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As 4 da manhã que Toni Morrison roubou do expediente
Ela escrevia antes de o dia começar porque as outras horas já pertenciam aos manuscritos alheios, e o hábito sustentou Song of Solomon.
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A xícara antes de o dia clarear
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Quem escreve com um emprego integral vive uma aritmética que não fecha. Oito horas de trabalho, mais o deslocamento, mais a comida, mais as pessoas que dependem de você em casa. O que sobra é um resto, e resto não é horário, é acaso.
O plano quase sempre é o mesmo, e quase sempre falha do mesmo jeito. A pessoa promete escrever à noite, depois que tudo estiver resolvido. Chega a noite, nada está resolvido, e o pouco de cabeça que restou já foi gasto decidindo coisas pequenas o dia inteiro.
O problema não é falta de tempo, é a qualidade da hora. Existe uma diferença enorme entre uma hora em que ninguém pode te alcançar e uma hora em que qualquer pessoa pode. As duas duram sessenta minutos e produzem resultados incomparáveis.
Uma hora exposta é uma hora que se dissolve. O telefone toca, alguém pergunta uma bobagem, chega uma mensagem de trabalho, e o texto que estava começando a esquentar volta ao ponto zero. Retomar custa mais caro do que continuar, e é sempre a retomada que não acontece.
Por isso escritores com emprego não procuram tempo livre, procuram tempo blindado. E o único bloco realmente blindado de um dia comum é aquele em que o resto do mundo está dormindo.
A madrugada não é romântica. Ela é a única faixa do dia que nenhum chefe, nenhum cliente e nenhuma emergência conseguem reivindicar, porque não existe ninguém acordado para reivindicá-la.
O preço é óbvio e ninguém finge o contrário. Acordar às quatro custa sono, custa vida social à noite e custa uma disciplina de deitar cedo que a maioria não quer pagar. A pergunta correta não é se dói, é o que a pessoa recebe em troca.
Uma escritora que passou dezesseis anos editando livro dos outros dentro de uma das maiores editoras do mundo respondeu essa pergunta com uma xícara de café, uma mesa escura e três romances que existem porque ela chegou antes do dia.
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I A DOSE
O café antes da luz e o romance escrito no escuro
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Uma editora de Nova York escrevia os próprios romances antes de o expediente começar.
Toni Morrison editava manuscritos alheios na Random House durante o expediente e escrevia os próprios antes de o expediente começar. Não era retiro criativo, era o encaixe possível de uma mulher com dois filhos pequenos e um cargo integral em Nova York.
Ela entrou na editora no fim dos anos sessenta e ficou lá até 1983. O trabalho era de editora sênior, com uma pauta clara: colocar no catálogo autores negros que o mercado americano vinha ignorando com método.
Um cargo desses consome exatamente aquilo que a escrita precisa. O dia inteiro ela lia prosa, avaliava prosa, sugeria corte em prosa. Chegava a noite com a atenção crítica gasta em texto que não era dela, e sobrava a parte cansada da cabeça para o que mais importava.
A saída foi mexer na ordem, não na quantidade. Se o próprio romance é a coisa que importa, ele não pode ficar com a sobra. Tem de ficar com a primeira fatia do dia, antes que qualquer outra pessoa tenha direito sobre ela.
Morrison descreveu o ritual muitas vezes, sempre com os mesmos elementos. Ela acordava antes do amanhecer, preparava café e ficava tomando enquanto a luz chegava. A escrita começava ali, no intervalo entre o escuro e o dia.
O detalhe que ela mesma sublinhou é que a luz não era enfeite. Ver o dia clarear virou o sinal fisiológico de que aquele era o momento de escrever, um gatilho repetido tantas vezes que a cabeça já entrava no estado certo antes da primeira frase.
Havia um segundo motivo, mais duro. Com dois filhos pequenos, aquela era a única faixa do dia sem interrupção garantida. Não era a hora mais inspirada, era a hora mais protegida, e as duas coisas se confundem quando o hábito se instala.
