruns, nas horas livres.

O resultado saiu em janeiro de 2007, para computadores Mac, com o nome Scrivener, palavra inglesa para o escrivão de aluguel, o profissional que redigia documentos para quem não sabia escrever.

O programa virou ferramenta de romancistas, roteiristas, jornalistas e acadêmicos no mundo inteiro. A primeira seção volta ao problema que Blount tentava resolver, e mostra por que um arquivo único travava o livro dele.

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I  A DOSE

O romance preso num rolo de texto

Keith Blount, professor de inglês britânico, trabalhava num romance longo quando percebeu que o obstáculo estava no formato do arquivo, e não nas ideias. O texto existia, mas ficava espalhado por um documento só, sem jeito de enxergar a forma do livro.

Quem escreve ficção longa conhece o sintoma. A trama tem dezenas de cenas, cada uma com função própria, e o autor precisa saber onde cada peça está para decidir o que vem depois. Num arquivo contínuo, a cena 12 some debaixo da cena 11.

O trabalho dobrado

A saída de Blount era manter dois livros ao mesmo tempo. Um no papel, em fichas presas na cortiça, onde ele enxergava a estrutura. Outro na tela, onde estava o texto de fato. Cada mudança na parede exigia uma cirurgia no arquivo.

O método funciona em romance curto. Num manuscrito de centenas de páginas, porém, as duas versões se desencontram. A ficha diz uma ordem, o arquivo guarda outra, e o autor gasta o tempo de escrita conferindo qual das duas está certa.

Blount testou os programas disponíveis no começo dos anos 2000. Havia processadores de texto, programas de roteiro e cadernos digitais de anotação. Cada um resolvia um pedaço. Nenhum deixava o autor quebrar o livro em partes e, ao mesmo tempo, ler as partes juntas.

O livro travou no formato do arquivo, não na cabeça de quem escrevia.

A decisão de programar

Sem encontrar o programa, ele resolveu construí-lo. Não tinha formação em computação. Aprendeu a linguagem usada nos aplicativos de Mac, o Objective-C (a linguagem de programação da Apple na época), com livros técnicos e perguntas em fóruns de programadores.

O aprendizado tomou anos de noites e fins de semana. O romance ficou de lado. Blount admite em entrevistas que o programa acabou ocupando o espaço do livro que deveria ajudar a terminar.

Em 2006, ele abriu uma empresa pequena para vender o software, a Literature & Latte (em português, Literatura e Café com Leite). Em janeiro de 2007, o Scrivener 1.0 chegou ao público, com versão de teste gratuita e licença paga.

O nome veio do ofício antigo. Scrivener, em inglês, é o escrivão de aluguel, quem copiava e redigia textos para os outros. A palavra ficou famosa na literatura com Bartleby, o Escrivão, conto de Herman Melville publicado em 1853.

 
 

II  NA PÁGINA

Fichas de cortiça dentro da tela

O Scrivener resolveu o problema de Keith Blount quebrando o livro em pedaços pequenos, cada um num documento próprio, todos guardados num só projeto. Uma cena vira um arquivo. Um capítulo vira uma pasta com cenas dentro.

Na lateral da tela fica o binder (em português, fichário), a lista de todas as partes do livro. Para mudar uma cena de lugar, o autor arrasta o item na lista. Nada de recortar, rolar e colar: a cena muda de posição inteira, com o texto junto.

O quadro de cortiça virtual

A segunda vista do programa reproduz a parede de Blount. Cada documento aparece como uma ficha no corkboard (quadro de cortiça), com título e resumo curto. O autor reorganiza as fichas com o mouse, e a ordem nova vale também para o texto.

A terceira vista fecha o circuito. No modo que o programa chama de Scrivenings (algo como os escritos reunidos), o autor seleciona várias cenas e as lê como um texto corrido, emendadas, e pode editar ali mesmo. Cada mudança volta para o documento de origem.

