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No acordo: Dickens não vendeu o livro para a Chapman & Hall. Publicou por comissão, arranjo em que a editora produz e distribui em troca de um percentual, e o autor banca a fabricação inteira e fica com o lucro. A aposta era ganhar bem mais por exemplar.
Na gráfica: a decisão seguinte foi sobre o objeto. Capa de tecido vermelho, letras em ouro, bordas das páginas douradas, quatro gravuras pintadas à mão por John Leech e mais quatro em madeira. Cada exemplar saía caro da produção por escolha do próprio autor.
Na correção: a primeira página de rosto saiu impressa em duas cores e as guardas em verde-oliva. Dickens rejeitou o conjunto e mandou refazer com guardas amarelas, já com a tiragem andando. Mudança de gosto no meio da produção sai do bolso de quem banca.
No preço: mesmo com o objeto caro, ele fixou a capa em cinco xelins para o livro caber no bolso do leitor comum. Custo alto e preço baixo na mesma decisão, tomada antes de o primeiro exemplar sair da prensa.
Na estreia: os seis mil exemplares se esgotaram até 24 de dezembro de 1843. Treze edições saíram até o fim de 1844, e o título nunca mais ficou fora de catálogo.
Na apuração: Dickens esperava cerca de mil libras da primeira edição. Recebeu 230. O primeiro ano inteiro do livro fechou perto de 726 libras, com a tiragem esgotada.
No tribunal: em janeiro de 1844 uma editora lançou uma versão adaptada do texto por um sexto do preço. Dickens processou, ganhou os cinco processos e não recebeu um centavo, porque os réus pediram falência. A conta dos advogados, perto de 700 libras, ficou com ele.
No palco: o mesmo texto continuou pagando por outro caminho. A primeira leitura pública aconteceu em 27 de dezembro de 1853, no salão da prefeitura de Birmingham, diante de cerca de duas mil pessoas. Dickens leu aquele texto em público 127 vezes ao longo da vida.
Na turnê: a série de leituras nos Estados Unidos, entre dezembro de 1867 e abril de 1868, rendeu perto de 19 mil libras. O mesmo texto que tinha deixado 230 libras na estreia.
A distância entre os dois números não está na qualidade da escrita, que é a mesma nos dois casos. Está no formato de entrega e na estrutura de custo de cada um.
Na primeira edição, cada libra de receita passava por papel, ouro, tinta aplicada à mão e reimpressão de página de rosto antes de encostar no autor. Na sala de leitura, passava por um bilhete, um salão alugado e a voz dele.
A escrita levou seis semanas, a margem foi decidida numa tarde de escolhas de acabamento. O texto era o mesmo antes e depois, e a diferença inteira de resultado coube nas linhas de custo que ninguém releu.
"Quanto do preço do seu livro já está gasto antes da primeira venda, e quem decidiu esse número?"
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