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Avellaneda e o Dom Quixote que Cervantes não escreveu

Em 1614 um autor de pseudônimo publicou a continuação do Dom Quixote. Cervantes respondeu em 1615 com a segunda parte e um final sem volta.

O falso Dom Quixote de Tarragona ao lado da Segunda Parte impressa em Madri em 1615.

O livro de Tarragona e a resposta de Madri

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Um prólogo cheio de insultos, uma cidade de impressão longe de Madri, um sobrenome que ninguém conhecia. Os três estavam no mesmo volume, posto à venda em 1614 com um título que todo leitor espanhol reconhecia.

O livro se chamava Segundo tomo del ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha (Segundo tomo do engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha). Saiu em Tarragona, na Catalunha, e trazia na folha de rosto a assinatura do licenciado Alonso Fernández de Avellaneda, natural de Tordesillas.

O problema era simples de enunciar. Miguel de Cervantes tinha publicado a primeira parte do Dom Quixote em 1605, com enorme sucesso, e prometido uma terceira saída do cavaleiro. Nove anos depois, a continuação chegava às livrarias, e não era dele.

O desconhecido não se limitou a pegar o personagem. No prólogo, chamou Cervantes de velho, de maneta e de invejoso, e avisou que ia tirar dele os lucros da segunda parte. A ofensa ao braço tinha alvo preciso: Cervantes perdera o movimento da mão esquerda na batalha naval de Lepanto, em 1571.

Cervantes, àquela altura, escrevia a própria continuação sem pressa. Tinha 67 anos, dividia o tempo com novelas curtas e peças de teatro, e a segunda parte avançava devagar.

O livro de Tarragona mudou o calendário. Em 1615, a Segunda Parte verdadeira saiu em Madri, e o texto trazia marcas de quem tinha lido o rival: um capítulo inteiro dedicado ao falso livro, um personagem roubado de volta e um final escrito para impedir qualquer nova continuação.

Avellaneda nunca foi identificado. Até hoje nenhum documento da época confirma quem se escondia atrás do nome, e os candidatos propostos por estudiosos seguem como hipótese.

A seção I conta quem teria motivo para escrever o falso Quixote, como o livro foi recebido e por que a resposta de Cervantes começou dentro da própria história.

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I  A DOSE

Um rival sem rosto

Alonso Fernández de Avellaneda é um pseudônimo, e a autoria real do falso Quixote segue sem prova até hoje. O que se sabe vem do próprio livro: o texto, o prólogo e a folha de rosto impressa em Tarragona.

A hipótese mais citada é a do filólogo catalão Martín de Riquer, que em 1988 apontou Jerónimo de Pasamonte, soldado que lutou com Cervantes em Lepanto e escreveu uma autobiografia. Riquer leu na primeira parte do Dom Quixote uma caricatura dele: o galeote Ginés de Pasamonte, ladrão que escreve a própria vida.

Outra linha aponta o círculo de Lope de Vega, o dramaturgo mais popular da Espanha naquele tempo. Cervantes e Lope trocavam farpas desde a primeira parte, e o prólogo de Avellaneda defende Lope com zelo de amigo.

Nenhuma das duas teses fecha. Faltam cartas, contratos ou confissões. O mistério continua aberto porque o autor fez o que queria: escondeu o nome e deixou o livro.

O falso Quixote tem méritos e falhas próprias. Dom Quixote vira um louco grosseiro, sem a dignidade triste do original, e Sancho Pança perde a esperteza. O fidalgo acaba internado num manicômio de Toledo, a Casa del Nuncio.

Na história de Avellaneda, o cavaleiro vai a Saragoça disputar as justas, torneios de lança a cavalo que a cidade promovia. Cervantes tinha anunciado essa viagem na primeira parte. O rival usou a pista.

O plágio não roubou só o personagem: roubou o mapa que o autor tinha publicado.

O golpe acertou um ponto fraco de método. Cervantes deixou a promessa no papel em 1605 e demorou uma década para cumpri-la. Durante esse intervalo, o leitor esperava, e alguém se ofereceu para atender.

A reação apareceu no prólogo da segunda parte verdadeira. Cervantes respondeu ao insulto do braço com uma frase que virou a mais lembrada da disputa:

“O que eu não pude deixar de sentir é que me chame de velho e de maneta, como se estivesse em meu poder deter o tempo.”

Miguel de Cervantes, Dom Quixote, Segunda Parte, prólogo ao leitor, 1615

O tom seguiu calmo. Cervantes nunca escreveu o nome de quem estaria por trás de Avellaneda, e transferiu a briga para onde ele era imbatível: a página.

 
 

II  NA PÁGINA

O capítulo que virou resposta

No capítulo 59 da Segunda Parte, Dom Quixote está numa estalagem quando ouve, do quarto vizinho, dois fidalgos comentando um livro. É o de Avellaneda. O personagem verdadeiro descobre que existe um falso andando pela Espanha com a cara dele.

