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A moldura de 2,5 cm que Anne Lamott deixa na escrivaninha
O irmão dela travou num relatório de aves na véspera da entrega, e a frase do pai virou a única unidade de trabalho que cabe numa sessão.
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A moldura vazia ao lado do manuscrito
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Existe uma conta que quem escreve um livro faz sem querer, sempre no pior momento possível. Ela aparece quando você abre o arquivo, olha o total de palavras já escritas, estima o quanto ainda falta e divide pelo tempo que sobra na semana.
A conta em si não está errada. Ela é apenas grande demais para a mão que precisa executar. Oitenta mil palavras é uma quantidade que ninguém segura mentalmente, do mesmo jeito que ninguém dirige dois mil quilômetros olhando o mapa inteiro aberto no colo.
O efeito prático do tamanho é a paralisia. A pessoa senta, encara a página, sente o peso do total e levanta para fazer café. Não porque perdeu a vontade, mas porque o cérebro se recusa a começar uma tarefa cujo fim ele não consegue enxergar.
Quem trava não trava por falta de disciplina. Trava por excesso de escopo carregado na cabeça ao mesmo tempo. O escritor iniciante que abre o documento pensando no livro inteiro está tentando levantar o caminhão em vez da caixa.
A saída conhecida tem um nome pouco elegante e uma eficácia difícil de exagerar: encolher a unidade de trabalho até ela caber numa sessão. Não o capítulo, não a cena, não o arco. Algo bem menor do que qualquer uma dessas três coisas.
O detalhe que quase todo conselho de produtividade erra é o tamanho do pedaço. Fatiar o livro em capítulos ainda deixa blocos de quatro mil palavras, e quatro mil palavras continuam sendo mais do que a cabeça consegue segurar numa manhã de terça.
A fatia útil é obscenamente pequena. Um objeto, uma janela, o que uma personagem enxerga de um ponto fixo. Pequena a ponto de parecer insuficiente, porque a sensação de insuficiência é justamente o sinal de que ela cabe.
A formulação mais conhecida dessa ideia na literatura não nasceu de um manual de método nem de uma sala de aula. Nasceu na mesa da cozinha de uma família americana, numa noite de véspera de entrega, dita em voz alta por um pai para um menino em pânico.
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I A DOSE
O menino, as aves e a véspera da entrega
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Um menino de dez anos travou diante de um relatório de aves, e o pai resolveu em cinco palavras.
Em 1994, a editora Pantheon Books lançou Bird by Bird, um livro sobre escrita que abre explicando de onde veio o próprio título. A autora, Anne Lamott, conta uma cena da infância do irmão mais novo, que tinha dez anos na época.
O menino recebera na escola um trabalho sobre aves. Prazo generoso, três meses inteiros para ler, tomar nota e montar o relatório. Ele fez o que qualquer pessoa faz com três meses de prazo, que é não fazer nada durante os primeiros oitenta e nove dias.
Na noite anterior à entrega, o irmão estava sentado à mesa da cozinha, cercado de livros de ornitologia emprestados, canetas, papel e nenhuma linha escrita. Chorava, imobilizado pela dimensão do que tinha pela frente.
O pai da família, Kenneth Lamott, também era escritor, e o filho travado na cozinha era um problema conhecido para ele. Sentou ao lado do menino, colocou a mão no ombro dele e disse a frase que virou título de livro trinta e três anos depois.
Pássaro por pássaro, garoto. É só pegar pássaro por pássaro.
A força da cena não está no conselho, que qualquer pessoa razoável daria. Está no fato de que o pai não reduziu o trabalho a partes lógicas, tipo introdução, desenvolvimento e conclusão. Ele reduziu a uma unidade concreta e visível: uma ave.
A diferença importa mais do que parece. Introdução ainda é uma categoria abstrata, e categoria abstrata não se começa. Uma ave específica, com nome, tamanho, cor e hábito de nidificação, é uma tarefa que o menino sabe exatamente como executar.