Com o livro em peças, mover uma cena deixou de ser cirurgia e virou arrastar uma ficha.

Material de pesquisa ao lado

O projeto guarda também o que não entra no livro: fotos, PDFs, páginas da internet, notas de personagem. O autor abre a pesquisa numa metade da tela e escreve na outra, sem trocar de programa.

No fim, o recurso de compilar junta todas as partes num arquivo único, no formato que o autor escolher: documento de Word, PDF para impressão ou ePub (o formato padrão de livro digital). A divisão em pedaços serve à escrita; o leitor recebe o livro inteiro.

Há também o modo de composição, uma tela cheia sem menus, só a página. E as metas de palavras: o autor define quantas quer escrever na sessão e acompanha uma barra que enche até o número marcado.

Cada documento guarda ainda um campo de notas e um rótulo de cor, que o autor usa para marcar ponto de vista, estado da revisão ou linha do tempo. Um romance com três narradores ganha três cores, e o quadro mostra de relance quem conduz cada cena.

O método tem custo. O programa exige horas de aprendizado, e muita gente desiste nas primeiras semanas, diante de tantos painéis. Blount sempre respondeu que o autor pode usar só o fichário e o editor, e ignorar o resto até precisar.

 

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III  O MERCADO

Licença única numa cidade da Cornualha

A Literature & Latte, empresa de Keith Blount, cresceu a partir de Truro, cidade pequena da Cornualha, no sudoeste da Inglaterra, longe dos polos de tecnologia. A equipe começou com ele e ganhou poucos funcionários ao longo dos anos.

O modelo de venda foge do padrão atual do software. O Scrivener sempre foi vendido com licença única: o autor paga uma vez e usa a versão comprada sem mensalidade. Atualizações grandes têm preço próprio, com desconto para quem já é cliente.

O caminho até o Windows

Por quatro anos, o programa existiu só para Mac. A versão para Windows saiu em 2011, escrita por outra equipe a partir do mesmo desenho. A versão para iPad e iPhone chegou em 2016, depois de anos de pedidos dos usuários.

O Scrivener 3, reformulação completa para Mac, foi lançado em novembro de 2017. A edição equivalente para Windows atrasou e só saiu em 2021, o que gerou anos de reclamação em fóruns de escritores.

Um programa feito por quem escreve vendeu ao escritor a ferramenta que ele mesmo procurava.

A parceria com o NaNoWriMo

O crescimento veio por boca a boca e por uma parceria com o NaNoWriMo (sigla em inglês para Mês Nacional de Escrita de Romances), desafio anual em que participantes tentam escrever 50 mil palavras em novembro. Quem cumpria a meta ganhava desconto na licença do Scrivener.

O acordo casava os dois públicos. O desafio atraía gente com um romance comprido pela frente, e o programa tinha sido criado para manuscrito comprido. O participante testava o software durante o mês e comprava ao terminar.

Para uma empresa pequena, sem verba de publicidade, o arranjo trazia cliente novo todo ano, no mesmo mês, e já acostumado ao programa.

E o romance de Blount? Ele mesmo contou que o livro que motivou o programa nunca chegou às livrarias. O manuscrito ficou parado enquanto a empresa crescia. O programa feito para destravar um romance destravou os de milhares de outros autores, e o dele ficou na gaveta.

Três passos para enxergar o seu livro inteiro

O método de Blount funciona até sem o programa. Três passos tiram a estrutura do arquivo único:

1. Divida o manuscrito em cenas e dê a cada uma um título curto, de até cinco palavras.

2. Escreva o resumo de cada cena numa ficha, uma linha só, e espalhe as fichas na mesa na ordem atual.

3. Troque de lugar as fichas que parecem fora de posição e só então mexa no texto.

Hoje: separe 10 cenas do seu manuscrito, escreva 1 ficha para cada em 15 minutos e ponha as 10 na mesa antes de dormir.

 
 
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