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A máquina de Len Deighton entrou pela janela

Em 1968, uma IBM com fita magnética subiu por grua até a casa de Deighton em Londres e mudou a revisão do romance Bomber.

Uma máquina de escrever IBM içada por grua até a janela de um sobrado em Londres.

A máquina subiu pela fachada, não pela escada.

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Uma grua de obra, uma janela sem caixilho, uma máquina IBM do tamanho de uma escrivaninha. Os três se encontraram em 1968 diante de um sobrado de Merrick Square, no bairro de Southwark, ao sul de Londres.

O sobrado era do escritor britânico Len Deighton, autor de romances de espionagem desde The IPCRESS File (O Arquivo IPCRESS), de 1962. A máquina era grande demais para a entrada da casa. A saída foi desmontar a janela e içar o equipamento pela fachada.

O aparelho levava a sigla MT/ST, de Magnetic Tape Selectric Typewriter (máquina de escrever Selectric com fita magnética). A IBM o oferecia desde 1964 a escritórios de advocacia e repartições, onde a mesma carta precisava sair idêntica dezenas de vezes.

Quem pediu a máquina não foi Deighton. Foi Ellenor Handley, a assistente que datilografava os manuscritos dele e já não aguentava refazer páginas inteiras a cada frase trocada.

Deighton escrevia, riscava, colava tiras de papel e mudava cenas de lugar. Cada mudança obrigava Handley a datilografar a folha toda outra vez, e às vezes as folhas seguintes, porque o texto escorria para baixo e empurrava tudo.

Com a fita magnética, ela gravava o texto enquanto digitava. Para corrigir, voltava ao trecho na fita, regravava só a linha errada e mandava a máquina imprimir a página limpa sozinha.

O romance escrito nessa rotina saiu em 1970 pela editora Jonathan Cape. Chama-se Bomber e acompanha, ao longo de um dia e uma noite, um único ataque aéreo britânico contra a Alemanha, que termina sobre uma cidade inventada, Altgarten.

O caso ficou décadas esquecido até o professor americano Matthew Kirschenbaum, da Universidade de Maryland, reconstituí-lo no livro Track Changes (Controle de Alterações), lançado em 2016 pela Harvard University Press. Para ele, Bomber é o primeiro romance escrito com um processador de texto.

A primeira seção abre a máquina e mostra o que a fita mudou na mesa de trabalho de Handley.

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I  A DOSE

A fita que guardava a página

A resposta de ontem

Que editora Lobato fundou em 1925, depois da falência da primeira?

Foi a Companhia Editora Nacional, criada em 1925 com o sócio Octalles Marcondes Ferreira. A casa cresceu com livros escolares e infantis, virou uma das maiores editoras do país e foi ela quem publicou, em 1944, a primeira edição de A Barca de Gleyre.

A MT/ST não tinha tela: o texto existia em dois lugares, no papel e numa fita magnética dentro de um cartucho. Cada tecla batida virava um sinal gravado, e a fita podia ser rebobinada, lida e regravada.

A parte de cima era uma Selectric comum, a máquina da IBM com esfera de tipos (uma bola de metal com as letras em relevo, que gira e bate no papel). A parte de baixo, num gabinete separado, guardava as unidades de fita.

Na primeira passada, Handley datilografava o rascunho de Deighton como em qualquer máquina. O papel saía com os erros de sempre, mas a fita guardava cada linha numa posição que dava para achar depois.

Corrigir sem recomeçar

Na revisão, a datilógrafa não refazia a página. Avançava a fita até o trecho marcado, digitava só a frase nova por cima da antiga e deixava o resto intacto.

Depois apertava o comando de saída, e a Selectric datilografava sozinha a versão limpa, letra por letra, numa velocidade que mão nenhuma acompanhava. O papel novo saía sem borrão de corretivo e sem tira colada.

Para um romance com dezenas de personagens e cenas que trocavam de ordem, o ganho não estava na velocidade da primeira cópia. Estava na quinta, na sexta, na décima versão, que antes custavam dias de datilografia repetida.

Revisar ficou barato, e o que fica barato passa a ser feito mais vezes.

O autor longe da máquina

Deighton quase não tocava no aparelho. Kirschenbaum descreve em Track Changes uma divisão de trabalho: o escritor seguia no papel e no lápis, e Handley transformava cada leva de correções em fita e página nova.

A mudança, portanto, foi de rotina e não de gesto. O autor continuou riscando à mão, mas passou a riscar sem culpa, porque sabia que o custo da página refeita tinha despencado.

Kirschenbaum chegou ao caso fazendo perguntas a quem viveu a época. Escreveu ao próprio Deighton, que ainda guardava a lembrança da grua na rua e da janela fora do lugar, e cruzou o relato com material da IBM sobre o modelo.

O professor também procurou Handley. O depoimento dela confirmou a ordem dos fatos: a ideia de alugar a máquina partiu da assistente, cansada de um método que punia cada vírgula mudada com uma folha inteira.

