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ED 011

Dickens escreveu Um Conto de Natal em seis semanas

O editor ameaçou cortar 50 libras por mês do adiantamento, e o livro precisava estar pronto contra uma data de Natal que ninguém adia.

Exemplar de capa vermelha com bordas douradas e gravura pintada à mão aberto sobre a bancada de uma oficina de impressão.

Borda dourada e gravura pintada à mão

 

Existem dois tipos de prazo, e só um deles costuma render livro.

O primeiro é o prazo que o autor inventa para si mesmo. Terminar o rascunho em março, mandar para o leitor de confiança na Páscoa, publicar antes de julho. Ninguém além dele conhece a data, e é por essa razão que ela pode ser empurrada em silêncio, quantas vezes forem necessárias.

O segundo é o prazo que o calendário do mundo já marcou. A feira abre no dia 12. O casamento é no sábado. O Natal cai em 25 de dezembro e não vai cair em outro dia. Esse prazo não aceita conversa porque não pertence a quem escreve.

A diferença entre os dois não está na força de vontade. Está em quem paga a conta do atraso. No prazo inventado, adiar custa uma linha nova na agenda. No prazo do mundo, adiar custa o ano inteiro, porque livro de Natal que chega em janeiro não é livro atrasado, é livro sem comprador.

O prazo externo cobra uma coisa que o prazo de gaveta nunca cobra: decidir o tamanho da obra antes da primeira frase. Se restam seis semanas, o texto tem o tamanho que cabe em seis semanas, e o número de páginas é resolvido no primeiro dia, não na trigésima sessão de escrita.

Existe uma segunda conta correndo em paralelo com a escrita, e quase nenhum autor abre a planilha dela antes de terminar. É a conta de quanto custa fabricar cada exemplar.

Papel, capa, ilustração, acabamento e frete costumam ser escolhidos por gosto, enquanto o livro ainda é projeto. Cada escolha dessas sai do preço de capa antes de qualquer venda, e o que restar depois delas é o lucro do autor.

Um livro pode vender tudo o que foi impresso e ainda assim devolver um quinto do que o autor esperava. Não por falta de leitor, e sim porque a margem já tinha sido gasta na gráfica.

A régua de hoje vem de um volume inglês publicado em 19 de dezembro de 1843, escrito por um homem com o caixa apertado e com uma data no calendário que não se move.

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I  A DOSE

A cláusula de 50 libras que virou livro

Seis semanas de escrita contra uma data que ninguém podia adiar. Veja como o livro ficou pronto.

Em 1843 os editores de Charles Dickens avisaram que iam acionar uma cláusula do contrato. O acordo de Martin Chuzzlewit garantia 200 libras por mês ao autor e previa que a Chapman & Hall podia descontar 50 libras dessa quantia enquanto as vendas não cobrissem o que a casa tinha adiantado.

As vendas não cobriam. Chuzzlewit saía em fascículos mensais e circulava perto de 20 mil exemplares, contra as 50 mil cópias de Nicholas Nickleby quatro anos antes. O autor mais popular da Inglaterra estava vendendo menos do que a própria despesa.

Dickens tinha 31 anos, quatro filhos, um quinto a caminho, a casa de Devonshire Terrace e uma fila de parentes pendurada no orçamento. O corte mensal não era um detalhe contratual, era um buraco no fim de cada mês.

Em 5 de outubro daquele ano ele subiu ao palco do Manchester Athenaeum para falar sobre a educação dos operários. Voltando a pé pela cidade naquela noite, teve a ideia do livro pequeno de Natal.

Começou a escrever em meados de outubro. A entrega tinha data marcada por terceiros: para vender no Natal, o volume precisava estar nas livrarias na terceira semana de dezembro, o que deixava cerca de seis semanas de trabalho.

As seis semanas não estavam livres. Chuzzlewit continuava saindo mês a mês, e cada fascículo tinha o próprio fechamento. O livro de Natal foi escrito por cima de uma obrigação que já ocupava o mês inteiro.

Nenhuma semana estava sobrando quando o texto começou. Ele foi escrito dentro do espaço que já estava tomado, contra uma data que o calendário tinha marcado sozinho.

O método era caminhar. Dickens percorria entre quinze e vinte milhas pelas ruas de Londres na madrugada, algo entre 24 e 32 quilômetros, resolvendo a cena na cabeça antes de sentar para escrevê-la.

O texto ficou pronto no fim de novembro. São cerca de 28 mil palavras em cinco capítulos que ele chamou de estrofes, escritas em seis semanas por um homem que ainda entregava um fascículo por mês.

A Chapman & Hall pôs o volume nas livrarias em 19 de dezembro de 1843, numa tiragem de seis mil exemplares a cinco xelins cada.

Até a véspera de Natal, cinco dias depois, os seis mil exemplares tinham sido vendidos.

Seis semanas de escrita e cinco dias de venda. A parte difícil, no relato de qualquer autor, foi a primeira. O número que decidiu o resultado já estava fechado antes das duas.

 
 

II  NA PÁGINA

Escreva contra uma data que não é sua

Prazo que você mesmo inventa não tem força nenhuma. A regra da semana é achar uma data que já existe fora da sua cabeça e escrever o livro que cabe até ela.

Primeiro movimento, a data emprestada. Procure no calendário uma data pública que converse com o seu tema: uma feira, uma efeméride, um congresso, a virada do ano. Escolha uma e escreva no papel.

Segundo movimento, a contagem para trás. Conte quantas semanas existem entre hoje e a data escolhida e tire duas do total: uma para a revisão e outra para a produção. O número que sobra é o seu prazo real de escrita.

