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As quatro horas em que Chandler só podia escrever
Demitido do petróleo aos 44 anos, ele fechou um bloco diário em que escrever era opcional e qualquer outra coisa estava proibida.
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A máquina e o relógio da sessão
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Tempo livre não é tempo de escrita, e a diferença explica boa parte dos livros que nunca saem.
A agenda de quem tenta escrever quase sempre tem um espaço reservado. Uma hora antes do trabalho, duas depois do jantar, a manhã inteira de sábado. O espaço existe, está marcado no calendário, e mesmo assim a maior parte dele termina virando outra coisa.
Vira pesquisa. Vira organizar a pasta de anotações, responder uma mensagem rápida, ler sobre escrita em vez de escrever. Nenhuma dessas tarefas parece fuga na hora, porque todas têm ligação com o livro, e é por essa razão que elas passam.
O problema raramente é falta de disciplina para escrever. É falta de proibição para o resto. Quem se obriga a produzir na hora marcada trava na primeira frase difícil e migra para a tarefa vizinha, que é útil, é do projeto e não cobra nada de ninguém.
Existe um arranjo de duas regras que corta o desvio invertendo a ordem. Escrever deixa de ser obrigatório, e todo o resto fica proibido dentro do bloco. Você pode encarar a parede pelas quatro horas inteiras, e a única coisa vetada é fazer qualquer outra coisa.
O tédio termina o serviço que a força de vontade não termina. Sem alternativa dentro da sala, escrever vira a saída mais interessante da mesa, e o rascunho anda até nos dias ruins.
Uma segunda conta corre por baixo da primeira, e é ela que costuma decidir se o arranjo dura. Aprender o ofício leva tempo, tempo custa dinheiro, e quase ninguém abre essa planilha antes de largar uma renda.
A primeira venda de um escritor raramente cobre o mês. O que ela compra não aparece no cheque, e quem fecha a conta pelo valor recebido encerra a operação antes de ela começar a andar.
A régua de hoje vem de duas frases guardadas numa carta de 1949 e do arranjo que o autor delas montou dezessete anos antes, sem emprego, sem uma linha de ficção publicada e com uma revista de banca no lugar de manual.
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I A DOSE
Cinco meses para dezoito mil palavras
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Cinco meses de trabalho e um cheque de 180 dólares.
Em 1932 Raymond Chandler perdeu o emprego numa rede de companhias de petróleo em Los Angeles. Ele tinha 44 anos, era vice-presidente e diretor de várias dessas empresas e ganhava perto de mil dólares por mês, num país no meio da Depressão.
A renda acabou de uma vez. Ele e a mulher passaram a se mudar de cidade em cidade pelo sul da Califórnia atrás de aluguel barato, vivendo de empréstimo e do que restava do caixa antigo.
Vinte anos antes, em Londres, ele tinha publicado alguns poemas e resenhas em revistas literárias. Depois vieram duas décadas sem escrever ficção. Aos 44 anos, o currículo dele de escritor cabia numa linha.
Foi dirigindo pela costa da Califórnia que ele começou a ler as revistas de banca, as pulps, com histórias policiais vendidas por poucos centavos. A conclusão foi prática: dava para aprender a escrever ficção ali dentro e receber alguma coisa durante o aprendizado.
O primeiro movimento não foi escrever. Foi desmontar. Ele escolheu uma novela policial de Erle Stanley Gardner publicada na Black Mask e fez uma sinopse detalhada dela, cena por cena.
Depois guardou o original e reescreveu a história inteira a partir da própria sinopse. Terminado o exercício, comparou o texto dele com o de Gardner, viu onde o dele afundava e reescreveu mais uma vez.
O estudo não era imitação de estilo. Era engenharia reversa de estrutura: em que linha a informação nova entra, quanto tempo o personagem leva para falar, onde a cena corta.
Ele também mediu o produto antes de fabricar. A revista comprava novelas de dez a vinte mil palavras e pagava por palavra, então ele escreveu dentro da medida da revista em vez de escrever o que desse na cabeça.
O segundo movimento foi o horário. Ele fechou um bloco diário e o protegeu com duas regras que só foram para o papel muitos anos mais tarde, numa carta de 1949: escrever não era obrigatório, nenhuma outra coisa era permitida.
