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A única cópia parada em Londres
Em 1957, Chinua Achebe mandou a única cópia de O Mundo se Despedaça a uma datilografia de Londres com 22 libras e ficou meses sem resposta.
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O maço manuscrito parado em Londres
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Um anúncio recortado de revista, um cheque de 22 libras, um maço de papel escrito à mão. Os três saíram de Lagos dentro do mesmo envelope, com destino a uma datilografia de Londres, no ano de 1957.
O anúncio oferecia serviço de datilografia para autores. O cheque cobria o serviço, quantia alta para um funcionário de rádio nigeriano naquele momento. O maço era o texto integral de um romance que ainda não tinha editor, nem contrato, nem segunda via em lugar nenhum do mundo.
A datilografia recebeu o envelope, depositou o cheque e parou de responder. Nenhuma carta, nenhum aviso de recebimento, nenhuma folha datilografada de volta. O remetente escreveu de novo, esperou, escreveu outra vez e continuou sem notícia por meses seguidos.
O detalhe que transforma o episódio em pesadelo é aritmético. Cópia existia uma só. Fotocopiadora não era equipamento de escritório comum em Lagos naquele ano, papel-carbono exigia redatilografar tudo, e o autor tinha mandado para o outro hemisfério o objeto que ele não conseguiria reconstituir sem voltar ao começo.
A saída não veio de carta, de advogado nem de editora. Veio de uma colega de trabalho. Angela Beattie, chefe do autor no serviço de rádio da Nigéria, viajou a Londres de licença e entrou na tal agência pessoalmente para perguntar o que estava acontecendo com o pacote de um cliente que pagara e não recebera nada.
Poucas semanas depois da visita, o texto datilografado chegou a Lagos. Ele seguiu para a editora Heinemann, em Londres, que o publicou em 17 de junho de 1958 com tiragem inicial de 2.000 exemplares em capa dura.
O romance é O Mundo se Despedaça, de Chinua Achebe, hoje um dos livros africanos mais lidos do planeta e o número 1 da African Writers Series, coleção lançada pela própria Heinemann em 1962.
A seção a seguir monta a cronologia por dentro: quem era o autor naquele momento, quanto tempo o texto ficou desaparecido, quem leu o original na editora e o que continua sem documento nessa história.
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I A DOSE
Vinte e duas libras sem recibo
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Chinua Achebe mandou a Londres a única cópia de O Mundo se Despedaça e ficou meses sem saber se o texto ainda existia.
Chinua Achebe nasceu em Ogidi, no sudeste da Nigéria, em 16 de novembro de 1930, formou-se no University College de Ibadan e entrou no serviço de rádio nigeriano em 1954, onde trabalhava como produtor quando escreveu o romance. A cronologia do episódio cabe em dois anos e tem marcos datados.
O trabalho na rádio pagava as contas e ocupava o dia inteiro. O texto foi escrito à mão nas horas livres, primeiro como um livro de três partes, que acompanhava três gerações de uma mesma família igbo, do avô ao neto.
Em 1956 o produtor foi mandado a Londres para um curso de treinamento da BBC. Lá ele mostrou o texto ao romancista e produtor Gilbert Phelps, que se ofereceu para levá-lo a um editor. Achebe pediu para revisar antes.
A revisão foi cirúrgica e mudou o livro. De volta à Nigéria, ele cortou fora as duas partes seguintes e ficou com a história do avô, Okonkwo. A geração mais nova viraria depois um segundo romance.
Sobrou um texto manuscrito que nenhuma editora aceitaria naquele formato. Original de escritor estreante precisava chegar datilografado, e o autor não datilografava com a velocidade nem a limpeza exigidas.
Daí o anúncio da agência londrina, o cheque de 22 libras e o envio da versão única pelo correio. O silêncio começou logo depois do depósito do cheque.
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A conta que pesa nessa história não está no cheque, e sim no inventário: uma cópia só, do outro lado do Atlântico, nas mãos de um fornecedor que parou de atender. Perdido o maço, o romance voltaria à estaca zero, sem rascunho de reserva na gaveta de Lagos.
