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A última frase que John Irving escreve primeiro

O autor de O Mundo Segundo Garp só abre o rascunho quando já tem a frase que encerra o livro.

Caderno pautado aberto com uma única frase manuscrita na última linha da página, caneta tinteiro sobre a mesa.

A última linha, escrita antes da primeira

▼
 

Uma caneta, um bloco pautado, uma frase solta no alto da folha. É com esse material que John Irving começa um romance, e a frase anotada vai ser a última do livro.

O escritor americano, autor de O Mundo Segundo Garp (1978) e de Regras da Vida (1985), repete o método há mais de quarenta anos. Primeiro ele descobre como a história termina. Só depois escreve a primeira página.

A ordem parece invertida para quem aprendeu que escrever é descobrir. Muito autor iniciante abre o arquivo em branco, escreve um primeiro capítulo animado e para no terceiro, sem saber para onde a trama anda.

Irving trabalha no sentido contrário. Passa meses tomando notas sobre personagens e episódios, às vezes mais de um ano, até que a frase final aparece. Com ela no papel, cada cena do rascunho vira um trecho de uma estrada que já tem destino.

O efeito prático aparece no dia de trabalho. O autor que sabe onde vai chegar não precisa decidir, a cada manhã, se o livro ainda faz sentido. Ele só precisa andar mais um pedaço do caminho, e a frase guardada no bloco lembra o rumo sempre que a vontade de desistir aparece.

Irving também escreve o primeiro rascunho à mão, e diz que a caneta o obriga a ir devagar. A velocidade baixa combina com o método: quem conhece o destino não tem pressa de chegar.

O método tem limites, e há autores premiados que trabalham do jeito oposto, sem mapa nenhum. Mas para o primeiro livro, aquele que costuma morrer no capítulo três, saber o fim antes de começar resolve um problema concreto: a falta de direção.

A seção I mostra como o próprio Irving descreveu o método, o que ele fez com a frase final de Garp e de onde vem a ideia, que tem quase dois séculos.

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I  A DOSE

A frase que chega antes do livro

O método de John Irving tem registro público desde 1986, quando ele contou à revista literária americana The Paris Review, na entrevista da série The Art of Fiction (A Arte da Ficção), que começa pelos finais. Sem saber o desfecho, ele não abre o livro.

Na mesma conversa, Irving explicou que o final escrito cedo funciona como uma âncora. A trama pode mudar de rota durante anos de trabalho, personagens entram e saem, capítulos inteiros vão para o lixo, mas a última frase segura o conjunto no lugar.

O caso mais conhecido é o de O Mundo Segundo Garp, o quarto romance dele e o primeiro a virar best-seller. A frase que encerra o livro trata a vida inteira do protagonista, T. S. Garp, como uma condição sem cura, dita com humor seco.

O final escrito cedo dá à história um lugar para chegar, e o rascunho inteiro passa a caminhar até ele.

A frase final, citada na seção III, é dura e engraçada, e o romance inteiro prepara o leitor para ela. Garp é um escritor que perde gente que ama em acidentes absurdos, e o livro alterna tragédia e comédia sem aviso. Quando a última linha chega, o leitor já foi treinado para rir e sofrer ao mesmo tempo.

Em Uma Oração para Owen Meany (1989), o recurso vai mais longe. O desfecho do garoto Owen Meany é anunciado aos poucos desde as primeiras páginas, e a tensão do livro sai do caminho até ele, sem mistério sobre o fim.

Irving não inventou a ideia. Em 1846, o poeta americano Edgar Allan Poe publicou o ensaio A Filosofia da Composição, em que defende que todo enredo digno do nome precisa ser elaborado até o desenlace (o desfecho da trama) antes que a primeira palavra vá para o papel. Poe usou o próprio poema O Corvo como exemplo e disse ter escrito primeiro a estrofe final.

A contista americana Katherine Anne Porter disse algo parecido à mesma Paris Review, em 1963: se não soubesse o fim de uma história, não começaria. Poe, Porter e Irving, em épocas diferentes, chegaram ao mesmo princípio.

Há quem discorde. Stephen King, em Sobre a Escrita (2000), conta que prefere pôr personagens numa situação e ver o que acontece, sem saber o desfecho. O próprio King admite que o método dele gera rascunhos que precisam de corte pesado na revisão.