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A madrugada não deixa a pessoa mais criativa, ela apenas entrega a única hora do dia que ninguém mais pode reivindicar. É por a hora ser inegociável, e não por ser mágica, que o livro avança semana após semana.
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O resultado desse arranjo tem nome e ano. Song of Solomon saiu em 1977, escrito nas beiradas de um emprego que ocupava o resto do calendário, e é o livro que tirou Morrison da categoria de autora respeitada por poucos.
Antes dele já haviam saído The Bluest Eye, em 1970, e Sula, em 1973, produzidos no mesmo esquema. A carreira inteira de romancista dela começou dentro de um expediente alheio, não fora dele.
Vale registrar o que esse método não é. Não é escrever mais rápido, não é dormir menos por heroísmo, não é esperar a musa. É mover a tarefa mais importante para o começo da fila e aceitar que a fila do resto vai andar um pouco pior.
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II NA PÁGINA
Como fabricar uma hora que ninguém pode reivindicar
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A regra cabe numa linha: o livro fica com a primeira hora do dia, e todo o resto disputa as horas seguintes. O trabalho é montar essa hora e defendê-la.
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Primeiro movimento, decida o horário pelo silêncio, não pela energia. A pergunta não é quando você rende mais, é quando ninguém consegue te alcançar. Para a maioria das pessoas com emprego e casa cheia, essa faixa começa antes das seis e acaba quando o primeiro alarme toca.
Segundo movimento, recue a hora de dormir antes de adiantar a de acordar. Quem tenta acordar às quatro sem mexer na noite dura oito dias e desiste convencido de que não serve para o ofício. O ajuste é na outra ponta, e leva umas duas semanas.
Terceiro movimento, monte um gatilho físico e repita sem variação. Uma bebida quente, uma luz específica, sempre a mesma cadeira. O corpo aprende a associar o gesto ao estado de trabalho, e o começo deixa de custar os primeiros vinte minutos de resistência.
Quarto movimento, deixe a mesa preparada na véspera. Arquivo aberto no ponto exato, anotação da próxima cena, caneta ao lado. Quem acorda cedo e precisa decidir por onde começar já perdeu metade da janela decidindo.
Quinto movimento, proíba a tela de comunicação. Nada de email, nada de mensagem, nada de notícia antes de a sessão terminar. Uma única leitura de caixa de entrada substitui o seu assunto pelo assunto dos outros, e a hora protegida vira uma hora de trabalho não remunerado.
Sexto movimento, encerre no relógio, não no cansaço. Sessenta ou noventa minutos, e para mesmo que esteja rendendo. Terminar com algo por escrever é o que garante que amanhã a sessão comece sem hesitação, e a versão que vai até a exaustão não sobrevive a um mês.
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“I always get up and make a cup of coffee while it is still dark, and then I drink the coffee and watch the light come.”
> Toni Morrison, The Art of Fiction No. 134, The Paris Review, 1993
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A frase parece pequena até você notar que ela não menciona inspiração, meta de palavras nem método de estrutura. O que está descrito é uma sequência de gestos repetíveis, do tipo que funciona igual no dia bom e no dia ruim.
A objeção mais comum é biológica: existe gente noturna, e forçar madrugada em quem tem relógio deslocado só produz texto ruim e sono ruim. A objeção é justa, e a resposta é que o horário importa menos que a blindagem. Para quem trabalha em turno da noite, a hora limpa pode ser às duas da tarde.
A segunda objeção é doméstica. Bebê acorda cedo, casa apertada não tem canto silencioso, e nem toda pessoa manda no próprio despertador. Nesses casos a janela protegida costuma ser menor, quarenta minutos em vez de noventa, e a resposta é reduzir o tamanho da sessão sem abandonar a posição dela na fila do dia.
O que não funciona é deixar a escrita para o fim. Última tarefa de uma lista é a tarefa que só acontece nas semanas fáceis, e semana fácil é rara.
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