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A carta que Isabel Allende começou em 8 de janeiro
Ela escreveu de uma cozinha em Caracas para um avô de quase cem anos no Chile, e a carta nunca chegou ao destinatário.
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A carta começada na cozinha de Caracas
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Um caderno de contas, uma carta de despedida, um diário de bordo. Nenhum dos três foi escrito com a intenção de virar livro, e os três já viraram.
O autor inédito escreve para uma plateia imaginária. Ele pensa no leitor genérico, no crítico, na mesa da livraria, no comentário que alguém deixará na internet. A frase sai tensa porque está sendo julgada antes de existir, e um texto que nasce sob julgamento sai formal, defensivo e sem nenhuma marca de pessoa.
Existe um atalho conhecido por quem escreve há tempo suficiente: escolher um destinatário único, com nome, rosto e história. Não o público, não o mercado, uma pessoa só. O tom muda de imediato, porque ninguém escreve carta pensando em vender carta. Some o pigarro, some a introdução explicativa, some o vocabulário empolado. Sobra a voz que a pessoa tem quando fala com quem confia.
A segunda peça é a data. Quase todo estreante trata o início do livro como consequência de um estado interno: começa quando a ideia amadurecer, quando a rotina abrir espaço, quando a vontade aparecer. Um estado interno não tem hora marcada, então nunca chega. Uma data no calendário chega sozinha, com ou sem vontade, e o que costuma separar um autor com quatro livros de um autor com quatro pastas de anotações é exatamente isto: um deles marcou o dia.
A terceira peça incomoda mais. O texto que vira livro raramente começa como projeto literário. Começa como necessidade urgente de dizer algo a alguém, num dia específico, por um motivo que não tem nada de artístico. A literatura entra depois, na revisão, quando o material já existe no papel e pede forma.
A cena que abre a próxima seção junta as três peças numa noite só: um telefonema atravessando a Cordilheira, uma mulher de trinta e oito anos exilada num apartamento de Caracas, e uma máquina de escrever portátil apoiada na mesa da cozinha depois do expediente na escola.
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I A DOSE
A noite em que a carta ficou sem destinatário
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Uma carta de família escrita depois do expediente virou o primeiro romance de uma estreante de trinta e oito anos.
Em 8 de janeiro de 1981, uma chilena exilada em Caracas recebeu a notícia de que o avô, com quase cem anos, tinha decidido parar de comer e esperar o fim em Santiago. Ela trabalhava numa escola, escrevia crônicas de vez em quando e não tinha publicado um único livro. Naquela noite sentou na cozinha e começou uma carta para ele.
A carta tinha um objetivo prático e nenhum objetivo literário. O avô havia contado a vida inteira em histórias de família, e ela queria devolver essas histórias por escrito enquanto ele ainda estivesse vivo para saber que nada se perdera. A primeira frase que ela datilografou reproduzia uma linha que o próprio avô usava.
O texto cresceu sem plano. Uma tia clarividente, uma casa grande com quartos que ninguém abria, um patriarca de temperamento difícil, um país que ela tinha deixado às pressas em 1975 depois do golpe. Cada personagem puxava outro, cada história familiar exigia a seguinte, e a carta passou de páginas para maços de páginas empilhados ao lado da máquina.
O avô morreu antes do fim. A destinatária desapareceu no meio do processo, e o que ficou na mesa foi um calhamaço de quinhentas páginas endereçado a ninguém. Ela seguiu escrevendo mesmo assim, todas as noites, depois do trabalho, até fechar um manuscrito em cerca de um ano.
A ausência do destinatário importa para quem escreve. A carta já tinha cumprido a função no primeiro parágrafo: destravar a voz. Escrevendo para um homem que conhecia cada personagem citado, ela não precisou explicar contexto, apresentar nomes nem justificar o tom. O texto saiu íntimo porque o interlocutor era íntimo, e essa intimidade permaneceu no papel depois que ele já não podia ler.
