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O samizdat tinha um irmão com nome parecido: o tamizdat, de “tam”, que em russo quer dizer “lá”. Era o livro publicado no exterior e contrabandeado de volta, muitas vezes em edição de bolso fácil de esconder.
O caso mais famoso foi Doutor Jivago, de Boris Pasternak. Em 1956, a revista Novy Mir recusou o romance. Pasternak entregou uma cópia ao jornalista italiano Sergio D'Angelo, que a levou ao editor Giangiacomo Feltrinelli, em Milão.
Feltrinelli lançou a tradução italiana em novembro de 1957, contra a pressão de Moscou. O livro correu a Europa, e em 1958 Pasternak recebeu o Nobel de Literatura. Sob ameaça de exílio, recusou o prêmio.
A edição em russo também teve mãos estrangeiras. Documentos liberados pela CIA e analisados no livro The Zhivago Affair, de Peter Finn e Petra Couvée, de 2014, mostram que a agência imprimiu exemplares em russo e os distribuiu a visitantes soviéticos na Feira Mundial de Bruxelas, em 1958.
Dentro do país, o caminho continuou sendo o carbono. Os exemplares contrabandeados eram desmontados e retipados, e cada folha nova repetia a corrente.
A rota do livro proibido:
| Jivago sai em Milão | 1957 | | Nobel de Pasternak | 1958 | | Crônica, 1º número | 1968 | | Gulag sai em Paris | 1973 |
Arquipélago Gulag, de Soljenítsin, saiu pela YMCA-Press de Paris em dezembro de 1973. Em fevereiro do ano seguinte o autor foi expulso da União Soviética, e o livro já circulava em folhas datilografadas.
O desfecho chegou com a abertura de Mikhail Gorbatchov. A Novy Mir, a mesma revista que recusou o romance, publicou Doutor Jivago em 1988. O Arquipélago saiu na mesma revista em 1989.
Para quem lança livro hoje, a lição comercial está na corrente. No samizdat, nenhuma cópia chegava sozinha: vinha de alguém que o leitor conhecia, com a recomendação implícita de quem perdeu noites batendo o texto.
A escassez ajudava. Uma cópia com prazo de uma noite era lida inteira, sem pausa, porque o próximo da fila esperava. O livro proibido raramente ficava pela metade.
O autor independente depende do mesmo mecanismo. Os primeiros leitores de confiança, que leem antes do lançamento e indicam a outros, fazem o papel do datilógrafo da noite. Sem eles, o livro fica parado na estante da loja on-line.
“Quem seria o leitor disposto a retipar o seu livro inteiro?”
Hoje: mande 1 capítulo do seu manuscrito para 1 leitor de confiança, até as 22h, e peça que ele indique mais 1 nome para receber depois.
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