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A abertura que Murakami escreveu em inglês
Com uma Olivetti na mesa da cozinha, Haruki Murakami redigiu o começo do primeiro romance em inglês e traduziu o texto de volta ao japonês.
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A Olivetti na mesa da cozinha
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Uma máquina de escrever Olivetti, um dicionário de inglês de bolso, um maço de papel comprado na véspera. Os três ficavam sobre a mesa da cozinha de Haruki Murakami em Tóquio, na madrugada, depois que ele fechava o bar de jazz onde trabalhava.
A máquina não estava ali para produzir um livro em inglês. Murakami já tinha um rascunho em japonês e recomeçou a abertura numa língua que dominava pouco, com vocabulário curto e frases simples, para depois verter o trecho de volta ao japonês.
O problema que ele queria resolver era de estilo. A prosa saía empolada, carregada de recurso emprestado dos romances japoneses que admirava, conforme o próprio autor contou em Novelist as a Vocation (Romancista como Profissão), livro dele publicado em 2015.
A limitação virou método. Escrever com repertório pequeno obrigava a frase curta, a palavra comum e a ordem direta, e o texto traduzido para o japonês chegava sem o excesso que travava a página.
O bar era trabalho de verdade e comia o dia inteiro. Murakami e a mulher, Yoko, tocavam o Peter Cat, casa de jazz que eles abriram em 1974 no subúrbio de Kokubunji, e a escrita acontecia depois de lavar copo, fechar caixa e apagar a luz do salão.
Não havia contrato nem encomenda. Nenhum editor esperava página de um dono de bar de 29 anos que nunca tinha publicado uma linha, e o manuscrito inteiro dependia de uma decisão tomada sozinho na cozinha.
Existe um detalhe que separa o caso de uma anedota simpática. O procedimento tem etapas repetíveis: escrever mal de propósito numa língua pobre, traduzir o resultado e ficar com o ritmo que sobrou da travessia.
A seção a seguir abre o caso por dentro: a tarde no estádio em que a ideia apareceu, quanto tempo durou a escrita noturna, o que aconteceu com o rascunho em japonês e o destino do livro depois de enviado a uma revista literária.
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I A DOSE
A Olivetti na mesa da cozinha
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Haruki Murakami refez a abertura do primeiro romance em inglês e traduziu o trecho de volta ao japonês.
Haruki Murakami nasceu em Kyoto em 1949, abriu com a mulher um bar de jazz em Tóquio em 1974 e escreveu o primeiro romance aos 29 anos, na mesa da cozinha, depois do expediente. A cena de partida tem lugar, data e placar, porque ele a registrou várias vezes em texto próprio.
A ideia apareceu numa tarde de abril de 1978, no estádio de Jingu, em Tóquio. Murakami assistia à partida de abertura do Yakult Swallows contra o Hiroshima Carp, viu o rebatedor Dave Hilton mandar a bola para o campo esquerdo e teve a sensação súbita de que conseguiria escrever um romance.
A compra veio no caminho de casa. Ele passou numa papelaria, comprou papel e uma caneta-tinteiro, e passou a escrever de madrugada, sozinho, nas horas que sobravam entre o fechamento do bar e o sono.
O primeiro rascunho em japonês saiu e não serviu. Murakami relata que o texto ficou pesado, cheio de maneirismo de romance que ele tinha lido, e que reler aquelas páginas deu vontade de abandonar o projeto.
A Olivetti resolveu o impasse pela via mais estranha possível. Ele pôs a máquina na mesa, refez a abertura em inglês com o repertório limitado que tinha, e depois traduziu o trecho para o japonês, sem tentar recuperar o brilho da versão descartada.
O que sobrou da travessia foi um jeito de escrever. Frases curtas, parágrafos que respiram, vocabulário comum e uma cadência que o autor reconheceu como sua, encontrada pela obstrução e não pela inspiração.
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Escrever numa língua pobre funciona como uma peneira: só passa a ideia que resiste à frase simples. O ornamento fica preso na malha, e quem lê recebe o que sobreviveu à travessia.
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O manuscrito terminado tomou cerca de seis meses de madrugadas. Murakami datilografou a versão final, enviou o texto ao concurso de estreantes da revista literária Gunzo e não guardou cópia, gesto que ele mesmo descreve como sinal de que não contava com resposta nenhuma.
