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A Comédia de Dante no toscano da rua

Exilado de Florença, Dante trocou o latim das escolas pela língua do mercado e escolheu os leitores antes do primeiro verso.

Pergaminho e pena de ganso numa mesa de pedra em Ravena.

Um poema de cem cantos na fala da rua.

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Um pergaminho dobrado, uma pena de ganso, a fala de uma feira de Florença. Os três formam o material com que Dante Alighieri começou, por volta de 1307, um poema de cem cantos.

Dante tinha nascido em Florença em 1265. Em 1302, uma facção rival, os guelfos negros, o condenou ao exílio, com pena de fogueira se voltasse. Ele escreveu o poema longe de casa, entre Verona, a Lunigiana e Ravena, hospedado por senhores que o recebiam como poeta e diplomata.

Na Itália daquele tempo, quem escrevia sobre Deus, o além e a política escrevia em latim. Era a língua da Igreja, das universidades de Bolonha e Paris, dos tratados de direito e de filosofia. Um texto em latim podia ser lido por um clérigo em Oxford ou em Praga.

O preço dessa circulação aparecia dentro de casa. O mercador florentino, a viúva, o artesão da lã e o tabelião do bairro falavam toscano (o dialeto da Toscana, base do italiano de hoje) e, na maioria, não liam latim.

Dante escolheu o toscano. A decisão aparece já no verso de abertura e vale para os 14.233 versos do poema, todos na fala de quem comprava pão na rua.

Os letrados torceram o nariz. Um professor de Bolonha mandou ao poeta uma carta em versos latinos, pedindo que ele parasse de gastar o talento com a plebe. Quem era esse professor, e como Dante respondeu, a primeira faixa conta.

A escolha pesava mais que um gosto de estilo. Ela definia, antes de a primeira linha existir, quem poderia abrir o livro sem intérprete: o padre ou o vizinho.

Também definia o tipo de frase. Um poema para o vizinho precisava de palavras que o vizinho usasse, de rimas fáceis de guardar e de gente que ele reconhecesse andando pela cidade.

A primeira faixa mostra como Dante defendeu a língua da rua num livro escrito, por ironia, em latim.

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I  A DOSE

O tratado em latim a favor da rua

A resposta de ontem

Qual escritor argentino real inspirou o Sensini de Bolaño?

Antonio Di Benedetto, autor do romance Zama, de 1956. Preso pela ditadura argentina em 1976 e solto no ano seguinte, ele se exilou na Espanha e passou a inscrever contos em concursos de prefeitura para se sustentar. Bolaño cruzou com ele nesse circuito, trocou cartas com ele e o transformou em Luis Antonio Sensini.

Por volta de 1303, já no exílio, Dante começou o De vulgari eloquentia (Sobre a eloquência em língua vulgar), um tratado escrito em latim para convencer os letrados. Ninguém da escola levaria a sério um argumento em toscano, então ele usou a língua deles para defender a outra.

O argumento central cabe numa linha. A língua vulgar (a fala materna, aprendida sem regra, imitando a ama) vale mais que o latim, porque nasce natural e todo mundo a usa. O latim, para Dante, era uma língua de gramática, aprendida com esforço e mantida por poucos.

O tratado percorre os dialetos da Itália um a um. Dante descarta o romano por soar grosseiro, critica o siciliano das ruas e não poupa nem o florentino da praça. Procura uma fala ilustre, polida pelos melhores poetas, que nenhuma cidade possui inteira.

O livro ficou incompleto. Para no meio do segundo volume, no capítulo 14, e quase não circulou: a primeira edição impressa saiu só em 1529, numa tradução italiana de Gian Giorgio Trissino.

A carta de Bolonha

Por volta de 1319, Dante vivia em Ravena quando recebeu um poema em latim de Giovanni del Virgilio, professor de poesia latina na Universidade de Bolonha. O tom misturava admiração e cobrança.

Del Virgilio perguntava por que um poeta daquele tamanho entregava os temas mais altos aos leigos, numa língua de praça. Propunha que Dante escrevesse em latim um poema sobre os fatos da época e prometia a coroa de louros (o prêmio dos poetas) em Bolonha.

Dante respondeu também em latim, numa écloga (poema pastoril, com pastores conversando). Disfarçado de pastor, recusou o convite com delicadeza e disse que só aceitaria a coroa em Florença, a cidade que o expulsara.

O latim prometia a coroa em Bolonha; o toscano prometia o leitor de Florença.

Ele nunca voltou. Florença manteve a sentença, e Dante morreu em Ravena em setembro de 1321, poucos meses depois de terminar o Paraíso. O túmulo dele continua em Ravena.

A troca de poemas mostra a aposta inteira. Dante dominava o latim e o usava quando queria, em tratados, cartas e éclogas. Reservou o toscano para a obra pensada para durar, porque ali estava o público que ele queria.

O título seguiu a mesma lógica. Comédia, no vocabulário da época, era a história que começa mal e termina bem, contada em estilo humilde. O adjetivo Divina só entrou no título impresso em 1555, numa edição veneziana organizada por Lodovico Dolce.

