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A mesma viagem de ônibus contada 99 vezes

Raymond Queneau pegou uma briga boba num ônibus de Paris e a reescreveu em 99 registros, do soneto ao interrogatório policial.

Ônibus parisiense antigo com plataforma traseira aberta e passageiros de chapéu, numa rua de Paris.

O ônibus da linha S e a cena dos 99 exercícios

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Um chapéu mole com cordão trançado no lugar da fita, um pescoço comprido demais, um botão que faltava no sobretudo. Os três cabem numa cena de ônibus que o escritor francês Raymond Queneau contou 99 vezes, sem mudar um único fato.

A cena é banal de propósito. Perto do meio-dia, na plataforma traseira de um ônibus da linha S, em Paris, um rapaz de pescoço comprido reclama que o vizinho pisa no pé dele a cada freada. A discussão não vai longe: ele vê um banco livre e se senta.

Duas horas depois, o narrador reencontra o mesmo rapaz diante da estação Saint-Lazare. Um amigo aconselha o sujeito a mandar pregar mais um botão no sobretudo, perto da gola. Fim da história.

Queneau publicou as 99 versões em 1947, pela editora Gallimard, com o título Exercícios de Estilo. Uma versão sai como anotação seca de caderno. Outra, como soneto rimado. Outra, como interrogatório de delegacia, com o policial perguntando a que horas passou o ônibus.

Há versão só com interjeições, versão escrita de trás para frente, versão em latim macarrônico (latim de brincadeira, com palavras francesas vestidas de terminação latina) e versão em forma de carta oficial, cheia de fórmulas de repartição.

Nenhuma delas acrescenta um fato novo. O ônibus é o mesmo, o botão é o mesmo, a briga tem o mesmo tamanho. Muda só o jeito de contar, e o leitor sai de cada página com a sensação de ter lido outra história.

Para quem escreve o próprio livro, o volume funciona como uma academia de voz. Ele mostra, com a prova à vista, que o tom é uma escolha do autor, feita frase por frase, e que o mesmo enredo pode soar cômico, frio, solene ou íntimo.

A seção I conta de onde veio a ideia, num concerto de música barroca, e quem era o homem que passou anos reescrevendo uma briga de ônibus.

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I  A DOSE

Uma fuga de Bach na plateia

Raymond Queneau (1903 a 1976), nascido no porto de Le Havre, na Normandia, era romancista, poeta e leitor profissional de originais da Gallimard quando decidiu transformar uma briguinha de ônibus num livro inteiro. A ideia apareceu nos anos 1930, numa sala de concerto.

Queneau contou depois que foi com o amigo Michel Leiris, escritor e etnógrafo, ouvir A Arte da Fuga, de Johann Sebastian Bach, na Salle Pleyel, em Paris. A obra repete um único tema musical em variações sucessivas, cada uma com outra combinação de vozes.

Saindo do concerto, os dois comentaram que seria interessante fazer o mesmo com a literatura: pegar um assunto mínimo e tratá-lo de muitas maneiras, sem que o tema cansasse o ouvinte. Queneau levou a conversa a sério.

Ele começou a escrever as variações durante a Segunda Guerra Mundial, em 1942, com Paris ocupada pelos alemães. Algumas saíram primeiro em revistas literárias, soltas, antes de o conjunto ganhar forma de livro. A edição de 1947 fechou em 99 textos.

O número 99 nunca ganhou explicação oficial do autor, e as cartas e entrevistas conhecidas não dizem por que ele parou antes da centena redonda. Em 1973, numa edição revista, ele trocou alguns exercícios por outros, mantendo o total.

O tema era pequeno de propósito: com um enredo neutro, o leitor só percebe o estilo.

Os títulos dos exercícios já dizem o jogo. Há "Notações", a versão de caderno de repórter. Há "Litotes", nome da figura que afirma pela negação (dizer "não é feio" para dizer "é bonito"). Há "Onomatopeias", "Retrógrado", "Sonho", "Prognósticos" e "Oficial", entre outros.

Em "Sonho", a cena vira um pesadelo difuso, em que o rapaz parece um bicho de pescoço longo. Em "Prognósticos", tudo é contado no futuro, como previsão de cartomante. Em "O lado subjetivo", o narrador é o próprio rapaz de chapéu, irritado com o mundo.

O livro rendeu a Queneau um lugar próprio na literatura francesa. Em 1951, ele entrou para a Academia Goncourt, o júri que concede o principal prêmio literário da França. Em 1960, fundou com o matemático François Le Lionnais o Oulipo (Oficina de Literatura Potencial), grupo que cria textos a partir de regras formais.

 
 

II  NA PÁGINA

Dez versões da mesma página

O exercício que Queneau fez 99 vezes cabe numa tarde de trabalho do autor iniciante: pegar uma cena curta do próprio livro e reescrevê-la em registros diferentes, sem mudar os fatos. O ganho aparece na comparação entre as versões.