 
 

II  NA PÁGINA

Do ponto final para o capítulo 1

A última frase funciona como bússola do rascunho: toda cena que não aproxima o livro dela vira candidata a corte. Com o destino escrito, a pergunta diária muda de "o que acontece agora?" para "o que falta para chegar lá?".

O primeiro passo é separar a frase final do resumo do final. Saber que a heroína volta para casa é um resumo. A frase é a linha exata que o leitor vai ler por último, com as palavras no lugar.

A diferença pesa porque a frase carrega tom. Um livro que termina numa piada seca pede outro percurso do que um livro que termina numa imagem calma. Ao escrever a frase, o autor decide também a temperatura das trezentas páginas anteriores.

O segundo passo é andar de trás para a frente. Com a frase no papel, o autor pergunta o que o leitor precisa saber, sentir e ter visto para que ela faça sentido. Cada resposta vira uma cena obrigatória no rascunho.

Um exemplo. Suponha que a frase final seja: "Ela deixou a chave do barco em cima da mesa e saiu sem olhar para trás." Para essa linha pesar, o leitor precisa saber que o barco existe, que ele importa para a personagem e que sair sem olhar custa caro.

Três cenas já nascem da frase: o barco aparece cedo, ganha valor no meio, e a personagem tem um motivo forte para deixá-lo. O resto do livro se organiza entre esses marcos.

O método pode ser treinado assim:

1Escreva a última frase do livro que você quer terminar, com as palavras exatas, em uma linha só.
 
2Liste 3 fatos que o leitor precisa conhecer para a frase pesar.
 
3Transforme cada fato numa cena e ponha as 3 em ordem, da mais distante do fim à mais próxima.
 
4Escreva o primeiro capítulo sabendo em qual das 3 cenas ele desemboca.
 
5Releia a frase final antes de cada sessão de escrita, e corte a cena do dia que não chega mais perto dela.
 

A frase pode mudar. Irving admite reescrever o fim quando a história exige, e a regra não é tratar a linha como contrato. Ela serve para dar direção ao rascunho, e a troca só acontece quando o autor já sabe o motivo.

 

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III  O MERCADO

Os finais que venderam primeiro

No cinema: Regras da Vida, romance de 1985, virou filme em 1999 com roteiro do próprio Irving. Ele ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado em 2000, e o livro voltou às listas de mais vendidos com a capa do filme.

No best-seller: O Mundo Segundo Garp ganhou o National Book Award, o principal prêmio literário dos Estados Unidos, na categoria de ficção em brochura, em 1980. O livro também virou filme, com Robin Williams no papel de Garp, em 1982.

Na saga: J. K. Rowling disse em entrevistas que escreveu o capítulo final de Harry Potter e as Relíquias da Morte no começo dos anos 1990, anos antes de publicar o primeiro volume, em 1997. O texto ficou guardado durante toda a série.

No suspense: o método de começar pelo fim é comum em romance policial, gênero que depende de uma revelação plantada desde o começo. A escritora britânica Agatha Christie decidia quem era o culpado antes de montar a trama, segundo os cadernos de trabalho dela estudados por John Curran em Os Diários Secretos de Agatha Christie (2009).

Nas medidas do caso:

O Mundo Segundo Garp1978
Entrevista à Paris Review1986
Regras da Vida1985
Oscar de roteiro adaptado2000
A Filosofia da Composição, de Poe1846

O próprio Irving resumiu a vantagem numa frase do romance que o tornou conhecido, em que o narrador fala do jeito de Garp contar histórias:

“No mundo segundo Garp, somos todos casos terminais.”

> John Irving, O Mundo Segundo Garp, 1978

No que vale para o independente: quem publica pela Kindle Direct Publishing (KDP), a plataforma de autopublicação da Amazon, costuma lançar série. Saber o fim do último volume antes do primeiro evita a série que perde o rumo no terceiro livro e cansa o leitor que comprou os dois anteriores.

No que o caso prova: que saber o desfecho não mata a surpresa. Owen Meany anuncia o fim desde as primeiras páginas e segue entre os livros mais lidos de Irving.

No que ele não prova: que o método é obrigatório. King escreve sem mapa e vende tanto quanto Irving; a frase final é uma ferramenta para quem trava no meio, sem garantia de venda.

A última frase escolhe o caminho. O primeiro capítulo só precisa começar a andar.

“Qual é a última frase do livro que você está escrevendo, com as palavras exatas?”

Hoje: escreva 1 frase final para o seu livro e 3 cenas que levam até ela, antes das 22h.

 
 
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