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Hunter Thompson datilografou O Grande Gatsby inteiro

Aos 21 anos, na redação da Time, o futuro autor de Medo e Delírio copiou Fitzgerald para sentir o ritmo nas mãos.

Máquina de escrever antiga numa mesa de redação, com um exemplar de O Grande Gatsby aberto e folhas datilografadas empilhadas.

O romance inteiro, passado a limpo à máquina

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Uma máquina de escrever, um exemplar de O Grande Gatsby, uma resma de papel em branco. Os três dividiam a mesa de um copyboy (o contínuo que leva papéis entre as mesas da redação) da revista Time, em Nova York, em 1959.

O rapaz se chamava Hunter S. Thompson, tinha 21 anos e ganhava a vida carregando o texto dos outros. Nas horas vagas, fazia algo que os colegas achavam estranho: copiava, letra por letra, o romance que F. Scott Fitzgerald publicou em 1925.

Thompson não queria plagiar nem vender a cópia. Queria saber como era escrever daquele jeito. Com as frases passando pelos próprios dedos, ele sentia onde Fitzgerald respirava, onde a frase acelerava e onde ela parava.

O romance tem pouco menos de 50 mil palavras em inglês, o tamanho de um livro curto. Datilografar tudo exige dias de trabalho mecânico, sem uma ideia própria no papel, só a disciplina de não pular nada.

Ele repetiu o exercício com Adeus às Armas, de Ernest Hemingway. Eram dois estilos opostos: Fitzgerald, de frase longa e musical; Hemingway, de frase curta e seca. Thompson queria as duas ferramentas na mão.

A redação da Time, naquele fim de década, era uma das mais disputadas do país. Os redatores em volta dele escreviam textos que o país inteiro lia toda semana, e o contínuo de camisa amarrotada passava as noites redigitando um romance de 34 anos antes.

Anos depois, o copyboy virou o autor de Hell's Angels (1966) e de Medo e Delírio em Las Vegas (1972), livros que ajudaram a criar o jornalismo gonzo (a reportagem em que o repórter vira personagem da própria história).

Para quem escreve o primeiro livro, a cena da redação guarda um método barato. Copiar um autor que você admira, à mão ou no teclado, até o ritmo dele virar referência no seu ouvido.

A seção I conta quem era o copista, o que ele copiou e o que sobrou daquelas folhas.

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I  A DOSE

O contínuo que copiava romances

Hunter Stockton Thompson nasceu em Louisville, no Kentucky, em 1937, e chegou a Nova York em 1958, depois de dois anos na Força Aérea americana, onde editou o jornal esportivo de uma base na Flórida. Na cidade, conseguiu a vaga de copyboy na Time.

O trabalho era braçal: buscar café, levar provas de página, entregar recados entre editores. A passagem durou pouco. Ele foi demitido em 1959, e os biógrafos registram o motivo como insubordinação.

Nessa temporada curta, ele datilografou O Grande Gatsby inteiro. O romance conta a história de Jay Gatsby, milionário de origem nebulosa que dá festas em Long Island para reconquistar Daisy Buchanan, e é narrado pelo vizinho dele, Nick Carraway.

Thompson trocou a pergunta do leitor, o que acontece depois, pela pergunta do escritor, por que esta palavra está aqui.

O motivo aparece em várias entrevistas dele ao longo da vida: queria saber, no corpo, como era escrever frases daquele nível. Ler mostrava o resultado. Copiar mostrava as decisões, uma por uma.

A escolha de Gatsby tinha lógica. O livro é curto, cabe em nove capítulos e tem frases construídas para ficar na memória em quase toda página. Para um rapaz que sonhava ser romancista, era o manual mais compacto à mão.

Thompson tentou mesmo o romance. Escreveu Prince Jellyfish no fim dos anos 1950, recusado pelas editoras, e depois The Rum Diary, sobre os meses como repórter em Porto Rico, que só virou livro em 1998.

O jornalismo acabou vencendo a disputa. A marca de Fitzgerald, porém, ficou. Quem lê Medo e Delírio em Las Vegas com Gatsby na memória reconhece o parentesco: os dois livros olham o sonho americano por um narrador que está dentro da festa e fora dela.

O subtítulo de Medo e Delírio deixa o parentesco explícito: Uma Viagem Selvagem ao Coração do Sonho Americano.

Quanto às folhas datilografadas, não há registro público de que tenham sobrevivido. Nenhum arquivo ou leilão conhecido exibiu a cópia; o que ficou foi o relato do próprio Thompson e de quem conviveu com ele naquela época.

 
 

II  NA PÁGINA

A cópia que treina o ouvido

Copiar um parágrafo ensina ritmo de um jeito que a leitura não ensina, porque a mão passa por cada vírgula. Lendo, o olho pula trechos; copiando, nenhum sinal fica de fora.