O manuscrito circulou por editoras da América Latina e foi recusado. Chegou então às mãos de uma agente literária em Barcelona, Carmen Balcells, a mesma que representava boa parte dos autores do boom latino-americano. Ela aceitou o livro, e recomendou à autora que não largasse o emprego, porque qualquer pessoa é capaz de escrever um primeiro livro razoável.
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A carta não virou livro porque era bem escrita, virou livro porque nunca parou de crescer.
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Vale marcar a contrapartida sem romantismo. A autora era jornalista de formação, tinha anos de crônica publicada e uma família com material narrativo denso disponível na memória. A mesma noite de janeiro na mão de quem nunca escreveu uma linha teria produzido uma carta bonita e nada mais.
O que sobrevive à biografia é o método. Escolher uma pessoa real como destinatária, escrever para ela sem edição, e deixar o texto crescer até ele já não caber no formato de carta.
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II NA PÁGINA
Escrever para uma pessoa com nome
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Um texto endereçado a alguém específico soa como gente falando, um texto endereçado a todo mundo soa como comunicado institucional.
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Repare no mecanismo. Ao escrever para o avô, ela não podia usar linguagem de escritora, porque ele reconheceria a impostura na hora. Não podia explicar quem era cada tia, porque ele conheceu todas. Não podia adoçar os defeitos do patriarca, porque ele era o patriarca. O destinatário conhecido funciona como filtro automático de mentira, de enfeite e de explicação desnecessária.
Compare com a página que o estreante escreve para o público em geral. Ela abre com um parágrafo de ambientação, apresenta o cenário, informa o ano, esclarece a relação entre os personagens e só depois começa a acontecer algo. Tudo aquilo é serviço prestado a um leitor abstrato que ainda não existe. O leitor real fecha o arquivo antes da explicação terminar.
O segundo efeito é psicológico e vale ouro para quem trava. Página em branco assusta porque parece exame. Carta não assusta ninguém, e a mesma pessoa que não consegue escrever duzentas palavras de romance escreve mil palavras de mensagem para um amigo sem perceber o esforço. A tarefa é idêntica, o rótulo é que muda, e o rótulo é o que paralisa.
O terceiro efeito é a data fixa. Depois daquele janeiro, a autora passou a abrir todo livro novo em 8 de janeiro, com o dia inteiro reservado, sem compromisso na agenda e sem saber ainda o que vai escrever. A superstição resolve um problema real de produção: elimina a negociação diária sobre quando começar. A decisão foi tomada uma vez, em 1981, e não precisa ser tomada de novo todo ano.
Dá para trabalhar assim a partir de amanhã, sem talento especial e sem esperar tragédia familiar nenhuma:
| 1 | Escolha um destinatário real, vivo ou morto, que conheça o assunto do seu livro por dentro. Escreva o nome dessa pessoa num papel e deixe à vista enquanto escreve. | | | | 2 | Abra o arquivo com a saudação literal: “Querido fulano”. A saudação sai na revisão, o tom que ela produz fica. | | | | 3 | Escreva sem explicar nada que o destinatário já saiba. As lacunas viram mistério para o leitor final, e mistério prende mais que informação. | | | | 4 | Marque uma data fixa no calendário para abrir o próximo projeto, todo ano a mesma, e trate o dia como consulta médica agendada. | | |
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“Escrevi uma carta espiritual para o meu avô, e daquelas páginas nasceu o meu primeiro romance.”
> Isabel Allende, Paula, 1994
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A objeção justa aparece rápido: escrever carta produz confissão, não romance. Procede quando a revisão nunca acontece. O endereçamento serve para destravar a primeira versão, não para dispensar estrutura, corte e reescrita depois. As quinhentas páginas da cozinha de Caracas passaram por trabalho pesado de organização antes de chegar a uma editora.
Existe também o risco oposto, o de escrever para agradar o destinatário. A carta funciona quando é honesta com a pessoa, não quando é gentil com ela. Um avô idealizado produz personagem morno.
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