A cena funciona como crítica literária dentro da ficção. Dom Quixote folheia o livro, reclama do aragonês do autor, nota que a mulher de Sancho aparece chamada de Mari Gutiérrez, e não Teresa Pança, e aponta que o texto erra os fatos da primeira parte.

Depois vem a decisão que muda o roteiro. Como o falso Quixote foi às justas de Saragoça, o verdadeiro desiste de ir. Ele segue para Barcelona, só para que o mundo veja que o livro de Tarragona mentiu.

Cervantes trocou o destino do herói para desmentir o rival sem citar o rival.

O segundo movimento vem no capítulo 72. Cervantes pega Dom Álvaro Tarfe, um personagem criado por Avellaneda, e o coloca frente a frente com o Dom Quixote verdadeiro numa estalagem.

Tarfe conhecera o falso cavaleiro e admite que aquele não é o mesmo. Dom Quixote pede uma prova por escrito, e o personagem emprestado assina diante do alcalde (o magistrado da vila) uma declaração de que nunca vira aquele fidalgo antes.

O terceiro movimento fecha o livro. No capítulo 74, Alonso Quijano recupera o juízo, renega os romances de cavalaria, faz testamento e morre na cama, cercado por Sancho, pela sobrinha e pelo padre.

O escrivão chamado à cena registra a morte por escrito, e o narrador explica o motivo: impedir que outro autor ressuscite o cavaleiro para inventar novas façanhas. Depois, a pena do cronista fictício Cide Hamete Benengeli toma a palavra:

“Para mim só nasceu Dom Quixote, e eu para ele; ele soube agir, e eu escrever.”

Miguel de Cervantes, Dom Quixote, Segunda Parte, capítulo 74, 1615

Os três movimentos usam a mesma ferramenta, a cena, e nenhum depende de fama ou de advogado. Para quem escreve hoje, o caminho fica nítido:

1Liste as promessas de enredo que você já publicou em capítulo, prefácio ou rede social.
 
2Marque quais delas um leitor conseguiria continuar sem você.
 
3Escreva primeiro as cenas que só você consegue escrever, as que dependem da voz e da memória do livro.
 

Cervantes não ganhou a briga por ter razão. Ganhou porque o livro dele virou o único que o leitor quer reler.

 

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III  O MERCADO

O privilégio que não cruzava a fronteira

Na Espanha de 1614 não existia direito autoral no sentido moderno. O que protegia um livro era o privilégio real, licença da Coroa que dava a um autor ou impressor a exclusividade de imprimir uma obra num território e por um prazo.

O privilégio da primeira parte do Dom Quixote valia em Castela. A Coroa de Aragão, que incluía a Catalunha, tinha administração e licenças próprias, e Tarragona ficava dentro dela. Assim, o falso livro pôde circular sem violar a licença de Cervantes.

O detalhe explica a escolha do lugar de impressão. Publicar em Madri exigiria passar pelos censores e pelo Conselho de Castela, onde o nome de Cervantes pesava. Tarragona ficava fora desse balcão.

A brecha era geográfica: o privilégio cobria um reino, e o rival imprimiu no reino vizinho.

Cervantes não tinha como processar ninguém. Restava publicar mais rápido e melhor, e foi o que fez. A Segunda Parte saiu pela oficina do impressor Juan de la Cuesta, a mesma da primeira, com dedicatória ao conde de Lemos assinada em outubro de 1615.

O mercado decidiu a disputa nos séculos seguintes. A continuação verdadeira entrou no cânone e nas traduções; o livro de Avellaneda ficou como curiosidade de estudiosos, lido quase sempre por causa de Cervantes.

As datas da disputa:

Lepanto, mão perdida1571
Dom Quixote, Primeira Parte1605
Falso Quixote, Tarragona1614
Segunda Parte verdadeira1615
Cervantes sai de cena1616

Cervantes faleceu em Madri em abril de 1616, poucos meses depois de ver o cavaleiro enterrado no próprio livro.

Hoje, no Brasil, a situação do autor é outra. A Lei nº 9.610, de 1998, protege a obra desde a criação, sem exigir registro, e trata a continuação de personagem alheio como obra derivada (texto feito a partir de outro), que depende de autorização de quem escreveu o original.

A lei protege a obra, mas não protege a promessa. Ideia de enredo, título genérico e anúncio de sequência ficam fora do alcance jurídico. Fanfic, paródia e imitação de estilo convivem com o autor original, cada uma com regra própria.

O que sobra, então, é o mesmo recurso de Cervantes: prazo, entrega e uma obra que só o dono consegue terminar.

“Que história sua você anunciou e ainda não entregou?”

Hoje: escolha 1 promessa de continuação que você já fez a leitores e escreva, em 20 minutos, a primeira cena que só você conseguiria escrever.

 
 
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ACapítulo 1
BCapítulo 72
CCapítulo 59
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