O exercício tem nome no ofício: copywork (cópia de treino, a transcrição literal de um texto modelo). A prática é antiga e tem adeptos famosos.

Benjamin Franklin descreve uma variação na Autobiografia, que começou a escrever em 1771. Ainda adolescente, ele lia ensaios da revista inglesa The Spectator, anotava as ideias, esperava alguns dias e reescrevia o texto com palavras próprias. Depois comparava com o original e corrigia as próprias falhas.

Joan Didion contou à The Paris Review, em 2006, que na adolescência datilografava trechos de Hemingway para entender como as frases dele funcionavam por dentro.

Na prática, a cópia revela detalhes que a leitura esconde: quantas frases curtas o autor coloca depois de uma longa, onde ele abre parágrafo, que verbo escolhe para uma cena de ação. São escolhas pequenas, repetidas em centenas de páginas, e a soma delas forma o que o leitor chama de voz.

Os dois métodos treinam músculos diferentes. A cópia literal, a de Thompson, treina ritmo e pontuação. A reescrita de memória, a de Franklin, treina escolha de palavra, porque obriga a comparar a sua versão com a do mestre, linha por linha.

Um livro inteiro pesa demais para quem trabalha de dia e escreve à noite. Uma página por dia já coloca o ouvido em contato diário com um ritmo melhor que o seu.

O treino pode ser feito assim:

1Escolha um autor que escreve do jeito que você quer escrever, no mesmo gênero do seu livro.
 
2Copie 1 página por dia, à mão ou no teclado, sem corrigir e sem pular nada.
 
3Leia a página copiada em voz alta e marque com um traço os pontos onde você respirou.
 
4No terceiro dia, reescreva de memória um parágrafo copiado e compare com o original.
 
5Anote numa linha o que o autor fez e você não faria.
 

O risco é virar imitação. Thompson copiou Fitzgerald e Hemingway e terminou escrevendo como nenhum dos dois. Copiar dois estilos diferentes ajuda a separar o que pertence ao autor do que pertence à língua. Quem copia um autor só tende a soar como ele por um tempo; quem alterna dois ou três acaba com um terceiro jeito, o próprio.

 

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III  O MERCADO

O fracasso que virou clássico

No lançamento: a editora Charles Scribner's Sons publicou O Grande Gatsby em abril de 1925. Segundo o biógrafo Matthew J. Bruccoli, em Some Sort of Epic Grandeur (1981), a primeira tiragem foi de 20.870 exemplares, e uma segunda, de 3 mil, saiu em agosto e encalhou em parte no depósito.

Na vida do autor: Fitzgerald morreu em Hollywood, em 1940, aos 44 anos, convencido de que o livro tinha fracassado. Gatsby vendeu menos que Este Lado do Paraíso (1920), o romance de estreia dele.

Na guerra: em 1945, o Council on Books in Wartime, entidade de editores americanos, incluiu Gatsby nas Armed Services Editions (edições de bolso para as Forças Armadas). Segundo o próprio conselho, 155 mil exemplares foram distribuídos a soldados.

Na escola: depois da guerra, o romance entrou no currículo das escolas americanas e passou a ocupar as listas de leitura obrigatória, onde segue até hoje. Para boa parte dos leitores americanos, o primeiro contato com Fitzgerald acontece numa carteira escolar, com o livro marcado a lápis.

No domínio público: em 1º de janeiro de 2021, 95 anos depois da publicação, Gatsby entrou em domínio público nos Estados Unidos, e edições novas de várias editoras chegaram às lojas.

Nas medidas do caso:

O Grande Gatsby1925
Thompson na Time1958 a 1959
Hell's Angels1966
Medo e Delírio em Las Vegas1972
Domínio público nos EUA2021

O ritmo que Thompson queria nos dedos está inteiro na última frase do romance:

“E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados sem cessar de volta ao passado.”

> F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby, 1925

No que vale para o independente: quem publica pela Kindle Direct Publishing (KDP), a plataforma de autopublicação da Amazon, disputa o leitor na amostra grátis das primeiras páginas. Ritmo é o que segura o leitor nelas, e ritmo se treina. Um autor com o ouvido treinado percebe na revisão a frase que arrasta e corta o excesso antes de publicar.

No que o caso prova: que um livro pode vender pouco no lançamento e virar escola para quem escreve. Um dos leitores mais atentos de Gatsby, três décadas depois, era um contínuo desconhecido de uma revista semanal.

No que ele não prova: que copiar garante estilo. Muita gente copiou Gatsby em sala de aula sem virar Thompson; a cópia treina o ouvido, e o livro próprio continua sendo trabalho à parte.

Quem copia aprende onde a frase respira. O livro próprio começa quando a mão já conhece o ritmo.

“Qual autor você copiaria, página por página, para aprender a escrever o seu livro?”

Hoje: copie 1 página do autor que você mais admira, à mão ou no teclado, antes de dormir.

 
 
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