Lamott transporta a mesma redução para a mesa de trabalho adulta com um objeto físico. Ela mantém na escrivaninha uma moldura de foto vazia, de uma polegada de lado, algo em torno de dois centímetros e meio.
A moldura funciona como recorte do que cabe na sessão de hoje. O que couber dentro daquele quadrado é o trabalho do dia, e nada além dele existe enquanto a sessão dura.
Um retrato de uma polegada não comporta um arco de personagem. Comporta uma manhã de sábado na cozinha da avó, o barulho da porta de tela batendo, o cheiro do café requentado, a mão que segura a xícara.
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A moldura não é um truque de motivação, é um limitador de escopo com forma física. Ela impede que a sessão se transforme numa tentativa de resolver o livro inteiro, que é a tentativa que sempre termina em nada escrito.
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Lamott também batizou nesse livro a expressão que mais atravessou para o vocabulário de quem escreve: os primeiros rascunhos horrorosos. A defesa dela é direta, ninguém acerta na primeira passada e o rascunho ruim é a matéria-prima obrigatória do rascunho bom.
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II NA PÁGINA
Como recortar a sessão de amanhã de manhã
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Bird by Bird não entrega um método numerado, entrega dois gestos: reduzir a unidade até ela caber, e aceitar que o resultado da primeira passada vai ser feio. O restante é execução.
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Primeiro movimento, o inventário das aves. Antes de fechar o dia, liste em uma linha cada pedaço concreto que falta no capítulo em que você está. Não escreva desenvolver a relação dos dois. Escreva a discussão sobre o dinheiro do aluguel, na cozinha, à noite.
Segundo movimento, o teste do tamanho. Olhe cada item da lista e pergunte se ele cabe em uma sessão de escrita sua, do jeito que suas sessões realmente são. Item que não cabe não é item, é pasta. Quebre em três e volte a perguntar.
Terceiro movimento, o recorte físico. Escolha um limite visível para a sessão de amanhã e escreva o recorte numa linha só, no topo do arquivo. Uma cena, um ponto de vista, um lugar, um intervalo de tempo curto. Tudo que estiver fora daquela linha não existe amanhã.
Quarto movimento, a proibição de revisar. Na sessão de recorte, você produz, não julga. Revisar enquanto escreve é a maneira mais eficiente de garantir que o pedaço não termine, porque a régua do texto pronto aplicada ao texto nascendo reprova qualquer frase.
Quinto movimento, a marca de parada. Termine a sessão anotando a próxima ave da lista, não no meio de uma frase. A pessoa que senta amanhã não vai lembrar do contexto, vai lembrar do bilhete que você deixou.
Sexto movimento, a contagem honesta. Anote quantas aves você fechou por semana durante um mês. O número costuma ser mais alto do que a sensação, e a sensação é a única coisa que faz gente competente desistir de um manuscrito.
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“Thirty years ago my older brother, who was ten years old at the time, was trying to get a report on birds written that he'd had three months to write.”
> Anne Lamott, Bird by Bird, 1994
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A frase abre o livro e já contém o diagnóstico inteiro. O problema do menino não era o relatório, era o relatório inteiro visto de uma vez na véspera. O prazo de três meses só serviu para adiar o encontro com o volume real da tarefa.
Duas armadilhas aparecem quando alguém tenta aplicar o recorte. A primeira é confundir unidade pequena com meta pequena. O recorte não determina quanto você escreve, determina sobre o que você escreve. Uma sessão de mil e duzentas palavras dentro de uma moldura de uma polegada é comum.
A segunda é usar o recorte para nunca sair do lugar. Recortar a mesma cena por seis dias seguidos, sempre com uma justificativa nova, é procrastinação vestida de método. A lista de aves existe para ser consumida na ordem, e o item riscado tem que sair dela.
Um sinal de que o recorte está funcionando aparece rápido, em geral na segunda semana. Você começa a sentar já sabendo o que vai fazer, e o tempo entre abrir o arquivo e escrever a primeira frase cai de vinte minutos para menos de dois.
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