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A cabana que Roald Dahl trancava por dentro
No fundo do jardim, Roald Dahl escrevia numa poltrona velha, com uma tábua no colo e um osso do próprio quadril ao alcance da mão.
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A cabana no fundo do jardim em Great Missenden
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Uma bola de papel-alumínio grande como um punho, um pedaço de osso do quadril, uma tábua forrada de feltro verde. Os três ficavam ao alcance da mão do escritor britânico Roald Dahl, dentro da cabana onde nasceram Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolate, O Bom Gigante Amigo e Matilda.
A cabana era um galpão estreito no fundo do jardim de Gipsy House, a casa da família em Great Missenden, vilarejo do condado de Buckinghamshire, a noroeste de Londres. Um caminho de pedras levava da cozinha até a porta. Lá dentro cabiam uma poltrona, uma mesinha lateral e o autor.
A rotina tinha hora marcada. Às 10h, Dahl atravessava o jardim, entrava e fechava a porta. Ninguém podia segui-lo: nem a mulher, nem os filhos, nem quem limpava a casa. Por décadas, a poeira, as aparas de lápis e as folhas descartadas ficaram no chão, porque vassoura também não passava da soleira.
A poltrona tinha história própria. Era a velha poltrona de encosto alto da mãe dele, e Dahl mandou cortar um pedaço do encosto para aliviar a coluna, ferida em 1940, quando o caça que ele pilotava pela Força Aérea Real britânica caiu no deserto da Líbia. Com as costas nesse apoio, ele esticava as pernas sobre um baú e as cobria com um saco de dormir.
Visto de fora, o arranjo parece mania de escritor excêntrico. Nenhuma peça ali foi escolhida pela aparência. A poltrona resolvia a dor, a tábua dispensava a escrivaninha, e a porta trancada tirava da cabeça a casa inteira, com telefone, visitas e conta a pagar.
O que interessa ao autor que escreve em mesa de cozinha, entre uma tarefa doméstica e outra, é o desenho desse espaço, porque ele pode ser copiado sem galpão, sem jardim e sem inglês de Buckinghamshire.
A seção I entra na cabana e explica, objeto por objeto, de onde veio cada talismã e o que ele fazia pelo trabalho.
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I A DOSE
Os talismãs sobre a mesinha
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Roald Dahl (1916 a 1990), filho de pais noruegueses e nascido em Llandaff, no País de Gales, mandou erguer a cabana nos anos 1950, pouco depois de a família se mudar para Gipsy House. A ideia veio de uma visita ao galpão onde o poeta galês Dylan Thomas escrevia, em Laugharne, também isolado da casa principal.
A bola de papel-alumínio é o objeto mais famoso da mesinha. Dahl começou a formá-la ainda jovem, com as embalagens das barras de chocolate que comia depois do almoço, amassando cada folha sobre a anterior. Com os anos, a bola ficou pesada, do porte de uma bola de críquete.
O chocolate tinha papel antigo na vida dele. No colégio interno de Repton, a fábrica Cadbury mandava caixas de barras novas para os alunos provarem e darem nota. O menino que avaliava protótipos de doce virou o homem que inventou Willy Wonka, e a bola prateada ficava ali como lembrete dessa origem.
O osso tem explicação mais crua. Depois de uma cirurgia de prótese de quadril, Dahl pediu ao hospital a cabeça do fêmur (a ponta arredondada do osso da coxa, que encaixa na bacia) que tinha sido retirada. Guardou a peça na mesinha, entre lápis e papéis, e a mostrava a quem chegava perto da porta.
Havia outros itens de estimação: fotografias da família, cartas, pequenos objetos que ele juntava por afeto. Nenhum servia para consulta. Diferentes de uma ficha de personagem, os talismãs não davam informação ao livro. Davam ao autor um lugar que só podia ser dele.
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A cabana funcionava porque tudo nela dizia a Dahl que ali dentro só existia o livro.
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A tábua fechava o conjunto. Era uma prancha feita sob medida, forrada de feltro verde como mesa de bilhar, com uma canaleta para os lápis. Apoiada nos braços da poltrona, ela virava superfície de escrita sem obrigar o corpo a se curvar sobre uma mesa.
Dahl tinha motivo físico para essa escolha. Depois do acidente de 1940, ele passou por sete operações na coluna, e sentar ereto numa cadeira dura por duas horas o deixava travado. A poltrona com a tábua deixava a coluna apoiada o tempo todo.
A cabana foi preservada depois que ele se foi, em 1990. Em 2011, o interior inteiro, com poltrona, tábua e mesinha, foi transferido para o Roald Dahl Museum and Story Centre (Museu e Centro de Histórias Roald Dahl), aberto em 2005 no próprio vilarejo de Great Missenden, onde o público o vê atrás de um vidro.
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II NA PÁGINA
Duas sessões e seis lápis apontados
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O horário fixo era a peça central do método: Dahl escrevia das 10h ao meio-dia e das 16h às 18h, e a cabana só existia para proteger essas quatro horas. O resto do dia ia para almoço, cochilo, jardim e correspondência.
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O material também era fixo. Ele escrevia a lápis, com os Dixon Ticonderoga amarelos que encomendava dos Estados Unidos, e começava cada sessão com seis deles apontados. Os papéis eram os blocos amarelos pautados que os americanos chamam de legal pad (bloco de folhas amarelas, com margem vermelha), também importados.
A escolha tinha lógica de oficina. Com seis lápis prontos, a sessão não parava para apontar. Com o bloco apoiado na tábua, ele não precisava levantar. Tudo o que interrompia a mão ficava resolvido com a porta ainda aberta.
O corte do trabalho seguia outra regra. Dahl dizia que nunca encerrava uma sessão num ponto de travamento: parava quando sabia o que vinha depois. Assim, a volta às 16h ou às 10h do dia seguinte começava por uma frase que ele já tinha pronta na cabeça.
Esse cuidado conversa com a dificuldade que ele admitia no começo de cada livro. Dahl contava que um enredo podia levar meses para aparecer, e que anotava ideias soltas num caderno escolar de capa vermelha, às vezes uma frase só, para não perder a centelha no caminho da cabana.
A revisão era lenta. Ele reescrevia páginas muitas vezes à mão antes de mandar datilografar, e só então o texto seguia para o editor. A velocidade vinha da constância das sessões, nunca da pressa dentro delas.
O arranjo pode ser adaptado por quem não tem galpão nem blocos importados:
| 1 | Escolha duas janelas curtas no mesmo dia, de uma a duas horas, e mantenha o horário por sete dias seguidos. | | | | 2 | Separe o material antes de começar: lápis apontados, caderno aberto, arquivo já na página certa. | | | | 3 | Defina um lugar que só sirva à escrita, mesmo que seja uma poltrona de canto, e avise a casa que ali não se entra. | | | | 4 | Encerre cada sessão quando souber a próxima frase, e anote essa frase na última linha da página. | | | | 5 | Guarde um caderno pequeno só para ideias soltas, fora do manuscrito. | | |
O limite do método é de rotina familiar. Dahl tinha casa grande, jardim e uma família que aceitava a porta fechada. Quem divide a sala com filhos pequenos ganha mais com o horário fixo e o material pronto do que com o isolamento completo.
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