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Elmore Leonard e a regra que corta capítulo

Em 2001, o autor de Get Shorty publicou 10 regras no New York Times. A última manda tirar a parte que o leitor pula.

Elmore Leonard revisa um manuscrito à mão, com cortes a caneta, num escritório em 2001.

A lista de 2001 cabia numa página de jornal.

▼
 

Um parágrafo sobre o tempo, um prólogo de três páginas, um “exclamou ele, furioso”. Os três estão na lista de cortes que Elmore Leonard publicou no jornal The New York Times em 16 de julho de 2001.

Leonard tinha 75 anos e uma carreira inteira de romances policiais e de faroeste. Escrevia à mão, em blocos de papel amarelo, e passava a limpo na máquina de escrever. Os livros dele viravam filme com frequência rara para um autor de gênero.

O texto saiu numa série do caderno de cultura chamada Writers on Writing (escritores falando sobre escrever). Cada convidado contava como trabalhava. Leonard preferiu entregar uma lista curta, numerada, com tom de bilhete deixado na mesa de um aprendiz.

O título que o jornal deu ao artigo já anunciava o humor: “Easy on the Adverbs, Exclamation Points and Especially Hooptedoodle”, algo como “Vá com calma nos advérbios, nos pontos de exclamação e principalmente na enrolação”.

Hooptedoodle é palavra inventada. Leonard a tirou de John Steinbeck, que a usou no romance Doce Quinta-Feira, de 1954, para nomear o trecho em que o narrador para a história e se perde em paisagem, opinião e floreio.

As nove primeiras regras são proibições miúdas, de frase e de página. Nada de abrir o livro pelo clima. Nada de verbo enfeitado para marcar diálogo. Nada de “de repente”.

A décima muda de escala. Ela não mira a frase. Mira o bloco inteiro de texto que o leitor reconhece de longe como dispensável e atravessa com os olhos sem ler.

Esse salto explica a vida longa da lista. Ela serve para revisar o primeiro parágrafo e também para decidir se um capítulo inteiro, já escrito e já polido, merece ficar no livro.

A seção I mostra as dez regras na ordem em que Leonard as escreveu e o argumento que amarra todas elas.

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I  A DOSE

Dez proibições e uma frase

Elmore Leonard publicou as dez regras juntas, numeradas, cada uma com um comentário curto embaixo. A ordem vai do começo do livro para o miolo, como quem revisa um manuscrito da primeira página em diante.

A lista, traduzida e resumida:

1Nunca abra um livro falando do tempo.
 
2Evite prólogos.
 
3Nunca use outro verbo além de “disse” para marcar diálogo.
 
4Nunca use advérbio para modificar o “disse”.
 
5Mantenha os pontos de exclamação sob controle.
 
6Nunca use “de repente” nem “o inferno se instalou”.
 
7Use dialeto regional com moderação.
 
8Evite descrever as personagens em detalhe.
 
9Não detalhe demais lugares e objetos.
 
10Tente deixar de fora a parte que os leitores tendem a pular.
 

Os comentários dão o tom. Sobre a exclamação, Leonard fixou uma cota: duas ou três a cada 100 mil palavras de prosa. Quem passa da cota, segundo ele, está gastando a pontuação sem efeito.

Sobre o “disse”, o argumento é de invisibilidade. O leitor não repara no verbo e segue a fala. “Rosnou”, “sibilou” e “admitiu” chamam o autor para dentro da cena, e o leitor sai dela.

A regra 9 traz exceções nomeadas. Leonard cita Margaret Atwood e Jim Harrison como autores que descrevem lugar e gente com tanta força que a regra não se aplica a eles.

As nove primeiras regras são exemplos da décima.

O próprio artigo diz que todas as regras servem a um fim só: manter o autor fora da página. Leonard queria que o leitor esquecesse que alguém escreveu aquele livro.

Ele fechou a lista com uma frase que resume as dez:

“If it sounds like writing, I rewrite it.” (Se parece escrita, eu reescrevo.)

Elmore Leonard, “Easy on the Adverbs, Exclamation Points and Especially Hooptedoodle”, The New York Times, 2001

“Parecer escrita”, para ele, era a frase que se exibe: a metáfora que pede aplauso, o adjetivo empilhado, o diálogo que soa como discurso. A correção nunca era enfeitar, era voltar à fala simples de uma pessoa contando o caso.

 
 

II  NA PÁGINA

O que o olho pula

O comentário da regra 10 é o mais citado do artigo. Leonard pede ao escritor que pense no que ele mesmo pula quando lê um romance:

“Think of what you skip reading a novel: thick paragraphs of prose you can see have too many words in them.” (Pense no que você pula ao ler um romance: parágrafos grossos de prosa que dá pra ver que têm palavras demais.)

