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A alameda que reprovava frases
Em Croisset, Gustave Flaubert gritava cada trecho de Madame Bovary na alameda do jardim antes de aceitar a frase no papel.
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A alameda do jardim em Croisset
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Uma alameda de tílias, uma folha recém-copiada, uma garganta cansada. Os três formavam o tribunal que aprovava ou reprovava cada frase escrita na casa de Croisset, às margens do Sena, perto de Rouen.
O dono da casa era Gustave Flaubert, e o expediente dele terminava de pé, ao ar livre. Escrevia à noite, copiava o trecho do dia numa folha limpa e levava a folha para a alameda do jardim.
Ali ele lia o texto em voz alta, no volume mais alto que a garganta aguentava. O nome que ficou para o hábito foi gueuloir, palavra tirada do verbo francês gueuler, que quer dizer berrar, e que se traduz como berreiro.
A regra não admitia apelação. Trecho que tropeçava na voz voltava para a mesa: sílaba repetida, rima acidental dentro da prosa, fôlego que acabava antes do ponto final, consoante que travava a língua.
Nenhum desses defeitos aparece na leitura silenciosa. O que a voz denuncia é sonoro, e o olho passa por cima sem reclamar, porque o olho corrige sozinho aquilo que a boca não consegue executar.
O procedimento tinha ordem fixa. Primeiro a escrita da noite, depois a cópia numa folha limpa, depois a caminhada até a alameda, e só então a leitura berrada do trecho, uma vez, duas, quantas fossem necessárias até a garganta atravessar o parágrafo inteiro sem esbarrar em nada.
O livro que saiu desse procedimento foi Madame Bovary, começado em setembro de 1851 e terminado em abril de 1856, publicado em folhetim pela Revue de Paris entre outubro e dezembro daquele ano.
O custo do método era o calendário. Gritando cada parágrafo antes de aceitá-lo, o romance consumiu quase cinco anos de trabalho quase diário, e as cartas de Flaubert a Louise Colet, reunidas na Correspondance, registram semanas inteiras gastas em poucas páginas.
A seção a seguir monta a cronologia por dentro: onde ficava a alameda, quem ouviu as leituras, o que a voz reprovava e o que continua sem registro preciso nessa rotina.
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I A DOSE
O teste feito com a garganta
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Gustave Flaubert lia cada trecho novo em voz muito alta na alameda do jardim de Croisset, e devolvia à mesa tudo que tropeçava.
Gustave Flaubert viveu na casa de Croisset, na comuna de Canteleu, ao lado de Rouen, desde 1844, quando a família comprou a propriedade, até o fim da vida dele em 1880, e foi ali que escreveu quase toda a obra. O gabinete dava para o Sena, e o jardim tinha uma alameda de tílias que descia até a beira do rio.
A rotina tinha hora. Ele trabalhava da tarde à madrugada, um período longo de escrita com pouquíssima produção contabilizada ao fim, porque cada trecho passava pelo teste antes de ser considerado pronto.
O teste consistia em ler em voz muito alta o que tinha acabado de sair. Não era leitura para plateia: era medição do texto por um instrumento que o autor já carregava, a própria voz, capaz de mostrar onde a frase pedia ar que não existia.
O nome do hábito veio depois. Gueuloir designa tanto o ato de berrar o texto quanto o lugar onde ele era berrado, e o termo se fixou na tradição literária francesa por conta dos relatos de quem frequentou a casa.
Guy de Maupassant, discípulo que passou temporadas em Croisset, deixou o registro mais citado do procedimento no ensaio sobre Flaubert que publicou em 1884, quando organizou uma edição das cartas do mestre.
Houve também ouvintes de carne e osso. Louis Bouilhet, poeta e amigo de infância, ia a Croisset nos fins de semana e escutava trechos inteiros de Madame Bovary em voz alta, apontando o que soava falso ou o que soava de mais.