 
 

II  NA PÁGINA

O verso feito para a memória

A Comédia abre com um homem perdido numa floresta escura, aos 35 anos, metade dos 70 que a Bíblia dá à vida humana. O verso de abertura usa palavras de qualquer florentino:

“Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi ritrovai per una selva oscura” (no meio do caminho de nossa vida, me encontrei numa selva escura).

Dante Alighieri, A Divina Comédia, Inferno, canto I, c. 1307

Nenhuma palavra ali exigia escola. Caminho, vida, selva e escuro eram palavras de feira, e a imagem do homem perdido no mato servia ao padre e ao pedreiro.

A terça rima

Dante inventou para o poema a terza rima (terça rima, estrofe de três versos encadeados). O primeiro e o terceiro verso de cada estrofe rimam entre si, e o do meio lança a rima da estrofe seguinte, no esquema ABA, BCB, CDC.

O encadeamento tinha função prática. Num mundo de poucos livros, muitos leitores eram ouvintes, e a rima que puxa a próxima ajudava a decorar. Cada terceto deixava pendurada a rima de onde a história continuaria.

Os cantos também têm medida de sessão de leitura. São cem ao todo: um de abertura e 33 para cada parte, Inferno, Purgatório e Paraíso. A média fica em torno de 142 versos por canto, extensão que uma sala aguenta ouvir de uma assentada.

A rima que puxa a próxima servia ao ouvinte antes de servir ao crítico.

Gente da rua dentro do poema

O vocabulário acompanha os lugares. No Inferno, Dante usa palavras baixas e até grosseiras quando a cena pede, como no canto 21, entre demônios. No Paraíso, a mesma língua sobe e ganha verbos inventados para falar de luz.

Os personagens também eram conhecidos do público. Francesca da Rimini, o conde Ugolino, papas, banqueiros e vizinhos florentinos aparecem identificados. O leitor da cidade reconhecia gente cujo enterro tinha acompanhado.

A escolha da língua mudou até a forma de discutir teologia. Dante pôs na boca de almas comuns questões de livre-arbítrio e de justiça divina, e as escreveu na sintaxe da conversa, com frases que o ouvinte acompanhava sem papel na mão.

Para quem escreve hoje, a página de Dante ensina uma operação simples: escolher primeiro quem vai ouvir, depois a palavra. Ele levou o além, a teologia e a política até quem nunca entrou numa universidade, usando as palavras desse leitor.

 

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III  O MERCADO

Do manuscrito à língua de um país

O toscano fez a Comédia circular entre leitores de fora da escola ainda no século 14. Copistas de Florença produziam exemplares em série, e os filhos de Dante, Jacopo e Pietro, escreveram os primeiros comentários do poema logo depois da morte do pai.

A cidade que exilou o poeta acabou pagando por ele. Em 1373, a comuna de Florença contratou Giovanni Boccaccio, autor do Decamerão, para ler e comentar a Comédia em público, na igreja de Santo Stefano di Badia. Boccaccio chegou ao canto 17 do Inferno antes de adoecer e parar.

A imprensa reforçou o caminho. A primeira edição impressa saiu em 1472, em Foligno, pela oficina do alemão Johann Numeister, menos de vinte anos depois da Bíblia de Gutenberg.

Uma língua para a península

Em 1525, o cardeal Pietro Bembo publicou Prose della volgar lingua (Prosas sobre a língua vulgar) e fixou o toscano de Petrarca e Boccaccio como modelo da escrita literária. Bembo tinha ressalvas a Dante e achava rude parte do vocabulário dele, mas o toscano que o poeta pôs em circulação virou a base do padrão.

Quando a Itália se unificou, em 1861, o toscano literário virou língua oficial de um país onde poucos o falavam em casa. O linguista Tullio De Mauro, em Storia linguistica dell'Italia unita (História linguística da Itália unificada), de 1963, estimou em 2,5% a parcela de italianos que dominava a língua comum naquele ano.

A língua escolhida para um poema virou, cinco séculos depois, a língua de uma escola nacional.

Escolher a língua é escolher o mercado. Para o escritor brasileiro, o latim de Dante tem outros disfarces: o jargão acadêmico, o português de manual, a frase de contrato. Os três afastam o leitor que pega o livro na livraria do shopping.

Para testar a língua da sua página, siga quatro passos:

1. Escolha 1 leitor real, com profissão e idade, para quem o livro foi escrito.

2. Releia a página pensando nessa pessoa e marque cada palavra que ela pararia para perguntar.

3. Troque cada palavra marcada pela que essa pessoa usaria numa conversa.

4. Mantenha o termo técnico só quando ele for o assunto, e traduza na mesma frase.

Dante sabia para quem escrevia antes do primeiro verso. Para quem você escreve quando ninguém está corrigindo a sua página?

Hoje: pegue 1 página do seu texto, circule 5 palavras que o seu leitor não usaria e troque as cinco até as 22h.

 
 
Quiz da edição

No texto, quem enviou a Dante, por volta de 1319, um poema em latim cobrando que ele escrevesse sobre os fatos da época numa língua mais nobre?

AGiovanni Boccaccio
BGiovanni del Virgilio
CPietro Bembo
DGian Giorgio Trissino

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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