Elmore Leonard, “Easy on the Adverbs, Exclamation Points and Especially Hooptedoodle”, The New York Times, 2001

O detalhe está no verbo ver. O leitor decide pular antes de ler, pela mancha cinzenta na página. Um bloco sem fala, sem quebra e sem ação avisa de longe que ali a história parou.

Leonard nota que o leitor quase nunca pula o diálogo. A fala anda, revela gente e cria tensão em poucas linhas. O que se pula é o entorno: o clima, a decoração, a reflexão do narrador sobre o que acabou de acontecer.

A regra também tem limite. Leonard admite a exceção de Steinbeck, que separou a enrolação em capítulos próprios de Doce Quinta-Feira, com aviso no título, para quem quisesse saltar. A trama nunca dependia deles.

Do parágrafo ao capítulo

A pergunta da regra 10 escala sem perder força. Se o leitor pula um parágrafo grosso, também pula um capítulo inteiro que não muda nada na história.

O teste de capítulo é seco. Quem quer o quê aqui, o que impede, e o que muda até a última linha? Se nada muda, o leitor sente a estagnação mesmo sem saber dizer por quê, e começa a folhear.

Capítulo de transição é o suspeito habitual. A personagem viaja, chega, se instala, toma café, lembra do passado. Tudo bem escrito, tudo dispensável, porque a cena seguinte funcionaria igual sem ele.

O capítulo que o autor mais gostou de escrever costuma ser o primeiro a cair no teste.

Para aplicar a regra 10 num manuscrito terminado, três passos:

1Escreva, ao lado de cada capítulo, uma frase dizendo o que muda nele.
 
2Marque todo capítulo em que a frase repete a do capítulo anterior.
 
3Leia a história pulando os marcados e veja se algum leitor sentiria falta.
 

O que sobrevive ao corte raramente some por inteiro. Uma informação útil do capítulo cortado costuma caber numa linha de diálogo da cena seguinte, dita por quem tem interesse nela.

A lembrança do passado entra pela mesma porta. Em vez de um capítulo inteiro de infância, a personagem solta uma frase sobre o pai no meio de uma briga, e o leitor recebe a informação sem sair da cena que já o prendia.

 

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III  O MERCADO

Do jornal à estante

O artigo de 2001 circulou por anos em oficinas de escrita, fotocopiado e colado em blogs. Em 2007, a editora William Morrow transformou a lista num livro de presente, Elmore Leonard's 10 Rules of Writing.

O volume é fino de propósito. Traz uma regra por página dupla, ilustrações em preto e branco de Joe Ciardiello e o comentário original, quase sem acréscimo. O formato aplica a regra 10 no próprio objeto.

Leonard tinha autoridade de vendas para dar conselho. Começou nos anos 1950 com contos de faroeste para revistas e migrou para o policial nos anos 1970, com tramas passadas em Detroit e na Flórida.

Hollywood comprou dezenas de histórias dele. Get Shorty, de 1990, virou filme em 1995 com John Travolta. Rum Punch, de 1992, virou Jackie Brown, de Quentin Tarantino, em 1997.

O diálogo de Leonard chegava ao roteiro quase sem reescrita.

O conto Fire in the Hole, de 2001, deu origem à série Justified, que ficou no ar de 2010 a 2015. Os roteiristas da série usavam uma pulseira com as letras WWED (o que Elmore faria?) como lembrete do estilo.

Em 2012, a National Book Foundation, entidade que entrega o National Book Award, deu a ele a medalha por contribuição destacada às letras americanas. Era a primeira vez que um autor de policial recebia o prêmio.

A lista seguiu viva depois da trajetória dele, encerrada em agosto de 2013, em Michigan. O jornal britânico The Guardian pediu a dezenas de autores, em 2010, as próprias dez regras, numa série inspirada diretamente no artigo de Leonard.

A trajetória da lista:

Doce Quinta-Feira1954
Get Shorty1990
Artigo no Times2001
Lista vira livro2007
Série do Guardian2010
Medalha da fundação2012

Para quem publica hoje, o peso comercial da regra 10 é direto. O leitor que pula um capítulo pode pular o seguinte e largar o livro, e livro largado não gera indicação.

A conta pesa mais para o autor estreante. A amostra grátis das lojas on-line mostra só as primeiras páginas, e um prólogo lento ou um capítulo de chegada gasta justamente o trecho que decide a compra.

“Qual capítulo do seu livro você pularia se fosse o leitor?”

Hoje: escolha 1 capítulo do seu manuscrito, escreva em 1 frase o que muda nele e, se a frase não sair em 10 minutos, marque o capítulo para corte.

 
 
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