 
 

II  NA PÁGINA

Um dia, uma noite, duas cidades

Bomber é um romance de muitas vozes, montado em cenas curtas que pulam o tempo todo entre a Inglaterra e a Alemanha. De um lado, a tripulação de um Lancaster (bombardeiro britânico de quatro motores) se prepara para decolar. Do outro, a população de Altgarten segue o dia sem saber o que vem pela noite.

Entre os dois lados, Deighton põe os operadores de radar alemães, os pilotos de caça noturna, os oficiais em Londres e os moradores que só querem jantar. Cada grupo recebe pedaços curtos da narrativa, alternados como num filme.

Essa estrutura cruzada exige mexer na ordem o tempo todo. Uma cena de cabine funciona melhor antes do jantar em família, ou depois? O suspense cresce se a sirene toca neste parágrafo ou três páginas adiante?

O erro no centro do livro

O alvo oficial da missão é a cidade de Krefeld, no vale do Ruhr. Uma sequência de falhas pequenas, de equipamento, de sinalização e de julgamento, desvia as bombas para Altgarten, que não tinha importância militar nenhuma.

O romance inteiro gira em torno desse desvio. O leitor sabe desde cedo que algo vai dar errado e assiste às engrenagens se alinharem, uma decisão razoável de cada vez, até a catástrofe sobre gente comum.

A noite termina com perdas dos dois lados, entre tripulantes britânicos e civis de Altgarten, sem herói que corrija o desvio a tempo. Deighton recusa o consolo e deixa o leitor com a conta da noite inteira.

Para costurar tantos fios, Deighton entrevistou veteranos, consultou arquivos e cruzou horários, rotas e procedimentos de 1943. Cada cena precisava encaixar no relógio da noite sem contradizer as outras.

Num romance de muitas vozes, a ordem das cenas faz o trabalho do suspense.

Montar como quem edita filme

A fita da MT/ST deixava a montagem respirar. Trocar duas cenas de lugar já não significava redatilografar o capítulo, e Deighton podia testar a ordem que o papel antes desencorajava.

O método vale para qualquer livro com duas ou mais linhas narrativas. Escreva as cenas soltas, numere cada uma, e só depois decida a sequência, sabendo que a primeira ordem raramente é a melhor.

Deighton tinha experiência com esse tipo de montagem. Antes de virar romancista, trabalhou como ilustrador e diretor de arte em agências de publicidade de Londres, profissão em que se recorta, cola e reorganiza o layout até a página funcionar.

 

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III  O MERCADO

Do escritório ao romancista

A IBM não pensou em escritores quando lançou a MT/ST: o alvo eram secretárias, advogados e departamentos de correspondência. O folheto falava em cartas repetidas, contratos padronizados e menos horas extras na datilografia.

O aluguel pesava no orçamento de um escritório inteiro, e quase nenhum autor bancaria um equipamento desses sozinho. Deighton bancou porque já vendia bem e porque tinha uma assistente em tempo integral para operar a máquina.

A condição dele era rara. O escritor comum de 1970 seguia na Olivetti ou na Remington, pagava datilógrafa por página e evitava mexer no texto depois de passado a limpo, porque cada mudança tinha preço em dinheiro.

O custo da página refeita

Essa conta moldava os livros. Muitos autores congelavam o manuscrito cedo e entregavam ao editor uma versão que já sabiam imperfeita, só para não pagar outra rodada de datilografia.

O processador de texto chegou à mesa do escritor comum só na década de 1980, com os microcomputadores pessoais. Ali o custo de mover um parágrafo caiu a zero, e Kirschenbaum registra em Track Changes os autores que adotaram a novidade nos primeiros anos.

O custo zero trouxe um risco novo, de que o livro mostra exemplos: a revisão sem limite. Sem a barreira da datilografia, há quem reescreva o primeiro capítulo para sempre e nunca chegue ao último. A barreira antiga, por mais cara, ao menos obrigava a decidir quando a página estava pronta.

A máquina tirou o preço da revisão; o prazo precisa voltar a cobrar.

Quatro passos para revisar como Handley

Para usar a lição da fita sem cair na revisão infinita, siga quatro passos:

1. Escreva o capítulo inteiro antes de revisar qualquer frase dele.

2. Separe as cenas em blocos numerados, um por arquivo ou por seção.

3. Teste duas ordens diferentes e leia cada versão do começo ao fim.

4. Escolha uma ordem, marque a data e não reabra o capítulo antes da próxima volta completa no livro.

Deighton e Handley levaram a fita, a grua e a janela desmontada até um romance que virou best-seller no Reino Unido, ganhou reputação de obra mais ambiciosa do autor e segue em catálogo meio século depois, com o mesmo erro de navegação no centro da trama.

Hoje: pegue 1 capítulo seu, mude 3 cenas de lugar em 20 minutos e anote qual ordem ficou melhor.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que data impossível do calendário Len Deighton marcou o ataque aéreo narrado em Bomber?

 
 
Quiz da edição

Quem teve a ideia de alugar a máquina MT/ST que mudou a revisão de Bomber?

AO próprio Len Deighton, autor do romance
BA editora Jonathan Cape, responsável pela publicação
CEllenor Handley, a assistente que datilografava os manuscritos
DMatthew Kirschenbaum, o professor que reconstituiu o caso em 2016

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