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Um rascunho abandonado não morre no dia em que você para de escrever. Ele morre no dia em que ninguém além de você tinha lido as páginas.
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Primeiro movimento, a regra da página cem. Não julgue nada antes de ter cem páginas ou o arco inteiro no papel, porque a sensação de fracasso na página oito é informação sobre o seu desconforto, não sobre o texto.
Segundo movimento, o cesto adiado. Nunca apague arquivo. Crie uma pasta chamada morto, jogue lá dentro tudo que você desistiu de escrever, e abra a pasta uma vez por trimestre com olho frio.
Terceiro movimento, a nomeação do leitor. Escolha uma pessoa, só uma, que vai ler seus começos travados. Não precisa ser escritor. Precisa ler o gênero que você escreve e ter estômago para dizer que não gostou.
Quarto movimento, o pedido certo. Ao entregar o trecho, faça uma pergunta única: você quer ler o próximo capítulo? A resposta sim ou não vale mais do que três páginas de comentário sobre estilo.
Quinto movimento, o mapeamento do buraco. Escreva numa linha o que você não sabe e que está travando a cena. Não é bloqueio criativo, é falta de dado, e falta de dado se resolve com pesquisa ou com uma conversa de vinte minutos.
Sexto movimento, a busca de quem tem o dado. Vá atrás de alguém que viveu o mundo da sua cena. Enfermeira de plantão noturno, corretor de imóveis, adolescente de dezesseis anos. Uma hora de conversa gravada resolve meses de trava.
Sétimo movimento, a proibição do voto único. Nenhum rascunho é enterrado por decisão de uma pessoa só, e menos ainda pela decisão do autor num dia ruim. Precisa de pelo menos dois leitores dizendo que não querem o próximo capítulo.
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“Escreva com a porta fechada, reescreva com a porta aberta.”
Stephen King, Sobre a Escrita, 2000
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A frase organiza as duas etapas que quase todo autor mistura. O primeiro rascunho é assunto privado e não aceita plateia. A decisão de matar ou continuar já é assunto da porta aberta e não deveria ser tomada em segredo.
Três armadilhas aparecem nessa fase. A primeira é confundir desconforto com incompetência. O trecho que dá vergonha costuma ser exatamente o que carrega a cena, e o instinto de cortar é instinto de fugir.
A segunda é procurar leitor que faz carinho. Quem responde ficou lindo devolve uma sensação boa e nenhuma decisão. Você precisa de alguém que arrisque a resposta desconfortável e continue por perto na semana seguinte.
A terceira é tratar o buraco de conhecimento como sentença. Não entender o mundo da personagem é um problema de pesquisa com prazo e solução, e nunca um veredito sobre o seu talento.
A prova de que o método funcionou é chata e boa. Você abre a pasta morto três meses depois, encontra duas páginas que ainda pedem continuação, e volta a escrever um texto que teria virado lixo por decisão de um dia só.
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