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Bomber é um romance de muitas vozes, montado em cenas curtas que pulam o tempo todo entre a Inglaterra e a Alemanha. De um lado, a tripulação de um Lancaster (bombardeiro britânico de quatro motores) se prepara para decolar. Do outro, a população de Altgarten segue o dia sem saber o que vem pela noite.
Entre os dois lados, Deighton põe os operadores de radar alemães, os pilotos de caça noturna, os oficiais em Londres e os moradores que só querem jantar. Cada grupo recebe pedaços curtos da narrativa, alternados como num filme.
Essa estrutura cruzada exige mexer na ordem o tempo todo. Uma cena de cabine funciona melhor antes do jantar em família, ou depois? O suspense cresce se a sirene toca neste parágrafo ou três páginas adiante?
O erro no centro do livro
O alvo oficial da missão é a cidade de Krefeld, no vale do Ruhr. Uma sequência de falhas pequenas, de equipamento, de sinalização e de julgamento, desvia as bombas para Altgarten, que não tinha importância militar nenhuma.
O romance inteiro gira em torno desse desvio. O leitor sabe desde cedo que algo vai dar errado e assiste às engrenagens se alinharem, uma decisão razoável de cada vez, até a catástrofe sobre gente comum.
A noite termina com perdas dos dois lados, entre tripulantes britânicos e civis de Altgarten, sem herói que corrija o desvio a tempo. Deighton recusa o consolo e deixa o leitor com a conta da noite inteira.
Para costurar tantos fios, Deighton entrevistou veteranos, consultou arquivos e cruzou horários, rotas e procedimentos de 1943. Cada cena precisava encaixar no relógio da noite sem contradizer as outras.
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Num romance de muitas vozes, a ordem das cenas faz o trabalho do suspense.
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Montar como quem edita filme
A fita da MT/ST deixava a montagem respirar. Trocar duas cenas de lugar já não significava redatilografar o capítulo, e Deighton podia testar a ordem que o papel antes desencorajava.
O método vale para qualquer livro com duas ou mais linhas narrativas. Escreva as cenas soltas, numere cada uma, e só depois decida a sequência, sabendo que a primeira ordem raramente é a melhor.
Deighton tinha experiência com esse tipo de montagem. Antes de virar romancista, trabalhou como ilustrador e diretor de arte em agências de publicidade de Londres, profissão em que se recorta, cola e reorganiza o layout até a página funcionar.
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