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Dostoiévski ditou um romance em 26 dias
Uma cláusula assinada em 1865 entregava nove anos da obra inteira a outro homem se o romance novo não chegasse pronto em novembro de 1866.
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A voz ditando enquanto a taquigrafia acompanha
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Prazo que você mesmo marcou custa zero. É uma linha no calendário, aceita renegociação toda manhã, e o manuscrito chega ao fim do mês com o mesmo número de páginas que tinha no começo.
Prazo com preço funciona de outro jeito. Existe alguém do outro lado esperando a entrega, existe um valor escrito no papel, e a sessão de escrita para de disputar espaço com a louça, a série e a caixa de entrada.
Falta a segunda peça, que é o método. Quem escreve travado escreve devagar porque revisa dentro da própria frase: digita seis palavras, apaga quatro, volta ao começo do parágrafo. No fim de uma hora existem trinta palavras limpas e nenhuma cena pronta.
A voz não permite o mesmo movimento. Falar a cena em voz alta empurra o texto para frente, porque a fala não tem tecla de apagar, e o que sai é rascunho bruto, do tamanho que rascunho tem que ter.
A conta de quem dita chega a ser desconfortável. Uma hora de fala contínua entrega entre mil e quinhentas e três mil palavras sujas. A mesma hora digitada com revisão embutida entrega trezentas, e nenhuma delas está pronta mesmo assim.
O texto ditado chega torto, com repetição, muleta e frase que começa duas vezes. A transcrição de hoje é pior do que a página digitada de hoje, e continua sendo melhor negócio: versão ruim inteira se conserta, versão limpa pela metade não.
Existe uma terceira peça, e é a que quase ninguém monta. Alguém que receba a fala e devolva a página limpa na manhã seguinte, todo dia, sem depender da sua disposição de transcrever depois do jantar.
Com as três montadas, o rascunho deixa de ser questão de disciplina e vira questão de logística. Data com custo, cena escolhida antes de abrir a boca, e as páginas da sessão anterior já passadas a limpo em cima da mesa quando você senta.
A régua de hoje vem de um contrato assinado na Rússia em 1865, com uma cláusula que cobrava um romance inteiro em data marcada e um preço fora de escala pelo atraso.
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I A DOSE
A cláusula que valia nove anos de obra
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Vinte e seis dias para um romance inteiro. Veja o arranjo que ele montou entre o contrato e a última página.
Fiódor Dostoiévski assinou, em julho de 1865, um contrato que colocava nove anos da própria obra em jogo. O editor Fiódor Stellóvski pagou três mil rublos pelo direito de publicar uma edição completa dos livros já escritos, e a mesma assinatura trazia uma segunda exigência: um romance inédito entregue até 1º de novembro de 1866.
A cláusula do atraso não cobrava multa em dinheiro. Se o romance novo não chegasse na data, Stellóvski passava a ter o direito de publicar tudo o que o autor escrevesse nos nove anos seguintes, sem pagar nada por nenhum título.
O adiantamento durou pouco. Boa parte foi direto para credores, e parte das dívidas estava justamente na mão do editor, que tinha comprado títulos dele por fora.
Ao longo de 1866, o autor passou o ano ocupado com outro livro, publicado em fatias na revista O Mensageiro Russo. O romance prometido a Stellóvski ficou para depois, mês após mês.
No começo de outubro restavam menos de quatro semanas de prazo e o livro novo não tinha uma linha escrita. Escrever à mão, no ritmo dele, era conta que não fechava.
Um amigo sugeriu a saída técnica: contratar uma estenógrafa. O professor de taquigrafia Pável Ólkhin indicou a melhor aluna da turma, Anna Grigórievna Snítkina, de vinte anos.
Ela chegou ao apartamento na manhã de 4 de outubro de 1866, com caderno e lápis, e ouviu o combinado. Ele ditava, ela taquigrafava, levava as notas para casa e passava tudo a limpo à noite.