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O que a garganta media era ritmo: se a prosa aguentava a mesma cadência de um verso, ela passava; se pedia rima, repetia som ou obrigava a respirar no meio da oração, voltava para a mesa. A frase só era aceita no papel depois de sobreviver ao teste.
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A conta de tempo explica o resto. O romance começou em setembro de 1851, foi entregue em abril de 1856 e saiu em folhetim na Revue de Paris no fim daquele ano, antes de virar volume pela editora Michel Lévy em 1857.
A publicação cobrou um preço a mais. O texto foi levado ao tribunal correcional de Paris por ultraje à moral pública e à religião, em processo julgado em janeiro de 1857, com absolvição do autor e do editor em 7 de fevereiro de 1857.
Um ponto precisa ser dito com todas as letras: não existe registro exato de quantas horas por dia ele passava lendo alto, nem certeza de que gritava ao ar livre todos os dias. O que ficou documentado são as cartas dele sobre a sonoridade da prosa e os relatos de quem esteve na casa, e o desenho fino da rotina segue sem fonte que o feche.
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II NA PÁGINA
Como gritar o próprio texto
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O caso cobra três providências de quem escreve: ler em voz alta antes de aceitar o trecho, marcar o lugar exato onde a voz tropeça, e reescrever mirando o ouvido, nunca o olho. Nenhuma delas custa dinheiro e as três cabem numa sessão curta de trabalho.
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Comece pela leitura. Texto lido com os olhos passa por dentro de uma voz interna que ajusta tudo sozinha, encurta a pausa que faltou e emenda o som repetido; texto lido com a boca aberta entrega o defeito de imediato, porque a garganta não improvisa.
Passe à marcação. Enquanto lê, faça um traço no papel toda vez que precisar respirar fora do ponto, toda vez que engasgar numa sequência de consoantes e toda vez que ouvir duas terminações iguais próximas. O traço vale mais que a lembrança do trecho ruim.
A terceira providência é onde a maioria desiste. Reescrever para o ouvido significa trocar palavra certa por palavra que soa, cortar oração inteira porque o fôlego não alcança e aceitar que a versão mais bonita na tela pode ser a pior quando alguém abre a boca.
| 1 | Escolha hoje um trecho seu de 300 palavras e leia inteiro em voz alta, de pé, no volume de quem fala com alguém a cinco metros. | | | | 2 | Marque com um traço cada ponto em que você respirou fora da pontuação ou engasgou numa palavra. | | | | 3 | Reescreva só os trechos marcados, um por um, cortando sílaba e trocando palavra até a leitura correr sem traço novo. | | | | 4 | Leia o trecho corrigido em voz alta uma segunda vez, e só então salve o arquivo. | | |
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“Uma boa frase em prosa deve ser como um bom verso, inalterável, igualmente ritmada, igualmente sonora.”
> Gustave Flaubert, carta a Louise Colet de 22 de julho de 1852, em Correspondance
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A frase é uma especificação técnica, não uma declaração de gosto. Ela trata a prosa como material com medida própria, e material com medida se afere com instrumento, papel do gueuloir naquela casa.
Vale separar o que o método resolve do que ele deixa em pé. Ele resolve cacofonia, repetição de som, oração comprida demais para o fôlego e ritmo monótono. Ele não resolve personagem sem desejo, cena sem conflito nem capítulo que não leva a lugar nenhum.
Uma advertência de contexto evita a leitura ingênua. Flaubert tinha renda de família, casa no campo e nenhum emprego a cumprir, portanto podia gastar cinco anos num romance. Quem escreve com expediente diário aplica o teste em trechos curtos, não no livro inteiro.
E existe um ganho de rotina no procedimento. Quem lê alto todo dia descobre o próprio vício sonoro em poucas semanas, a palavra que sempre repete, a construção que sempre alonga, e passa a evitá-la já na primeira versão, o que encurta a revisão seguinte.
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