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A intervenção de Angela Beattie destravou a fila. Ela estava de licença em Londres, foi até o endereço da agência e cobrou o serviço na recepção, e o trabalho datilografado saiu pouco tempo depois rumo a Lagos.
Na Heinemann, o original caiu numa casa que não publicava ficção africana e não sabia avaliar o que tinha em mãos. A editora pediu parecer a Donald MacRae, acadêmico da London School of Economics recém-chegado de uma viagem pela África Ocidental. O parecer dele foi curto e favorável, e a frase que circula até hoje diz que era o melhor romance que ele lera desde a guerra.
O livro saiu em 17 de junho de 1958, com 2.000 exemplares em capa dura e recepção morna no comércio britânico. A virada comercial veio com a edição de bolso de 1962, que abriu a African Writers Series, coleção de literatura africana da qual Achebe foi conselheiro editorial por anos.
Um ponto precisa ser dito com todas as letras. O nome comercial da agência de datilografia, o endereço dela e o destino do dinheiro nunca foram documentados publicamente. O relato do episódio vem de entrevistas do próprio autor, entre elas a que ele deu à revista The Paris Review em 1994, e de biógrafos que o repetem. Ninguém sabe se houve fraude, desorganização ou simples abandono do serviço.
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II NA PÁGINA
A cópia que você não tem
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O caso cobra três providências de quem tem texto pronto: manter cópia fora do próprio alcance, marcar prazo de resposta em toda entrega e nomear um terceiro que cobre no seu lugar. Nenhuma delas exige dinheiro, e as três cabem numa tarde de trabalho.
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Comece pela cópia fora do alcance. Um arquivo salvo apenas no computador de casa repete, em versão moderna, o maço único de Lagos: incêndio, roubo, disco queimado e conta bloqueada eliminam o texto inteiro do mesmo jeito que a agência londrina quase eliminou.
Passe ao prazo de resposta. Entrega feita a prestador, leitor de teste, revisor ou editor sem data combinada de retorno vira espera indefinida, e quem espera indefinidamente não sabe se o silêncio significa fila cheia, desistência ou problema grave com o material.
Nomear quem cobra fecha a terceira frente. Achebe escreveu cartas de Lagos por meses sem resultado, e a cobrança presencial de uma pessoa em Londres resolveu em uma visita. Distância e canal escolhido mudam o peso do pedido.
| 1 | Suba hoje o texto completo para dois lugares distintos, um serviço de nuvem e um email enviado para você mesmo, com a data no nome do arquivo. | | | | 2 | Escreva no topo de cada entrega futura a data combinada de retorno, no formato dia e mês, e mande junto com o material. | | | | 3 | Anote numa lista os nomes de quem está com seu texto agora, o que cada um recebeu e em que dia recebeu. | | | | 4 | Marque no calendário, dois dias depois do prazo de cada entrega, o lembrete de cobrar quem não respondeu. | | |
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“Eu queria entender como as coisas tinham chegado ao ponto em que estavam, como chegamos ao ponto de sermos colonizados.”
> Chinua Achebe, entrevista à The Paris Review, 1994
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A declaração explica a insistência. Quem escreve para responder uma pergunta que o incomoda de verdade recomeça o trabalho perdido; quem escreve por impulso passageiro desiste no primeiro contratempo, e esse é o teste que separa projeto de livro de vontade de escrever.
Vale separar o que o procedimento resolve do que ele deixa em pé. Ele resolve perda de material, espera sem fim e cobrança tímida, porque cria redundância e data. Ele não resolve texto fraco, ausência de interlocutor interessado nem mercado fechado para o assunto que você escolheu.
Uma advertência de contexto evita a leitura ingênua do episódio. Achebe já tinha feito contato com o romancista Gilbert Phelps em Londres, trabalhava numa instituição de comunicação respeitada e tinha uma chefe disposta a gastar o tempo de licença dela resolvendo um problema de um subordinado. Nenhum desses três apoios apareceu por sorte.
E existe um ganho de rotina na providência. Quem mantém a lista de quem está com o material descobre, ao fim de alguns meses, quais interlocutores respondem e quais só acumulam texto, e passa a mandar as entregas importantes para o primeiro grupo.
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