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Ele não se obrigou a escrever. Proibiu-se de fazer qualquer outra coisa dentro do bloco, e escrever virou a saída mais interessante da sala.
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A primeira história levou cinco meses. Chamava-se Blackmailers Don't Shoot, tinha cerca de 18 mil palavras e foi reescrita até ele achar que o texto aguentava a comparação com o que a revista publicava.
A Black Mask comprou a história na primeira tentativa e publicou na edição de dezembro de 1933. O pagamento foi de 180 dólares, a um centavo por palavra, a tabela padrão da casa.
Ele tinha 45 anos quando a primeira ficção assinada por ele chegou às bancas. Cinco meses de trabalho, 18 mil palavras, 180 dólares.
O homem que assinava contratos de petróleo por mil dólares mensais tinha acabado de ganhar 36 dólares por mês trabalhado. No dia seguinte ele sentou no bloco de novo.
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II NA PÁGINA
Marque a hora em que nada mais é permitido
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Você não precisa escrever dentro do bloco. Você precisa estar impedido de fazer qualquer outra coisa dentro dele, e é a proibição que produz página.
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Primeiro movimento, o tamanho honesto. Escolha um bloco que você cumpre seis dias seguidos, não o que soa sério. Noventa minutos cumpridos valem mais que quatro horas prometidas e abandonadas na quarta-feira.
Segundo movimento, o horário fixo. Marque o mesmo horário todos os dias e deixe o horário escrito num papel visível da mesa. Bloco que muda de lugar na agenda é bloco que a agenda come.
Terceiro movimento, a lista do proibido. Escreva o que não entra no bloco: e-mail, mensagem, pesquisa, leitura, anotação em outro caderno, arrumar arquivo. Pesquisa é o disfarce mais comum, porque parece trabalho do livro e consome a hora inteira sem deixar uma linha nova.
Quarto movimento, a permissão de não escrever. Dentro do bloco, encarar a parede é permitido. A regra que produz página é a segunda, e a primeira existe só para tirar o peso da obrigação da frente da tela.
Quinto movimento, o ambiente que sustenta a proibição. Deixe na mesa o manuscrito e nada mais. Celular em outro cômodo, navegador fechado, aba de pesquisa morta. Proibição que depende de força de vontade minuto a minuto não passa da primeira semana.
Sexto movimento, a engenharia reversa nos dias travados. Quando a cena não sai, pegue duas mil palavras de um autor que você admira, faça a sinopse cena por cena, feche o livro e reescreva a passagem a partir da sinopse. Depois compare e anote onde o texto dele resolve o que o seu deixou aberto.
Sétimo movimento, a medida do bloco. Ao fim da sessão anote duas coisas: quantas palavras saíram e quantos dias seguidos o bloco foi cumprido. Meça presença e volume, nunca a qualidade do rascunho.
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“O importante é que exista um espaço de tempo, digamos quatro horas por dia no mínimo, em que o escritor profissional não faça nada além de escrever. Ele não precisa escrever, e se não estiver com vontade não deve tentar. Mas não pode fazer nenhuma outra coisa positiva.”
Raymond Chandler, carta a Alex Barris, 1949
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A mesma carta fecha o arranjo em duas linhas: você não precisa escrever, você não pode fazer mais nada, o resto vem sozinho. A segunda regra some quando alguém copia o método, e é ela que segura o bloco de pé.
Três defeitos aparecem já na primeira semana. O primeiro é montar o bloco com meta de palavras e sem lista de proibições. A meta vira cobrança, a cobrança trava a frase difícil, e a tarefa vizinha ganha a hora.
O segundo é começar por quatro horas. Quem nunca escreveu meia hora seguida não sustenta quatro, cumpre dois dias e abandona o arranjo achando que o defeito é dele.
O terceiro é guardar o bloco para o fim do dia. O horário que sobra é o primeiro que o dia devora, e o bloco da noite cai na primeira semana cheia.
A prova aparece cedo. Na terceira semana o bloco acontece sem negociação, e o rascunho anda também nos dias em que a vontade não aparece.
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