Terceiro movimento, o tamanho que cabe. Multiplique as semanas de escrita pela quantidade de palavras que você comprovadamente escreve numa semana comum, não pela que você gostaria de escrever. O resultado é o tamanho do livro, e ele deixa de ser negociável a partir de agora.

Quarto movimento, o anúncio. Diga a data para pelo menos três pessoas que vão cobrar, ou publique a data em algum lugar público. Prazo que ninguém conhece volta a ser prazo de gaveta na primeira semana ruim.

Quinto movimento, a fatia diária dentro do que já existe. Não espere a agenda abrir. Encaixe a sessão dentro da rotina que já ocupa o dia, no mesmo horário, todos os dias, e trate a sessão como compromisso assumido com terceiro.

Sexto movimento, a caminhada. Separe resolver de escrever. Resolva a cena andando, longe do teclado, e sente apenas para transcrever o que já ficou montado na cabeça. Sessão que começa sem a cena resolvida vira sessão de encarar a tela.

“Fiquei tão afeiçoado ao livrinho que não conseguia deixá-lo de lado nem por um instante, e caminhava quinze e vinte milhas pelas ruas escuras de Londres, muitas noites, quando toda a gente sensata já tinha ido dormir.”

Charles Dickens, carta a Cornelius Felton, 1844

A frase entrega a peça que costuma sumir quando alguém copia o método. O prazo curto não produziu pressa, produziu concentração exclusiva: durante seis semanas não havia um segundo projeto disputando a cabeça dele além do fascículo que já estava contratado.

Três defeitos aparecem já na primeira semana. O primeiro é escolher uma data sem consequência. Se ninguém perde nada quando o dia passa, aquilo é prazo de gaveta com roupa de prazo externo.

O segundo é encurtar o calendário e manter o tamanho do livro. Quem promete 90 mil palavras em oito semanas não escreve mais rápido, escreve até a semana seis e para.

O terceiro é gastar as semanas finais em decisão de produção. Capa, miolo, formato e acabamento entram na conta de dinheiro, não na conta de tempo, e resolver as duas na mesma semana perde as duas.

A prova de que o arranjo funciona aparece cedo. Na terceira semana o texto já tem tamanho definido, data pública e uma fatia diária que ninguém precisa negociar de novo toda manhã.

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III  O MERCADO

O que sobrou das seis mil cópias

No acordo: Dickens não vendeu o livro para a Chapman & Hall. Publicou por comissão, arranjo em que a editora produz e distribui em troca de um percentual, e o autor banca a fabricação inteira e fica com o lucro. A aposta era ganhar bem mais por exemplar.

Na gráfica: a decisão seguinte foi sobre o objeto. Capa de tecido vermelho, letras em ouro, bordas das páginas douradas, quatro gravuras pintadas à mão por John Leech e mais quatro em madeira. Cada exemplar saía caro da produção por escolha do próprio autor.

Na correção: a primeira página de rosto saiu impressa em duas cores e as guardas em verde-oliva. Dickens rejeitou o conjunto e mandou refazer com guardas amarelas, já com a tiragem andando. Mudança de gosto no meio da produção sai do bolso de quem banca.

No preço: mesmo com o objeto caro, ele fixou a capa em cinco xelins para o livro caber no bolso do leitor comum. Custo alto e preço baixo na mesma decisão, tomada antes de o primeiro exemplar sair da prensa.

Na estreia: os seis mil exemplares se esgotaram até 24 de dezembro de 1843. Treze edições saíram até o fim de 1844, e o título nunca mais ficou fora de catálogo.

Na apuração: Dickens esperava cerca de mil libras da primeira edição. Recebeu 230. O primeiro ano inteiro do livro fechou perto de 726 libras, com a tiragem esgotada.

No tribunal: em janeiro de 1844 uma editora lançou uma versão adaptada do texto por um sexto do preço. Dickens processou, ganhou os cinco processos e não recebeu um centavo, porque os réus pediram falência. A conta dos advogados, perto de 700 libras, ficou com ele.

No palco: o mesmo texto continuou pagando por outro caminho. A primeira leitura pública aconteceu em 27 de dezembro de 1853, no salão da prefeitura de Birmingham, diante de cerca de duas mil pessoas. Dickens leu aquele texto em público 127 vezes ao longo da vida.

Na turnê: a série de leituras nos Estados Unidos, entre dezembro de 1867 e abril de 1868, rendeu perto de 19 mil libras. O mesmo texto que tinha deixado 230 libras na estreia.

A distância entre os dois números não está na qualidade da escrita, que é a mesma nos dois casos. Está no formato de entrega e na estrutura de custo de cada um.

Na primeira edição, cada libra de receita passava por papel, ouro, tinta aplicada à mão e reimpressão de página de rosto antes de encostar no autor. Na sala de leitura, passava por um bilhete, um salão alugado e a voz dele.

A escrita levou seis semanas, a margem foi decidida numa tarde de escolhas de acabamento. O texto era o mesmo antes e depois, e a diferença inteira de resultado coube nas linhas de custo que ninguém releu.

"Quanto do preço do seu livro já está gasto antes da primeira venda, e quem decidiu esse número?"

 
 
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No texto, o que os editores da Chapman & Hall ameaçaram fazer com Dickens em 1843?

ACancelar o contrato de Martin Chuzzlewit
BReduzir a tiragem do livro de Natal para 20 mil exemplares
CDescontar 50 libras por mês do adiantamento de 200 libras
DAdiar a publicação do livro para janeiro

Resultado da última edição: 0% acertaram.

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