A regra de ouro do livro é travar o conteúdo. Se a cena muda de fato, o autor passa a testar enredo, e o teste deixa de medir a voz. Pela mesma razão, Queneau manteve o chapéu, o pescoço, o empurrão, o banco livre e o botão em todas as páginas.

Cada registro exige decisões pequenas e concretas. A versão de relatório policial pede verbo no passado, horário exato e nenhum adjetivo. O soneto pede rima, métrica e metáfora. A anotação de caderno aceita frase sem verbo, do tipo "Ônibus S, meio-dia, plataforma lotada".

O efeito sobre o leitor muda por completo. O mesmo rapaz de pescoço comprido parece ridículo na versão cômica, ameaçador no relatório e quase comovente na versão subjetiva. Quem controla o registro controla o que o leitor sente pelo personagem.

Para o romance em andamento, o método ajuda nos trechos que soam mornos. Muitas vezes a cena está bem montada e o problema mora no tom: narrada com distância demais, ou com adjetivo demais. Reescrever três ou quatro vezes mostra qual versão pertence ao livro.

O exercício também revela vícios. Um autor que usa as mesmas palavras de apoio em todos os registros descobre essas palavras ao ver as versões lado a lado. O que se repete nas dez páginas é hábito do autor, e não escolha da cena.

O treino pode ser montado assim:

1Escolha uma cena de até 150 palavras do seu manuscrito, com ação simples e dois personagens.
 
2Liste os fatos que não podem mudar: lugar, horário, quem fala, o que acontece.
 
3Reescreva a cena em cinco registros: anotação seca, relato em primeira pessoa, carta formal, versão cômica e versão no tempo futuro.
 
4Leia as cinco em voz alta, na sequência, e marque a frase mais viva de cada uma.
 
5Monte a versão final do livro com as frases marcadas, ajustando o tom ao capítulo.
 

O limite do método é de escala. Queneau tinha uma cena de uma página; um romance tem centenas. O exercício serve para os trechos travados e para achar a voz do narrador no começo do livro, e não para reescrever o manuscrito inteiro dez vezes.

 

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III  O MERCADO

Do exercício ao catálogo

Na primeira edição: a Gallimard, casa onde Queneau também trabalhava como leitor e depois como diretor da Enciclopédia da Pléiade, publicou o livro em 1947. O volume pequeno virou título permanente do catálogo e ganhou reimpressões em formato de bolso.

No palco: em 1949, o grupo vocal Les Frères Jacques levou uma seleção dos exercícios ao cabaré parisiense La Rose Rouge, com direção de Yves Robert. A leitura encenada mostrou que o livro funcionava também como espetáculo.

Na tradução: traduzir o livro obriga o tradutor a reinventar cada jogo de linguagem. A britânica Barbara Wright lançou a versão inglesa, Exercises in Style, em 1958. O italiano Umberto Eco publicou a sua em 1983, pela Einaudi, adaptando trocadilhos e até exercícios inteiros.

No Brasil: a tradução de Luiz Rezende saiu em 1995 pela editora Imago, com o título Exercícios de Estilo. O tradutor precisou achar equivalentes em português para versões que dependem do som do francês.

Nos quadrinhos: em 2005, o quadrinista americano Matt Madden publicou 99 Ways to Tell a Story (99 Maneiras de Contar uma História), aplicando a regra de Queneau a uma página de HQ.

No livro que vendeu mais: em 1959, Queneau lançou Zazie no Metrô, também pela Gallimard. O romance virou sucesso de venda e foi adaptado para o cinema por Louis Malle em 1960.

Nas medidas do caso:

Versões da mesma cena99
Ano da primeira edição1947
Ano da edição revista1973
Fundação do Oulipo1960
Tradução brasileira1995

Uma das 99 versões conversa direto com o mercado. Chama-se "Prière d'insérer" (em português, o texto de orelha ou de contracapa que a editora manda à imprensa), e conta a briga do ônibus como se fosse a apresentação comercial de um romance novo. A versão mais seca do livro, "Notações", abre com cinco palavras que servem de contraste:

“No S, numa hora de pico.”

> Raymond Queneau, Exercícios de Estilo, 1947

No que vale para o independente: na Kindle Direct Publishing (KDP), a plataforma de autopublicação da Amazon, a descrição do livro é um registro à parte. O mesmo enredo contado no tom do romance raramente vende; contado no tom do texto de orelha, ganha gancho, promessa e urgência.

No que o caso prova: que tom se treina como técnica, com exercício repetido sobre o mesmo material.

No que ele não prova: que variação sozinha escreve um livro. Queneau já era romancista publicado quando fez os exercícios.

Autor que escreve num registro só descobre a própria voz por acaso. Autor que testa dez registros escolhe a sua.

“Qual cena do seu livro soaria melhor se você a contasse de um jeito completamente diferente?”

Hoje: pegue 1 cena de até 150 palavras do seu livro e reescreva em 3 registros diferentes, antes das 22h.

 
 
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