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A carta que dispensou a autora
Em setembro de 1991, Elena Ferrante avisou por carta à editora e/o que não faria lançamento nem entrevista de Um Amor Incômodo.
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A carta anexa ao romance de estreia
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Uma máquina de escrever, um romance de estreia sem contrato, uma folha avulsa com poucos parágrafos. Os três chegaram juntos à mesa de Sandra Ozzola e Sandro Ferri, donos da pequena editora romana Edizioni e/o, em setembro de 1991.
A folha avulsa era uma carta. Nela, a autora estreante avisava que entregava o romance e não faria mais nada por ele: nada de noite de lançamento, nada de entrevista, nada de retrato na orelha, nada de mesa em festival literário.
O argumento cabia numa linha. Livro terminado não precisa do autor para circular. Quem escreveu já tinha cumprido a tarefa inteira, e o resto seria trabalho do texto com quem o abrisse.
O nome na assinatura era Elena Ferrante, e ninguém na editora sabia quem estava por trás dele. O romance era Um Amor Incômodo, história de uma mulher que volta a Nápoles depois que o corpo da mãe aparece no mar, publicado pela e/o em 1992.
A editora topou a condição. O livro saiu sem turnê, sem entrevista de lançamento e sem foto da autora, e vendeu devagar no primeiro ano, num catálogo pequeno que dependia de boca a boca de livraria.
Para uma casa independente, abrir mão do rosto do estreante é abrir mão da ferramenta mais barata de imprensa que existe. Resenha se consegue com livro; página de revista, com entrevista; convite de festival, com alguém disposto a sentar na mesa. A e/o assinou sabendo que ficaria sem as três.
Trinta e poucos anos depois, a mesma assinatura responde por uma das obras mais traduzidas da literatura italiana contemporânea, e a carta de 1991 abre Frantumaglia, o volume de cartas e entrevistas escritas que a e/o publicou na Itália em 2003.
A seção a seguir monta a cronologia por dentro: o que a carta prometia, o que a editora aceitou em troca, quanto tempo o acordo resistiu e o que continua sem confirmação documental nessa história.
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I A DOSE
Uma condição por escrito
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Elena Ferrante entregou o romance de estreia com uma carta anexa que recusava lançamento, entrevista e retrato, e a editora aceitou.
Elena Ferrante é o nome que assina os livros publicados pela Edizioni e/o desde 1992, e a carta de setembro de 1991 aos editores Sandra Ozzola e Sandro Ferri é o documento mais antigo dessa assinatura. A cronologia do acordo tem marcos datados e nenhum deles depende de saber quem escreve.
O pedido da carta era operacional, não filosófico. A autora se comprometia com o texto e com a revisão, e recusava as tarefas de divulgação que uma editora costuma cobrar de um estreante em troca de espaço na imprensa.
Ela ofereceu uma compensação concreta em lugar da presença física: responderia por escrito ao que fosse necessário, quando a pergunta valesse a pena. Foram essas respostas escritas, somadas às cartas aos editores, que virariam Frantumaglia anos depois.
A e/o era uma casa independente e pequena, fundada em Roma em 1979, especializada em traduzir literatura do Leste Europeu antes de apostar em autores italianos. Um estreante sem rosto e sem entrevista era um risco comercial numa editora desse porte.
Um Amor Incômodo saiu em 1992 e circulou sem alarde até o cinema levá-lo adiante. Mario Martone adaptou o romance em 1995, com Anna Bonaiuto no papel principal, e o filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes naquele ano.
A adaptação apertou o acordo pela primeira vez. Prêmio e imprensa cobram a presença de quem escreveu, e a autora sustentou a recusa, inclusive quando o romance foi indicado a prêmios italianos.
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A carta não pedia mistério, pedia divisão de trabalho: o autor entrega o texto, a editora entrega o livro ao leitor, e a conversa que sobra acontece na página, não no palco. Foi essa cláusula, e não o anonimato em si, que a e/o assinou em 1991.
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O acordo durou duas décadas em silêncio até a série napolitana mudar a escala do problema. A amiga genial saiu na Itália em 2011, e os quatro volumes foram publicados entre 2011 e 2014, traduzidos para dezenas de idiomas.
Com a escala vieram as tentativas de identificação. Em outubro de 2016, o jornalista Claudio Gatti publicou no diário econômico italiano Il Sole 24 Ore, e em veículos parceiros na França, na Alemanha e nos Estados Unidos, uma apuração de registros financeiros e imobiliários apontando a tradutora Anita Raja como autora dos livros.
Um ponto precisa ser dito com todas as letras: a editora nunca confirmou o nome, a apontada nunca se pronunciou sobre a acusação, e a autoria segue sem confirmação documental de qualquer das partes. O que existe é a apuração de um jornalista, contestada publicamente por escritores e por leitores, e o silêncio de quem poderia encerrar a dúvida.
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II NA PÁGINA
O livro sem o seu rosto
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O caso cobra três providências de quem vai publicar: escrever a condição antes de assinar, oferecer algo no lugar do que você recusa, e transferir para o texto o peso que você tirou da sua imagem. Nenhuma delas depende de ser famoso, e as três cabem numa página de acordo.
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Comece pela condição escrita. Combinação verbal sobre divulgação vira mal-entendido no primeiro convite de podcast, e quem recusa depois de ter dado a entender que aceitaria passa por difícil; quem avisou por escrito antes está apenas cumprindo o combinado.
Passe à compensação. Recusa seca fecha porta, e Ferrante não recusou seca: ofereceu resposta escrita, revisão cuidadosa e disponibilidade para o que fosse feito no papel. Editor aceita ausência quando recebe outra moeda no lugar dela.
O terceiro item é o mais caro. Sem rosto, sem palco e sem história pessoal do autor, sobra o texto sozinho, e texto sozinho precisa de abertura forte, meio que sustenta e desfecho que o leitor comente com outra pessoa.
| 1 | Escreva hoje, em cinco linhas, o que você faz e o que você não faz de divulgação, e guarde o arquivo com data no nome. | | | | 2 | Liste ao lado de cada recusa uma contrapartida concreta que você entrega no lugar dela, no formato tarefa mais prazo. | | | | 3 | Releia a primeira página do seu texto perguntando uma coisa só: ela funciona para quem não sabe nada sobre você? | | | | 4 | Mande essas cinco linhas junto com o material na próxima vez que enviar seu texto a editora, agente ou parceiro. | | |
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“Os livros, uma vez escritos, não têm nenhuma necessidade de seus autores.”
> Elena Ferrante, carta de 1991 aos editores, em Frantumaglia, 2003
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A frase é uma aposta de produto, não uma pose. Ela transfere para o objeto impresso toda a tarefa de convencer, e quem faz essa transferência precisa entregar um objeto capaz de aguentar o peso sem a muleta da biografia do autor.
Vale separar o que a escolha resolve do que ela deixa em pé. Ela resolve tempo perdido em divulgação improdutiva, exposição indesejada e dependência de carisma pessoal. Ela não resolve texto morno, ausência de editora disposta a trabalhar o livro nem catálogo sem vendedor.
Uma advertência de contexto evita a leitura ingênua. Ferrante encontrou editores dispostos a carregar o livro no lugar dela, e a e/o fez o trabalho de imprensa, de livraria e de tradução que a autora recusou. Ausência do autor só funciona com alguém presente do outro lado.
E existe um ganho de rotina na providência. Quem escreve as próprias regras de divulgação para de decidir caso a caso, no calor do convite, e ganha de volta as horas que gastaria pesando cada pedido.
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