Na manhã seguinte ela voltava com as páginas prontas. Ele corrigia a caneta o que ela tinha transcrito e recomeçava a ditar do ponto exato onde a cena tinha parado.
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Ele não passou a escrever mais rápido do que sabia. Ele trocou a máquina: pôs a voz no lugar da mão e uma pessoa esperando páginas todo dia.
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A rotina rendeu vinte e seis dias de trabalho, de 4 a 29 de outubro. No fim deles existia um romance inteiro, O Jogador, sobre um tutor arruinado na mesa de roleta de uma cidade de águas alemã.
O livro não saiu como apêndice de nada. Tem cena, arco e fecho, e ficou pronto no mesmo mês em que o autor ainda devia a parte final do outro romance à revista.
A entrega virou o segundo problema. No dia do vencimento o editor não estava na cidade, e o escritório dele se recusou a receber o pacote com o original.
Por orientação de um advogado, o autor levou o manuscrito a uma delegacia e entregou o pacote a um oficial de polícia, com recibo e data. O recibo salvou os nove anos de obra.
Fechado O Jogador, ele voltou para a parte final do romance que devia à revista e entregou o livro ainda naquele fim de ano.
Quatro semanas antes, o mesmo homem tinha zero páginas escritas e um contrato que valia a obra inteira.
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II NA PÁGINA
Uma hora de voz, mil palavras na mesa
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Ditar não é escrever mais rápido, é escrever sem voltar. A regra da sessão de hoje é uma só: a frase sai inteira pela boca antes de qualquer tecla encostar nela.
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Primeira peça, o prazo com preço. Marque a data de entrega e amarre um custo real nela: dinheiro já recebido, capa encomendada, leitor pagante avisado. Prazo sem custo volta a ser sugestão na primeira semana ruim.
Segunda peça, a cena escolhida antes. Entre na sessão sabendo em uma linha o que vai contar: quem entra, o que a pessoa quer, o que muda até o fim. Ditar sem alvo devolve divagação transcrita.
Terceira peça, o relógio curto. Vinte e cinco minutos de fala contínua, sem parar para procurar palavra. Quando a palavra não vier, diga a palavra errada mesmo e siga em frente, porque o conserto é trabalho da manhã seguinte.
Quarta peça, a proibição de voltar. Nada de ouvir o áudio no meio da sessão. Frase não se corrige pela voz, e quem reouve grava a mesma cena três vezes e termina o dia sem página nenhuma.
Quinta peça, o passador a limpo. A transcrição precisa estar pronta antes da próxima sessão, feita por você à noite ou pela transcrição automática do telefone. Áudio não transcrito vira dívida, e dívida de áudio some dentro da pasta.
Sexta peça, a correção da manhã. Leia a página transcrita com caneta na mão, corte muleta e repetição, e marque entre colchetes o que falta pesquisar. Não pare para pesquisar, a pesquisa é outra sessão.
Anna Grigórievna descreveu a rotina nas Memórias dela, publicadas em 1925: o ditado ocupava a tarde, a transcrição ocupava a noite dela, a correção ocupava a manhã dele. Três turnos, três tarefas, nenhuma das três esperando o humor certo para começar.
O arranjo tem um efeito colateral que aparece rápido. Escrever com alguém esperando as páginas transforma a sessão em compromisso com outra pessoa, e compromisso com outra pessoa sobrevive ao dia ruim.
Quatro defeitos aparecem já na primeira semana. O primeiro é ditar sem cena definida, o que devolve dez páginas de rodeio e nenhuma ação.
O segundo é transcrever com atraso. Com duas sessões gravadas e nenhuma transcrita, o autor perde o fio do que já contou e passa a repetir cena.
O terceiro é julgar o texto ditado com a régua do texto revisado. A transcrição é matéria bruta, vai parecer amadora na leitura, e existe para ser cortada, não para ser mostrada.
O quarto é achar que o método exige uma estenógrafa contratada. As peças que fazem o trabalho são a data com custo, a cena escolhida e a página limpa esperando na mesa, e o telefone no bolso cobre a parte técnica.
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