A resposta veio em 1979. O romance Kaze no uta o kike (Ouça a canção do vento) venceu o prêmio Gunzo de escritor novo, foi publicado pela Kodansha naquele ano e tirou Murakami do anonimato sem que ele largasse o bar de imediato, porque a casa de jazz continuou aberta até 1981.
O preço apareceu na recepção. Parte da crítica japonesa recebeu com desconfiança uma prosa considerada americanizada demais, e a acusação de estrangeirismo acompanhou o autor por anos, mesmo enquanto os livros vendiam e ganhavam tradução fora do país.
Um ponto fica em aberto e convém dizer com todas as letras. Murakami nunca registrou quantas páginas passaram pelo procedimento de escrever em inglês e traduzir, nem preservou o rascunho descartado, então não existe documento que permita medir qual porcentagem do livro publicado nasceu por esse caminho. O que está provado é o relato do autor sobre a abertura e o resultado, que é o livro publicado em 1979.
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II NA PÁGINA
O truque da língua pobre
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O procedimento que Murakami usou tem quatro peças: um trecho curto, um repertório deliberadamente estreito, uma tradução de volta e a decisão de ficar com a versão traduzida. Nenhuma delas exige saber inglês, e a versão doméstica funciona dentro do português.
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Comece pelo trecho curto. A troca de língua ou de registro custa energia e não se sustenta por um capítulo inteiro, então o alvo é a abertura, a primeira página, o parágrafo que você reescreveu quatro vezes sem melhorar.
Passe ao repertório estreito. Quem não escreve em outra língua consegue o mesmo efeito impondo uma regra dura ao português: frases de no máximo doze palavras, zero adjetivo, zero oração subordinada, só palavras que um adolescente usaria numa conversa.
A tradução de volta faz o terceiro trabalho. Você reescreve o trecho empobrecido no seu registro normal, com a liberdade toda de volta, e percebe que metade dos enfeites da versão original não pede para voltar.
A decisão final fecha o método. Ficar com a versão que veio da travessia exige abrir mão de frases das quais você gosta, e essa renúncia é o que separa quem faz o exercício de quem apenas brinca com ele.
| 1 | Escolha um trecho de até 200 palavras do seu manuscrito, de preferência a abertura, e cole o texto num arquivo novo. | | | | 2 | Reescreva o trecho inteiro com frases de no máximo doze palavras, sem adjetivo e sem oração subordinada. | | | | 3 | Reescreva a versão empobrecida no seu registro normal, sem consultar o original, uma passada só. | | | | 4 | Compare as três versões lado a lado e marque as frases do original que você não sentiu falta nenhuma de recuperar. | | |
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“O que eu buscava, escrevendo primeiro em inglês e depois traduzindo para o japonês, era um estilo neutro e sem ornamento, que me desse liberdade de movimento.”
> Haruki Murakami, Novelist as a Vocation, 2015
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A frase explica a aposta central do procedimento. O autor não estava atrás de inglês bonito nem de fidelidade de tradução, e sim de um estilo despojado que aguentasse o peso das histórias que ele queria contar.
Vale separar o que o exercício resolve do que ele deixa em pé. Ele resolve prosa inflada, vício de imitação e abertura travada, que são os defeitos que mais fazem um leitor abandonar o livro na primeira página da amostra grátis. Ele não resolve enredo sem conflito, personagem sem desejo, pesquisa faltando nem título que ninguém clica na loja.
Uma advertência de contexto evita a leitura ingênua do caso. Murakami estreou num mercado japonês com revistas literárias fortes, prêmios de revelação bem estabelecidos e editoras grandes procurando nome novo, estrutura que fazia um manuscrito de desconhecido chegar a leitor profissional. O procedimento organizou a prosa dele; o circuito editorial da época abriu a porta.
Duas adaptações deixam o exercício viável no mercado de hoje. Fazer a travessia pela descrição do livro na loja, e não pelo romance, entrega retorno em minutos, porque o texto tem sete linhas e o leitor decide a compra ali. Gravar a versão empobrecida em voz alta antes de reescrever também funciona, já que a boca recusa a frase empolada que o olho aceita.
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